Caso Pelzer

Depoimento exclusivo do delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) responsável pelo escândalo mais macabro do ano, Dr. Marcelo Duarte Ribeiro

Por Marcus Citti

       Pelzer. Quem conhecia esse nome, antes do escândalo que envolveu os maiores executivos da multinacional instalada em Taubaté? Talvez nem a polícia, que hoje investiga o plano arquitetado para matar o gerente industrial, Toshio Nakamoto. O que nenhum dos executivos poderia imaginar é que o empresário, Tosca Almeida, contratado para efetuar ou terceirizar o serviço, procuraria a polícia para delatar o episódio.
       CONTATO conversou com o delegado responsável pelo caso, Dr. Marcelo Duarte Ribeiro. Confira os melhores momentos

Marcelo Duarte

       “Primeiramente, o sr Tosca Almeida, que é a pessoa denunciante. Ele nos apresentou como prova, um documento junto a uma gravação, feita por ele mesmo, e também uma cópia do cheque no valor de R$ 250 mil, dado a ele em nome da empresa Pelzer Systen. O cheque foi depositado na conta do denunciante e ele inclusive apresentou o extrato com o cheque compensado. Na denuncia dele constava justamente esses fatos, onde os diretores da empresa Pelzer o teriam o contratado para que ele fizesse fim à vida do gerente industrial da empresa, o Sr. Toshio Nakamoto.
       Então, a partir deste ponto, Tosca disse aos executivos, num primeiro momento, que iria pensar e que não queria [executar a tarefa]. Na realidade, o Sr. Tosca é dono de uma empresa de cobranças, que vem cobrando valores, em tese, que a Pelzer deveria à empresa Indaru, que é a proprietária do imóvel onde, hoje, é estabelecida a empresa. [Por] Várias vezes, Tosca esteve em contato com os executivos. E numa dessas oportunidades, foi convidado pelos diretores, para que ele deixasse essa cobrança, assim ele receberia R$450 mil, para efetuar a morte de Toshio.
       Ele [Tosca], no intuito de receber os valores devidos pela Pelzer a Indaru, alimentou os diretores dizendo que realmente poderia fazer aquele serviço. Então, os diretores, prontamente, efetuaram o pagamento de R$250 mil, na promessa de dar o restante assim que ele fizesse fim a vida do Sr. Toshio. Só que, na realidade, Tosca percebeu, em contato posteriores com os diretores, que eles realmente estavam com o intuito de pôr fim à vida do gerente.
       A partir desse momento, Tosca passou a gravar as conversas porque, em momento algum, ele manifestou realmente o interesse de matar Toshio. Então, ele denunciou, primeiramente, ao dono da Indaru. E essa pessoa imediatamente fez com que ele comunicasse à polícia. Por esse motivo, houve a denúncia.
       A partir do que nós (Policia Civil) tínhamos, os atos preparatórios de um crime, crime esse que não ocorreu e não viria a ocorrer, porque já era do conhecimento da policia, nós convidamos a vitima para vir até a delegacia. O Sr. Toshio ouviu a gravação e viu a cópia do cheque. Assim [ele] tomou ciência dos fatos e quis que nós processássemos e investigássemos esses diretores pelo crime de ameaça. Mas, perguntando a Toshio qual o motivo que ele acreditava que poderia a Pelzer estar querendo mata-lo, a única coisa que ele vislumbrou foi: a Pelzer vem utilizando uma matéria-prima inferior e não homologada pela Volkswagen. Toshio só imaginou essa situação.
       Quando nós deparamos com essa situação, também vislumbramos um crime de estelionato e formação de quadrilha porque todos os diretores, em tese, estão relacionados e sabendo dos fatos. Então, nós representamos ao poder Judiciário, foi aceito pelo juiz com a participação do Ministério Público, e com isso conseguimos a expedição do mandato de prisão temporária e o mandato de busca para que nós pudéssemos dar o comprimento lá na Pelzer.
       Pedimos a prisão de 5 diretores. Um deles é o representante do Banco Goldman Sachs, detentor das ações da Pelzer no mundo; o presidente da empresa no mundo; do presidente da empresa Brasil; do vice-presidente do Brasil; e do diretor financeiro, que foi a pessoa que assinou o cheque de R$250 mil. Na sexta-feira, 7, nós, a Polícia, fizemos o cumprimento das prisões dos três diretores daqui de Taubaté. Eles foram interrogados, não se manifestaram, disseram que só iriam falar em juízo.





       Para prosseguir, arrecadamos todas as provas necessárias, as notas fiscais, todos os controles que comprovam a compra da mercadoria e apreendemos também, para a perícia, a matéria-prima e o produto final acabado. Para que a matéria-prima pudesse ser analisada, [saber qual é sua] a composição química, mandamos também ao IPT os pára-choques já confeccionados, para a verificação da resistência, eficiência e durabilidade desses produtos. Agora, vamos aguardar a resposta que está prevista para sair dentro de 30 dias, para que o inquérito possa ser concluído.
       Quanto aos 2 diretores que não foram presos, eles se encontram fora do Brasil. Mas, nós (Policia Civil) já comunicamos a Polícia Federal que já tem cópia do mandato de prisão. Se por ventura os diretores chegarem ao Brasil, eles poderão ser presos. [Se ocorrer] Será uma prisão temporária, de 5 dias, como foi a dos outros diretores.
       Então, por que os outros diretores saíram da prisão? Eles saíram no final da tarde da sexta, 7, porque os advogados entraram com uma representação para a revogação da prisão temporária [e a Justiça acatou].
       E, com referencia às demais investigações, na quarta-feira o Sr. Tosca apresentou os R$ 250 mil para depósito em conta judicial, que ficará à disposição do juiz até a conclusão do processo. No mesmo dia, também foi ouvido o dono da empresa Indaru, ele é a pessoa contratante do serviço do Sr. Tosca para a cobrança dos valores que, em tese, a Pelzer devia a Indaru.

Outro lado

       CONTATO procurou o homem marcado para morrer, Sr. Toshio Nakamoto. Instruído por seus advogados, apenas declarou: “Esse negócio já deu muita coisa, então melhor não mexer mais nisso”.
       Da mesma forma, o advogado dos diretores da Pelzer, Daniel da Freita, não atendeu as ligações de nossa reportagem.