PERDÃO E SÍNDROME
DO AMOR NEGATIVO

Fim de ano é o momento mais adequado para balanços reavaliações dos dias que voaram ou apenas se arrastaram. Mestre JC Sebe coloca o perdão como tema central dessa reflexão mesmo que seja apenas superficial porque ela pode camuflar questões que podem nos remeter a fases e períodos até então inimagináveis




     É bom que esta crônica se faça na passagem de um ano para outro. Bom também que se inicie, desde o título, com o “perdão”. Aliás, o termo “perdão” é tão bonito quanto difícil de ser exercitado. Necessário também. Como lembrava Santo Agostinho, perdoar é muito mais do que esquecer, ou como diríamos hoje “deixar pra lá”.
     Perdoar é reconstruir caminhos e manter em perspectivas projetos comuns remanejados a partir de equívocos. Mas, para perdoar é preciso saber de que se indulta. É aí que aflora a questão da “síndrome do amor negativo”. Vejamos: em 1967, nos Estados Unidos, Robert Hoffman, estudioso do comportamento humano, criou este termo para explicar os resultados de ações conseqüentes desenvolvidas tanto de intenções amorosas como de afetos incontrolados.
     A hipótese que detonava a idéia é que, tantas vezes, na melhor das intenções, pais, professores, pessoas apaixonadas, acabam por impor regras ou condutas de conseqüências ruins para a vida de quem tanto queremos. “Síndrome do amor negativo”, contudo, não é uma doença, mas sim um conjunto de manifestações consteladas em atos negativos expressos em dificuldades de relacionamento social. Situações comuns na vida adulta moderna: baixa auto-estima; compulsão para bebidas, drogas ou compras, dependência amorosa, pessimismo crônico, e pouco interesse sexual, são alguns dos efeitos da “síndrome”.

     Dois aspectos chamam a atenção daqueles que se detêm no exame deste fenômeno que é, estranhamente, crescente: a gênese e a dificuldade de sua identificação. Em vista da gênese, para surpresa geral, cabe reconhecer que se inicia na gestação. Ainda no ventre materno, o feto recebe estímulos que podem se desenvolver vida afora. Aceitação ou recusa, alegria ou temores na concepção podem influir na definição precoce da “síndrome”. Rejeição, arrependimentos, medos, tendência ao fracasso, insegurança, incapacidade de superar problemas de relacionamentos, tudo junto, é filtrado para o feto e passado para a criança, mas o mais curioso é que a superproteção e o zelo ilimitado também causam estresses que resultam na “síndrome”.
     A falta de conhecimento sobre o momento gestacional e o “apagamento” das situações pré-natais embaçam a identificação do problema que, quase sempre, é explicado pelo “momento presente”, sem relação evidente com o “passado remoto”. Assim, a dificuldade de identificação é trocada por imediatos, sincronizados com a identificação de atos negativos. Freud já definiu a gravidade do impacto de atos calcados na chamada “primeira infância”. A fundamentação da “síndrome do amor negativo”, portanto, está diretamente ligada a infância. A atrapalhar tudo, a cultura da gratidão familiar coloca obstáculo aos juízos pertinentes que devemos sim ter de nossos progenitores. Mas, diga-se, compreender é o caminho do perdão. Sempre repito que o verbo aceitar é o mais fundamental de todos os termos do dicionário. E se aceitamos, começamos a perdoar.
     Há uma decorrência curiosa deste processo. Desdobramento natural dos problemas da identificação da “síndrome do amor negativo” é que o seu entendimento gera tanto a capacidade de razão do problema como outra virtude, irmã do perdão, a generosidade. Então se fecha o círculo que leva do trauma a redenção: reconhece-se o significado da “síndrome”, entende-se o projeto familiar da concepção ou a geração do problema na criação ou processo educativo, aceita-se o fato e ao perdoar reconhecemos a grandiosidade da vida.