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Mercado Municipal
O primeiro (ou último?)
reduto dos Taubateanos
Ana Lúcia Vianna
Desde que assumiu a prefeitura em 2005, Roberto
Peixoto promete reformar o Mercado Municipal. Recentemente, incluiu
essa velha promessa em um pacote de obras para o próximo
ano, quando serão realizadas eleições municipais.
Apesar de recorrente, essa promessa nos impele a um tributo ao espaço
que representa o ponto de encontro mais antigo dos Taubateanos cuja
preservação é fundamental para preservar nossa
identidade e fortalecer nossas raízes. E se vai reformar,
por que não promover um concurso público dos projetos
de reforma para que sejam julgados por uma comissão representativa
dos usuários deste local encantado?
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Apesar de modificado,
o Mercadão continua sendo um ponto de encontro imperdível
para os taubateanos de todas as idades e classes sociais. A trabalho
ou a passeio, todos que ali vão enfrentam grandes desafios
e descobrem muitos prazeres.
O primeiro desafio
é a dificuldade em encontrar uma brecha entre as barracas
montadas nos dois lados das ruas. Mas vale a pena. Aos poucos, surgem
variedades de cores e formas dos legumes arrumados como um banquete
para os deuses. O aroma das frutas frescas quase nos faz flutuar
e nosso tato se refina ao escolher o que levar. Ninguém resiste
ao pedaço de pera ou goiaba madura oferecido pelo amigo da
banca que entoa um bordão que nos faz sorrir. Caminhar por
essa trilha é um verdadeiro exercício aos sentidos.
Muitos ainda levam
a própria sacola para não ter de usar tanto saco plástico,
bom hábito que, nesses tempos bicudos, deveria ser mais copiado.
Outros vão puxando seus carrinhos de feira, cujas rodas costumam
arrancar bons pedaços de meia ou de pele dos menos avisados.
A compra da semana começa com feijão novo a granel,
frutas e legumes por unidade, pencas ou baciadas, bem à moda
antiga.
Aos sábados,
a barraca de embutidos de carne de porco merece uma visita, mesmo
sem compromisso, mesmo que seja vegetariano. Atrás dela uma
entrada conduz à casa nordestina de Fátima e Edílson.
Muito atenciosos, orientam a escolha entre mais de 600 marcas de
cachaça e oferecem sempre um trago da boa, em uma pequena
cabaça cortada.
Dentro do mercado,
as pastelarias funcionam como empresas, com funcionários
se revezando para atender a todos os gostos. O delicioso pastel
saboreado em pé pode substituir um almoço Há
45 anos a família Noguti prepara a massa crocante que atrai
um público fiel. Selma, formada em psicologia, filha do Sr.
Cesário, falecido em 87, diz orgulhosa que assumiu o negócio
paterno, mas que a proprietária é ainda dona Kimiko,
sua mãe.
No centro do mercado,
as massas prontas também têm público cativo,
bem como as barracas de doces caseiros. E ali, bem no cantinho,
Dona Francisca vende seus pirulitos coloridos há mais de
30 anos em sua pequena banca. E mais ao fundo, açougues e
peixarias exibem a mesma fartura dos chamados bons tempos.
O cheiro da loja
de fumo de rolo nos alcança e nos conduz a lugares remotos
da infância passada na roça. “Que saudades do
meu avô”, comenta uma moça inebriada pelo perfume
característico. Após 23 anos de balcão, Valmir
diz que ainda tem muitos fregueses que preferem enrolar o fumo na
palha de milho, como nosso típico caipira. E uma passada
pela barraca das ervas secas para aquele chá pode ser certeiro
contra a pedra nos rins.
Na saída,
é a hora de escolher as flores para enfeitar a casa. Por
que não levar também uma muda de roseira ou de alecrim?
Sempre há um cantinho para plantá-las. É o
ponto final da jornada. A feira está completa. Com sorte,
ainda podemos encontrar algum garoto para carregar as sacolas pesadas
até o carro ou até em casa por uns trocados já
combinados.
Aos domingos, é
obrigatória a visita à feira da breganha, mesmo descaracterizada
pela falta de apoio. Mas, com olhos cuidadosos, é possível
garimpar tesouros fora das barracas paraguaias. E para refrescar,
um gole de água da Bica do Bugre. Cuidado, você pode
nunca mais sair de Taubaté ou se o fizer terá de voltar
por benção ou maldição. Pelo menos é
o que diz a lenda.
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Uma dúzia de motivos para ir ao Mercado.
1-Abastecer
a casa com frutas e legumes fresquinhos, escolhidos a dedo, sem
pagar caro.
2-Encontrar alimentos inusitados como mangarito, içá
frita, pamonha na folha de caeté, paçoca de pilão
ou um cacho de coquinho brejaúva.
3-Comprar artigos de desejo como macela para o travesseiro, dálias
e copos de leite trazidos pelas senhorinhas da roça, na
travessa da Igreja de Santana.
4-Trocar receitas com alguém que você nunca viu,
mas que se mostra um “Cordon Bleu” na preparação
do cogumelo, da alcachofra ou do pinhão.
5-Comer pastel de queijo, de palmito ou de carne com cebola e
azeitona, fritos na hora.
6-Bater perna, mesmo que a caminhada seja por ordem médica,
com o cuidado de não machucar a cabeça nas traves
das barracas ou o tornozelo nos carrinhos.
7-Consertar o cabo da panela ou adquirir outra bugiganga para
a cozinha.
8-Apurar o paladar saboreando uma fatia gelada de abacaxi, melancia
ou água de coco.
9- Comprar os pacotes de legumes e verduras fatiados com o capricho
da antiga cozinha do vale.
10-Levar doces cristalizados ou em compota como aos que sua avó
preparava para receber os amigos.
11-Divertir-se com os bordões dos vendedores e as piadas
dos transeuntes.
12-Rever amigos que há tempo não dão notícias.
E de brinde um passeio numa manhã deliciosa!
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Um
pouco do passado.
O povoado de Jacques Felix foi elevado à categoria de Vila
em 1645. Na ocasião contava com apenas 10 ruas onde se
erguiam casas rústicas de pau-a-pique concentradas entre
a Igreja Matriz e a Banda o Tanque (atual Praça do Mercado),
onde os moradores se abasteciam com a água da Bica do Bugre.
A Banda do Tanque era uma lagoa formada pelas águas do
riacho Convento Velho, e servia de elo de ligação
entre o povoado colonizador à margem esquerda e a aldeia
dos índios guaianás, na encosta da colina na outra
margem do riacho.
Com o tempo, tropeiros de passagem e quitandeiros locais passaram
a negociar suas mercadorias enquanto davam água à
tropa. Aos poucos, a região do Tanque foi sendo urbanizada,
modificada e o comércio ali estabelecido progrediu, até
que, no final de 1889 foi inaugurado o Mercado Municipal de Taubaté.
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