Mensagem de natal....

A certeza de que há algo de fecundo, transcendente, nos habitando permite supor renascimentos que justificam Natais. Tomara, tomara mesmo, que esse algo desperte e tenha a leveza de quem me escolheu para dizer simplesmente: Feliz Natal




      Como arrazoar uma mensagem de Natal que não seja trivial, comum, descartável, igual a tantas outras? Como? O que dizer, ou melhor: há algo novo a ser dito?!...
      Com este desafio, dia desses, esperei o sol surgir e no sutil silêncio que descolora a noite impondo luz ao dia, adivinhei uma espécie de grandiosidade da vida. Plenitude. E re-descobri em meu íntimo um deus interior que, cheio de despreocupação, sem laivo de exigência, me fez enxergar apaixonado a complexidade do mundo, do mesmo mundo que nos foi dado viver. Igual a ele – ele em mim – se fez algo majestoso e como menino antigo em uma contemplação miraculosa, numa fagulha, imaginei o encanto daquele que dispensa religiões, cultos, preces, festas, procissões e letra maiúscula.
      Era um deus desprovido de vela, igreja, confessionário, penitência, sermões e que dispensa promessas, indulgências e solenidades absurdas. Deus que alheio aos argumentos mortais, suporta guerras em seu nome e consente sem desatinar que inventemos tudo inclusive um outro Deus que divide, obriga, cobra, julga, castiga. Ao contrario deste, aquele era um formidável ente calmo e carinhoso; ser que flana sobre pecados, maldades, tramas perversas e faltas ardilosas, do mesmo jeito que dispensa benevolências educadas, juízos adestrados, ponderações cultas e aclarações científicas. Trata-se de um deus não superior, pelo contrário, igual a gente e por isto com todos os rostos e vestido com as diferenças convenientes aos utopistas, visionários que divisam o reclamado “mundo melhor, mais justo, mais congruente”. O deus de que falo é de todas as etnias, línguas, orientações; criador admirado das abelhas que cumprem seus favos na mesma lógica dos elefantes que se isolam para morrer; das flores e florestas que admitem a beleza das parasitas e a fortuna da morte fátua que fertiliza futuros. Ah! a perenidade da morte e nossa soberba resistência!

      Sem arrogância alguma, o deus que me permitiu visita era, sobretudo, resignado dos nossos erros tolos feitos em nacionalismos toscos, políticas pretensiosas, morais contraditórias e diferenças de classes sociais. E me dei conta da necessidade que se amiúda em nossos discursos cotidianos tecido de palavras pulcras, mas entupidas de segundas intenções como: ética, tolerância, fraternidade, direito, legalidade e consciência. E achei o viver social/civilizado, tudo, provisório, mesquinho mesmo.
Mas, na meiguice daquele deus não cabia outra atitude que não aceitar, até apático, o esforço sobrenatural, nosso, humano em dominar o tempo, controlar comportamentos e inventar impossíveis imortalidades. E o saber pareceu algo menor, inútil e incapaz de concorrer com açucares naturais, verdes florestas e os vazios de sons.
      A idade da Terra não estava em discussão com aquele deus e sequer a inconseqüência de quantos brincam com o porvir destruindo a organização de rios que levam ao mar descongelando o glacial que equilibra os oceanos e harmoniza a sobrevivência. Não. O que valia era mesmo o questionamento sobre quem somos, aqui, agora e depois.
      E mais: que fazer com o viver que nos resta? Mas, como me pareceu bom aquele deus que não se altera com a hierarquia instalada entre os que possuem e os despossuidos; entre os que podem e os que precisam poder. E vivi humanizando o deus que em mim explica o sonho de ser um ser alguém melhor. E foi assim, na crueza do mundo nosso, no fadário do tempo natalino que pensei na generosidade dos presentes saudando o gesto de dar e deprimindo os conteúdos emblemados em preços, marcas e propaganda. E tudo ficou tão ralo: relógios, jóias, roupas, adornos, brinquedos, objetos. Tudo tão escasso que não fosse o sentido do ofertar, do escolher para o outro, restaria a obrigação mecânica que sozinha apenas sustenta o comercio, a matéria que, afinal, mais abisma as distâncias de seres que são todos, em suas variações, iguais àquele deus que parecia saudoso de nós.
      Inventariando a vida, relacionando-a com o ente que se descobria em mim, encontrei um eixo sobre o qual as palavras escolhidas para esta mensagem ganhariam nexo: falar desse deus que sendo resignado espera que o despertemos primeiro em nós mesmos. A certeza de que há algo de fecundo, transcendente, nos habitando permite supor renascimentos que justificam Natais. Tomara, tomara mesmo, que esse algo desperte e tenha a leveza de quem me escolheu para dizer simplesmente: Feliz Natal.