Os moradores do bairro Jardim das Nações foram pegos
de surpresa no dia 28 de novembro quando o Diário Oficial
publicou o Decreto Municipal 11.453 de 26 de novembro de 2007,
assinado pelo prefeito Roberto Peixoto autorizando o fechamento
das ruas Venezuela, Bolívia, Peru e Grécia. O fechamento
atende ao pedido feito pela recém criada Associação
de Moradores do Residencial das Nações.
Caso se
concretize, trata-se da apropriação do espaço
público por um grupo privado. Segundo o renomado jurista
especialista em Direito Constitucional Dalmo de Abreu Dallari
declarou ao jornal Vale Paraibano, trata-se de um decreto inconstitucional
por “transformar o espaço público em espaço
privado. [Para tanto] Seria necessário que os moradores
da cidade fossem ouvidos para uma alteração dessa
envergadura que vai afetar gravemente o direito de toda a cidadania
do município”.
O erro jurídico
cometido pelo prefeito vai muito além. No decreto 11.453,
o prefeito afirma textualmente que sua decisão foi baseada
nos “pareceres técnicos favoráveis emitidos
pelo Departamento de Trânsito do Município, Área
Especial de Meio Ambiente e Departamento de Planejamento de Desenvolvimento
do Município”. Acontece que o Processo nº 6768/07,
no qual o prefeito se baseou, na terça-feira, 11 de dezembro,
na frente e verso da folha 19 continha os pareceres do Departamento
de Trânsito e do Departamento de Meio Ambiente, ambos contrários
ao fechamento das ruas.
Cláudia
Carmona, gerente da área de planejamento de Trânsito
escreveu em 8 de março desse ano que “o solicitado
não atende o disposto no artigo 65 A, da Lei Complementar
121/05”. O engenheiro Ralph, do Meio Ambiente, por sua vez
redigiu no dia 12 do mesmo mês que “como já
observado pelo Departamento de Trânsito, o solicitado não
atende o artigo 65 A, da Lei Complementar 121/05”. E para
completar, o diretor de Desenvolvimento Econômico, Antônio
Roberto Paolicchi, no mesmo dia despacha que “devido ao
não atendimento do requerido aos preceitos legais vigentes,
somos contrários à sua aprovação”.
Ou seja, na data em que o prefeito assina o Decreto 11.453, ele
não dispunha de outros pareceres além desses três
emitidos por funcionários da própria Prefeitura.
Reação
A primeira
medida contra o fechamento foi tomada por Cleber Henrique de Azevedo
Ramos, morador da residência localizada na esquina da rua
Peru com a rua Japão.
Ramos fez
uma representação ao Ministério Público.
A resposta foi, além de uma carta parabenizando-o pela
iniciativa, uma solicitação à prefeitura
para suspender o processo e não realizar qualquer obra
até que seja realizada uma nova avaliação.
Isabel,
esposa de Cleber, conta que o casal foi contra esse projeto desde
o dia em Marcelo Miranda Beringh, um dos proprietários
da Rádio Difusora, Otávio Correa, um dos sócios
da Mil Clean, e o ex-promotor aposentado José Bernardes
Gil os convidaram para aderir à iniciativa. Diante da recusa,
ela conta que os três chegaram a insinuar que o fechamento
poderia ser feito no meio do quarteirão da rua Peru, o
que criaria um beco sem saída no local. Os três ainda
teriam dado um prazo de apenas 5 dias para que o casal decidisse.
Essa iniciativa
que teve início no primeiro semestre só veio à
tona com a assinatura do decreto 11.453, de 26 de novembro. Chocados
com a descoberta da iniciativa urdida na surdina, os moradores
da rua França se reuniram para mostrar sua indignação.
A primeira decisão foi partir para a contra-ofensiva. Imediatamente
foi redigido um requerimento solicitando cópia do processo.
Depois de uma verdadeira via sacra marcada por um jogo de empurra-empurra,
um funcionário da prefeitura informou que dariam uma resposta
até sexta-feira, 14.
Trapalhadas
No departamento
de Trânsito, Milene Furquim de Almeida, uma das moradoras
da rua França que se sente prejudicada pela medida, conseguiu
ser atendida, na terça-feira, 11, pelo arquiteto, ex-diretor
de Trânsito Eugênio Monteclaro César Júnior,
um dos gerentes daquele órgão. Segundo a moradora,
ela ficou surpresa ao ouvir de Monteclaro que “ele já
tinha dado um parecer favorável baseado em uma avaliação
técnica e que tecnicamente não havia problemas,
que não haveria impactos no trânsito da rua França
ou da rua Argentina”. O mesmo Monteclaro teria se pronunciado
contra a iniciativa quando ainda dirigia o departamento de Trânsito,
segundo Milene.
É
sabido que a rua Argentina, lateral ao estádio Joaquinzão,
já sofre freqüentes congestionamentos durante o período
escolar por abrigar três escolas nas proximidades. Nessas
ocasiões, pode-se observar congestionamento que atingem
até as proximidades do Carrefour. E por cauda disso, os
motoristas que vêm pelo túnel atrás do estádio,
para fugir da rua Argentina eles pegam a Grécia ou a Bolívia,
ou a Venezuela, para atravessar a John Kennedy.
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O movimento
ampliou-se. Ninguém entende porque o projeto foi feito
sem o consentimento de todos os moradores do bairro uma vez que
a construção de muros em todas essas ruas beneficiaria
apenas alguns privilegiados.
Antônio
Carlos Valim Cardenudo, morador do local há muitos anos,
ficou inconformado com a autorização do projeto.
Ele e um de seus vizinho discordam do decreto porque consideram
ilegal a obstrução da rua é, porque o alvará
concedido pela Prefeitura fala em construção de
uma Guarita de Vigilância e da construção
de muros em torno destas ruas. "Moro na rua França
com esquina para a rua Grécia. Acho essa medida uma afronta",
declara Cardenudo.
Os que defendem
o fechamento das ruas garantem que não haverá restrição
na circulação das pessoas. Mas os moradores que
moram na vizinhança discordam: "Para passar por essas
ruas, caso sejam fechadas, teremos que nos identificar. É
por ai que a gente passa para fazer caminhada, ir para o centro.
Agora teremos que dar uma volta muito grande”, diz uma moradora
participante da manifestação. Outro morador indignado
era Antonio Ito, "uma minoria não pode prejudicar
a todos, estas ruas são fundamentais".
Providências
Onze moradores
grupo contrário ao fechamento estiveram no Fórum,
na terça-feira, 11. Três representantes foram recebidos
pelo curador de Habitação e Urbanismo de Taubaté,
João Marcos Cervantes. Glauco Almeida Júnior, esposo
de Milene, conta que “fomos orientados a dar continuidade
no abaixo-assinado para que ele seja encaminhado à Câmara,
prefeitura e ao Ministério Público".
Segundo
o Valeparaibano, promotor João Marcos Cervantes teria informado
que foi instaurado um inquérito civil público, com
pedido de informações à prefeitura sobre
o decreto municipal e o fechamento das ruas. Segundo Cervantes,
"dessa reunião com os moradores, foi colocado que,
até mesmo por serem vizinhos diretamente prejudicados com
a medida, eles têm direito de postular judicialmente a revisão
do decreto."
Outro
lado
Apenas o
arquiteto Monteclaro César atendeu nossa reportagem. O
ex-diretor de Trânsito afirma que nunca deu parecer contra
e que o parecer da engenheira Cláudia conteria um equívoco.
“Ela argumentou com base no artigo 65 A, da lei complementar
121, de 21 de janeiro de 2005, de autoria do vereador Chico Saad.
Diante da solicitação do Ministério Público,
fiz uma avaliação técnica para provar que
não haverá impacto no trânsito local. Apenas
isso. A lei teve origem no Legislativo. A mim cabe cumpri-la”.
Perguntado
sobre a opinião do jurista Dalmo Dallari, Monteclaro respondeu
que não cabe a ele julgar ou decidir se a lei municipal
é mais forte ou não do que a Constituição
Federal. E que se houver um movimento contrário, o processo
poderá ser interrompido.
Questionado
sobre o eventual impacto que poderia provocar sobre os usuários
da Vara da Fazenda e da Policlínica, ambos localizados
na avenida John Kennedy, na esquina com as ruas que poderão
fechadas, Monteclaro respondeu: “Os usuários da Policlínica
são pessoas de baixa renda e não se utilizam de
automóveis. E os usuários do Fórum da Fazenda
são poucos e geralmente são funcionários
que costumam estacionar na própria avenida, no sentido
avenida Independência/Estádio Joaquinzão”.

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