Foi
bem num domingo que a minha TV a cabo saiu do ar. Sem mais nem
menos, puf. Adeus séries, filmes, documentários,
campeonato europeu. Como não havia para quem reclamar,
o jeito foi dar um pulo na locadora para pegar uma boa “fita”.
Chegando lá, só velharia. Os bons filmes disponíveis
estavam todos colocados em uma estante separada, reservada a um
certo “Blue Ray”.
A moça do caixa foi logo
explicando: “Os dvd´s estão com os dias contados,
a onda agora é o “Blue Ray”. Ele tem qualidade
superior ao atual DVD. Mas o aparelho ainda custa uns R$ 3.000”.
De quebra, ela ainda contou que o Blue Ray tem esse nome porque
o feixe de laser para ler e gravar os dados tem coloração
azul (blue). No DVD convencional, o laser é vermelho. “Daqui
a alguns meses, não vai mais haver DVD convencional aqui
na locadora”. Assustador. Até outro dia, eu pagava
multa quando esquecia de “rebobinar a fita”.
Todo esse preâmbulo é
para explicar como nasceu a idéia de acompanhar um domingo
inteiro de programação na TV aberta. Nas últimas
semanas, as colunas televisivas dos jornais e revistas de fofoca
ficaram especialmente empolgadas com o avanço da Record
e seu “Show do Tom” sobre a audiência supostamente
blindada do “Faustão”. Falou-se muito, ainda,
sobre a queda vertiginosa da audiência do apresentador Gugu
Liberato, do SBT. E sobre a crise do excesso de merchandising
no “Pânico na TV”.
Pior que um domingo convencional
é um domingo de fim de ano. O único jogo de futebol
disponível em toda programação do dia foi
transmitido pela Band: Corinthians X Amigos do Daniel. Não
deu para saber de que Corinthians se tratava, mas pelo tamanho
das barrigas não era o time oficial que disputará
a Série B. Já o outro time pertencia ao cantor sertanejo
Daniel. A locução era profissional, com direito
a Luciano do Vale. Mas o jogo, bizarro. Parecia pelada de fim
de ano da firma.
Zap, zap. TV Gazeta. Um casal animado,
sarado e sorridente entrevista uma modelo com roupas sumárias.
O GC (gerador de caracteres para os não iniciados) ajuda
a esclarecer o teor da atração: “Samille e
Rogerinho entrevistam Karina com vestido cortado”. Esse
foi apenas um dos trechos do “Dolly Show”. Na seqüência,
outra modelo aparece tomando banho e rebolando de biquini, ao
som da música “Dolly, tome guaraná Dolly.
Tome Guaraná, tome guaraná, Dolly. Aprovado... O
sabor brasileiro”. O GC, sempre esclarecedor, informa: “
Bananinha na ducha”.
Zap, zap. Rede Vida. Um religioso com a bíblia na mão
explica procedimentos bancários enquanto o GC em letras
garrafais avisa “Débito automático”.
Sem comentários.
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Zap,
zap. RedeTV. Como ainda é cedo para o “Pânico”,
o jeito é dar uma conferida no “Late Show”,
a única atração canina da TV aberta brasileira.
Em frente a uma bandeira do arco-íris uma loira falante
e teatral faz um discurso sobre a importância dos gays.
Ela está em um “Pet Shop” gay, que foi criado
para “estimular a diversidade”. Lá pelo meio
do programa, surge um poodle com sunga de couro e óculos
escuros. No comercial, a RedeTV apresenta o seu clipe de fim de
ano, onde todo o casting canta junto o refrão “Esse
amor é azul, como o amor azul”.
A tarde avança e finalmente
chega a hora do bom combate. Enquanto Fausto Silva entra no ar
pela Globo, um sósia com a voz idêntica surge na
Record. Trata-se de Fala Silva, apresentador do “Domingão
do Falão”. O estúdio, as dançarinas,
as roupas. Tudo é idêntico ao original. A primeira
atração de “Fala Silva” é anunciada:
“Com vocês, o maior humorista do Brasil, Tom Cavalcanti...”.
Depois de meia dúzia de piada infames, é anunciada
a segunda atração do dia; “Sandy e Júnior”.
Mas quem aparece é o Tiririca (de Júnior) e Tom
Cavalcanti (de Sandy).
Zap, zap. Na Globo, um ator famoso
vestido de bombeiro acompanha uma operação de verdade
da corporação, onde é “registrado um
óbito”. É visível o constrangimento
do ator fantasiado entre os bombeiros de verdade na hora do resgate
de um acidente de carro.
Zap, zap. No canal “Shop Tour”
um homem de terno fala sobre “os panetones lindos da Ofner”.
Credo. Zap.
Enfim, Gugu Liberato dá o
ar da graça no SBT. Não é difícil
entender porque ele vem caindo na audiência. Os primeiros
vinte minutos são todos dedicados ao merchandising testemunhal.
O pior ainda estava por vir. Vinhetas e comerciais inteiros são
exibidos com a presença do apresentador em uma janela no
canto da tela, fazendo cara de aprovação. Banco
Panamericano, Telesena, Carnê do Baú. Na primeira
hora de programa, o SBT mais parecia o “Shop Tour”.
Quando, enfim, começa de fato o programa, a primeira atração
é a uma extensa apresentação de nomes de
famosos que fazem aniversário naquele dia. Tudo bem simples,
no estilo “TV Fama”, da “RedeTV”. Zap,
zap. Começa o “Pânico”. Clipe do Guaraná
Dolly (Dolly, tome guaraná Dolly. Tome guaraná,
tome guaraná...), Sabrina Sato em poses sensuais em cima
de uma moto Suzuki, Surita toma uma Kaiser... Merchan, merchan,
merchan e mais merchan. Zap, zap. Volto para a “Shop Tour”
em busca de um panetone baratinho. Que saudade da segunda feira...
Curtas
“Duas Caras”
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vai morar na favela
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