
Neva lá fora. O frio com vento é
cortante, intenso e apropriado para os festejos de fim de ano
em Nova York. Preocupações profissionais, conferências
e entrevistas com brasileiros que deixaram o país, me ocupam
de maneira preponderante no encerramento deste ano trabalhoso.
Vim, como sempre, a trabalho, mas criam-se espaços para
outras atividades e ocupações que são significativas:
visitas a museus, óperas, espetáculos. A par dessas
atividades extras, outras, como escrever minha coluna para o Contato,
são deveres quase sagrados. E por falar desta coluna, houve
uma provocação a mais, pois, irônica, a vida
me pregou outra peça.
No final da última semana de novembro,
exatamente no domingo, havia combinado com uma amiga para ir a
uma cerimônia religiosa no Harlem ouvir alguns
spirituals e, ao passar pelo hotel onde ela se hospedava,
no lobby, encontro-me com uma excursão de taubateanos.
Deu-se uma festa interior. Imediatamente reconheci a amiga Isa
Márcia e então se iniciou uma seqüência
de abraços inusitados. Confundi a Telma Baruzzi com a irmã
Claudia, mas a solução do dilema foi fácil
e risonha – afinal não errei de todo. Rever dona
Vera Blois foi uma alegria e dessa feita não errei –
ela não mudou nada, continua linda como era no tempo em
que fui seu aluno no grupo escolar. Confesso que havia outras
pessoas gratas, mas o imediato da situação não
permitia maiores divagações e logo parti.
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Tentei um segundo encontro e até me propus
a voltar, mas a lufa-lufa das propostas pessoais não permitiu.
Pena. De toda forma, não há como negar uma frase
que ouvi (muitas) outras vezes: taubateanos há em toda
parte. É verdade.
Devo dizer que a cada
ano, à chegada do Carnaval, invariavelmente me encontro
com “conterrâneos” nos ensaios da Mangueira.
A queria Duda e o polêmico [Flávio] Sapatão
que o digam. Mas cá e lá, sempre no calçadão
de Copacabana esbarro com alguém. E fico alegre. Dia desses,
no jogo do meu Flamengo com o Vasco, ouvi em pleno Maracanã
um grito de admiração: professor Sebe, o senhor
por aqui?! Juro que me espantei, pois a surpresa deveria ser minha,
mas mais que tudo foi uma alegria assistir o jogo com ex-aluno
agora pai zeloso que mostrava o Rio ao filho.
E como são interessantes esses encontros
casuais. Em minha história de turista, tenho casos a contar
e em duas situações especiais me encontrei com Beatriz
Oliveira Costa no exterior. A primeira delas coincidiu com a inauguração
de minha saga de itinerante quando, nos idos de 1960, fui de navio
para Buenos Aires. Era o Andréa C que então se propunha
a ser o navio da moda. Anos depois, encontramo-nos em Paris, acidentalmente,
na entrada do metrô, e sempre me lembro dela com um casaco
azul. Noutra ocasião, andava com meus filhos, em Milão,
em busca de um restaurante e depois de refinada procura decidimos
por um que, ao entrar, para nossa admiração, deparamos
com uma mesa de amigos onde estava o caro Carmelo e uma simpática
comitiva de companheiros.
Este elenco de casos me fez pensar se não
há algo de louco nessas casualidades. E recordo-me duas
frases famosas, uma de R. D. Laing que diz “paranóico
é aquele que já percebeu que está sendo seguido”;
outro dito apropriado é de Nelson Rodrigues ao garantir
que “o que dá ao homem um mínimo de unidade
interior é a soma de suas obsessões”.
Talvez seja um pouco esta a minha nova mania: onde vou, fico procurando
por taubateanos e até acho que estou sendo buscado, mas
tenham certeza, é uma obsessão amorosa e que dimensiona
saudade da terra, de pessoas queridas. 
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