Estaremos
sempre em protesto contra aqueles que querem nos impor, à
força, sua ideologia, sua religião, seu partido
político, e também fazendo um alerta sobre a força
incomensurável da ignorância. Quando se juntam essas
aberrações, nem sempre o final pode ser como nesta
pequena história verídica.
Mas vamos lá: tenho
um amigo de longa data, sertanista, que provavelmente já
passou mais tempo de sua vida dentro das matas do que na chamada
civilização.
Sem título acadêmico,
biólogo formado na universidade da mata, ele já
prestou grandes serviços de coleta de espécimes
raros para o Museu Goeldi, de Belém do Pará, trabalhou
em levantamentos de campo para a Vale do Rio Doce, Petrobrás
e outras companhias, e já publicou livros.
Acampado num tapiri (aquela
casinha feita de galhos de árvores, coberta de folhas de
palmeira), ele vasculhava a região por dias e dias, atrás
de novidades. Teria sido um ajudante e tanto para George Gardner,
Saint-Hilaire, von Martius e outros que estudaram nossa fauna
e flora.
Pois estava ele havia mais de mês metido na mata, quando
encontrou um grupo de garimpeiros e foi convidado por eles para
partilhar uma refeição, coisa que não se
recusa. E na conversa com os garimpeiros teve lá um tipo,
muito forte, com uma peixeira nas costas, que estava dando uma
aula sobre animais e dizia que morcego é rato velho, que
se transforma como lagarta, e passa a morcegar por aí.
Instruído, meu amigo
tentou corrigir, explicando que são duas espécies
diferentes, dois mamíferos, sim, mas diferentes. O fortão
se invocou e perguntou: “O moço tá duvidando
de ieu? tá me chamando de mentiroso?” – e já
puxou a peixeira para mais perto da mão.
Meu amigo quis continuar vivo
e foi vivo, perguntando: “Pera aí, cê tá
falando de rato grande ou rato pequeno?” “Rato grande!”
“Ah, esse vira morcego sim, com certeza”.
A peixeira voltou pro lugar
e meu amigo tratou de dar o fora, antes que outra discussão
científica fosse resolvida de maneira inadequada.