A POLÊMICA DAS
CELULAS TRONCO

Na proposta aprovada na Câmara dos deputados fica expressamente proibida a produção de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível e a clonagem terapêutica com células tronco


      Uma célula-tronco é essencialmente o bloco de construção do corpo humano. As células-tronco dentro de um embrião eventualmente crescerão em cada célula, órgão e tecido no corpo do feto. Diferente de uma célula regular, que pode apenas se replicar para criar mais de seu próprio tipo de célula, uma célula-tronco é pluripotente. Quando se divide, ela pode formar qualquer uma das diferentes células no corpo humano. Além disso, as células-tronco têm também a capacidade de auto-renovação - elas podem se reproduzir muitas vezes.
      Até recentemente, a ciência conhecia dois tipos de células-tronco: células-tronco embrionárias (que vêm de um embrião) e células-tronco adultas (que vêm do coração, cérebro, medula óssea, pulmões e outros órgãos). Porém, nesse mês de Novembro foi publicado na revista Science que uma equipe internacional de cientistas conseguiu "reprogramar" células de pele humana para que tenham características de células-tronco embrionárias, ou seja, um terceiro tipo de células troncos: as células reprogramadas.
      As células-tronco conhecidas há mais tempo são as embrionárias que, aos poucos, com o desenvolvimento do embrião, produzem todas as demais células de um organismo. Essas células surgem a partir da massa de células da primeira fase do desenvolvimento humano que, se implantada no útero feminino, eventualmente desenvolverá um feto. Quando o embrião está entre o terceiro e o quinto dia de idade, ele contém células-tronco, que estão trabalhando para criar os vários órgãos e tecidos que formarão o feto. A retirada de células-tronco produz a morte desse "conjunto de células". Eis aí o fulcro da questão ética.
      O mesmo dilema não acontece com a nova descoberta. Ali, o procedimento de reprogramação das células não apresenta esse problema ético da pesquisa com células embrionárias e é mais fácil de aplicar nos laboratórios de biologia molecular existentes.

     Os adultos também têm células-tronco no cérebro, medula óssea, pulmões e outros órgãos Eles são nossos kits de reparos embutidos, regenerando células danificadas por doenças, ferimentos e desgaste diário. As células-tronco adultas já foram vistas como sendo mais limitadas, apenas desenvolvendo os mesmos tecidos de onde se originavam. Células-tronco adultas são mais difíceis de serem extraídas e cultivadas que suas duplicatas embrionárias ou as reprogramadas
      No Brasil, o projeto de lei de biossegurança, no seu artigo 5º, contempla esse tema quando trata da pesquisa com células-tronco. A formulação aprovada na Câmara Federal proíbe expressamente a produção de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível e a clonagem terapêutica com células pluripotente.
      Na formulação aprovada pelo Senado Federal, fica permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in-vitro e não utilizadas no respectivo procedimento, desde que os embriões sejam inviáveis ou sejam embriões congelados há três anos ou mais, na data da publicação da lei, ou que, já congelados na data da publicação da lei, depois de três anos, contados a partir da data do congelamento.
      Em qualquer caso, faz-se necessária a permissão dos genitores; e as instituições de pesquisa e serviços de saúde que realizem pesquisa ou terapia com células-tronco embrionárias humanas deverão submeter seus projetos à apreciação e aprovação dos respectivos comitês de ética. Tanto na redação aprovada pela Câmara dos Deputados, como na aprovada pelo Senado, está proibida a clonagem reprodutiva (clonagem humana, segundo a redação do Senado).
      A formulação do Senado Federal não inclui a clonagem terapêutica, o que implicaria, na permissão da pesquisa com células-tronco embrionárias de embriões produzidos para fertilização in vitro.