É bom continuar vivo

Esse conto delicioso de Oscar Sach é a prova mais contundente de que ele é apenas brasileiro e não teuto-brasileiro como um cidadão mais desavisado o chamou em certa ocasião

Por Oscar Sachs

      Estaremos sempre em protesto contra aqueles que querem nos impor, à força, sua ideologia, sua religião, seu partido político, e também fazendo um alerta sobre a força incomensurável da ignorância. Quando se juntam essas aberrações, nem sempre o final pode ser como nesta pequena história verídica.
      Mas vamos lá: tenho um amigo de longa data, sertanista, que provavelmente já passou mais tempo de sua vida dentro das matas do que na chamada civilização.
      Sem título acadêmico, biólogo formado na universidade da mata, ele já prestou grandes serviços de coleta de espécimes raros para o Museu Goeldi, de Belém do Pará, trabalhou em levantamentos de campo para a Vale do Rio Doce, Petrobrás e outras companhias, e já publicou livros.
      Acampado num tapiri (aquela casinha feita de galhos de árvores, coberta de folhas de palmeira), ele vasculhava a região por dias e dias, atrás de novidades. Teria sido um ajudante e tanto para George Gardner, Saint-Hilaire, von Martius e outros que estudaram nossa fauna e flora.
Pois estava ele havia mais de mês metido na mata, quando encontrou um grupo de garimpeiros e foi convidado por eles para partilhar uma refeição, coisa que não se recusa. E na conversa com os garimpeiros teve lá um tipo, muito forte, com uma peixeira nas costas, que estava dando uma aula sobre animais e dizia que morcego é rato velho, que se transforma como lagarta, e passa a morcegar por aí.
      Instruído, meu amigo tentou corrigir, explicando que são duas espécies diferentes, dois mamíferos, sim, mas diferentes. O fortão se invocou e perguntou: “O moço tá duvidando de ieu? tá me chamando de mentiroso?” – e já puxou a peixeira para mais perto da mão.
      Meu amigo quis continuar vivo e foi vivo, perguntando: “Pera aí, cê tá falando de rato grande ou rato pequeno?” “Rato grande!” “Ah, esse vira morcego sim, com certeza”.
      A peixeira voltou pro lugar e meu amigo tratou de dar o fora, antes que outra discussão científica fosse resolvida de maneira inadequada.