A PALAVRA MAIS BELA DE NOSSA LÍNGUA...

Um concurso realizado por uma livraria do Leblon para eleger o mais belo vocábulo da língua portuguesa despertou o lado poético de Mestre JC Sebe e levou-o a um enigma quase shakespeareano: “de que realmente eu tenho saudade?”





     Volto a dizer que não acho nossa língua portuguesa bonita. Sinceramente, de forma afetiva diria até que é “bem feinha”, meio acanhada, cheia de rima em “ar”, “er”, “ir”, “or” e com as combinações horríveis em “ão”. Tosca talvez fosse um designativo adequado. É por isso, aliás, que tanto valorizo nossos poetas que conseguem com quantidade reduzida de vocábulos o milagre dos versos. E por falar em poetas, pensei logo na Lídia Meirelles, parceira de coluna no Contato, ao ler sobre um concurso singular, programado por uma livraria do Rio de Janeiro.
     Inspirada em uma aventura francesa de 1952, a simpática “Livraria Da Conde”, no Leblon, resolveu reeditar o concurso destinado a eleger o mais belo vocábulo desta nossa “última flor do Lácio”. E foi bem mais democrática, pois na França apenas os acadêmicos puderam votar. Aqui não, todos tiveram o direito. Na primeira etapa, 283 palavras foram apontadas pelos freqüentadores da livraria. No “segundo turno”, com as palavras escolhidas, a grande vencedora foi “saudade”. As demais foram “amor”, “amizade”, “paz”, “felicidade”, “alegria”, “vida”, “alma”, “esperança”, e “liberdade”. Juro que não consegui imaginar o critério das escolhas dos mais de 3.500 eleitores, mas me indaguei: seria pela sonoridade? Ou pelo significado? Pela combinação das letras? Por que essas e não outras? Sem respostas, porém, logo me coloquei na posição de decifrador da alma brasileira e notei que o conjunto geral é harmônico e revelador das nossas utopias.

     Mas fui além. Olhei no espelho de minha alma e me questionei de forma grave “e agora José (Carlos)?”, em que palavra votaria? E não tive dúvida em garantir que a minha escolha concorreria para garantir que é verdade, que “a voz do povo é a voz de Deus”. Sem dúvidas votaria na palavra “saudade”. E aprendi com Fernando Pessoa que “saudades, só portugueses/conseguem senti-las bem/Porque têm essa palavra/para dizer que as têm”. Por lógico, não vou entrar na discussão sobre a exclusividade desse termo como patrimônio lusitano. Não. E não até porque sei dos abismos “patrioteiros” dos que defendem a língua como um dos elementos explicadores da unidade nacional. É verdade, infelizmente, a defesa incondicional da língua como forma de garantir a identidade é manifestação doentia.
     Ao justificar minha decisão, porém, foi preciso que eu verticalizasse meus argumentos. E cheguei a um texto do padre Vieira onde, em magnífico Sermão, ele comenta os mistérios das “Finezas de Cristo”. São seis Sermões de beleza impar que valem pelo conjunto. Em um deles é explorado com rigor a fatal dor de Cristo, e a explicação corre por conta da “ausência” que Jesus teria sentido ao ser sepultado e, por três dias, ficar longe de seu povo amado. É aí que reponta com solenidade o termo “saudade”. Sobre todos os pontos de vista, isto é lindo.
     É provável que a “saudade” – que depois Fernando Pessoa apropria como sendo exclusivamente portuguesa - tenha derivado da proposta que levou, no século XVI, os lusitanos a conquistarem o mundo em nome da propagação do Evangelho. É claro que os interesses materiais, econômicos, mesquinhos porque capitalistas, estavam por trás, mas no discurso era a conquista cristianizadora que vigorava. E se impunha porque metaforicamente era o “novo povo escolhido”, o português, que deveria buscar povos que se reuniriam para cumprir a vontade soberana de Deus que apregoava “haverá um só rebanho e um só pastor”.
     Refletir sobre essas coisas, em particular sobre a simpatia que brasileiros têm em relação à “saudade” me faz pensar no sentido pessoal de cada um. E confesso que formulei um grande enigma pessoal: de que realmente eu tenho saudade?