Era
um sujeito muito estranho. Muito magro, pálido, pernas
compridas, dedos longos. Seu comportamento era completamente diferente.
Às vezes, sumia por vários dias sem que fosse possível
imaginar seu paradeiro. Às vezes conversava com os vizinhos,
outras não cumprimentava ninguém.
Bebia e fumava. Levava uma vida
desregrada. A mãe desesperava-se, dando a entender que
sem tratamento e dieta sua saúde corria grande risco. Afirmava
ser ele diabético, fato difícil de acreditar, pelo
número de refrigerantes ingeridos a todo o momento.
Curiosamente, estava sempre com
roupas de qualidade, sapatos novos, trajes de gente elegante.
E a variedade? Não passava uma semana sem que aparecesse
uma roupa diferente.
Intrigante! Não parecia dispor
de recursos financeiros para tanto. Intrigava também o
fato de estar sempre com as roupas sujas de terra vermelha. Diziam
que caia pela rua, embriagado. Mas, que diabo! As ruas eram todas
asfaltadas! Os jardins eram gramados! Como, então, ele
conseguia sujar-se tanto, incluindo os cabelos? Também
era notado que as roupas rasgavam com facilidade, parecendo terem
sido esfregadas no chão.
Nos últimos tempos, andava
com mais dinheiro, fartando-se mais em bebidas e extravagâncias.
Era funcionário da Prefeitura, mas ninguém imaginava
o setor em que trabalhava. Rotina, já que todos estavam
acostumados a tanta desinformação. Só sua
mãe parecia desconfiar que havia algo errado. A velhinha
ficava cada vez mais preocupada.
Um dia, chegaram homens diferentes,
em carros oficiais. Pareciam investigar alguma coisa. Conversaram,
perguntaram muito e nada decidiram. Havia algo estranho no ar.
Naquele dia ele não retornou
à sua casa. Nem nos dois ou três dias seguintes.
Quando voltou, estava entristecido. Disse à mãe
que a situação estava desesperadora e não
havia jeito de ser resolvida. Fora demitido do serviço
e estava ameaçado até de sofrer penalidades. E contou
de sua dedicação ao trabalho.
Trabalhava no necrotério. Era o mais procurado para os
trabalhos mais difíceis. Se havia uma necropsia com cadáveres
já deteriorados, ele nem ligava. Era capaz de fazer o serviço
saboreando um delicioso sanduíche. Passava toda a noite
trabalhando, se fosse preciso.
Atendendo a curiosidade da mãe,
contou sobre suas roupas. Acompanhava todos os enterros. Quando
o defunto estava com uma roupa que o agradava, desenterrava o
dito cujo à noite, apoderando-se dos sapatos, calça,
camisas... Dificilmente pegava paletós; não tinha
o hábito de usá-los. Não achava justo pegá-los
simplesmente e depois jogar fora.
E as roupas sujas e, às vezes,
esfoladas? É que gostava de dormir nos túmulos.
Conseguia uma abertura, entrava meio se arrastando, com algumas
biritas pela cuca e passava a noite mais tranqüilo que qualquer
outro cidadão. Só usava paletó eventualmente,
nas noites mais frias ou quando chovia. Nos dias de chuva, ia
para casa.
Até ai, tudo bem. Foi levando
sua vidinha normalmente. Conseguiu até o direito de vender
túmulos para aquelas famílias que procuravam, no
cemitério. E aí descobriu que o comprador só
voltava nas vésperas do dia de finados ou quando morresse
um parente.
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Mole! Por que não
vender o mesmo túmulo para outra pessoa? Pensou, pensou
e resolveu experimentar. Não houve problema. Quando um
usuário do túmulo aparecia, logo ele fazia uma reforma,
de momento e, se houvesse uma visita inesperada, tudo estaria
de acordo.
Pois bem! O errado aconteceu no
último domingo. Um túmulo foi preparado para a chegada
de um morto. No velório, cumprimentou os parentes, fez
a cena costumeira, alegrando-se por ter vendido aquele túmulo,
dando a impressão aos compradores de terem feito um bom
negócio.
Conversa vai, conversa vem, e de
repente o susto. Vê chegando um outro defunto para ser velado.
A família havia comprado e pago regiamente, há cerca
de quinze dias, justamente o túmulo que estava aberto para
receber aquele que chegara primeiro.
Não deu para segurar. Largou
tudo, foi-se embora acabrunhado, sabendo que seria o fim. Perderia
o emprego, amigos, oportunidade de bons negócios... Tudo.
Estava desolado. A mãe tentava consolá-lo, dizendo
que arranjaria outro trabalho, num escritório, numa empresa
funerária, quem sabe no Fórum.
Nem todo o esforço da mãe
convenceu-o a aceitar aquela situação. Foi impossível
consola-lo. Foi aí que ela descobriu que, para o filho,
seria fácil de aceitar tudo, menos perder a oportunidade
de vestir-se bem e de dormir sossegado nos túmulos do cemitério.
Choraram juntos.
Paulo
Pereira
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