
A palavra “comemoração”
é das mais intrigantes da língua portuguesa. Combinando
três elementos fundamentais, ela torna-se sinônimo
de festa, celebração e vivas. E de tal forma isto
é verdade que nos esquecemos de pode ser também
referência a tragédias, eventos dramáticos
e fatais. Afinal o coração da palavra é a
palavra “memória” que, quando usada
sozinha, tanto pode ser sinônimo de lembranças como
de recordações tristes ou negativas, de ausência
ou perda.
Memória, quando evocada em latim,
sempre nos lembra missa, defunto, enterro. Quem não se
silencia ao ouvir um “in memoriam”. Mesmo
em convites de casamentos tal expressão se abre às
tristezas, pois, afinal, um ou mais parentes dos noivos não
estarão presentes à grande festa da vida. Mas a
palavra comemoração tem prefixo e sufixo, como se
fossem prenome e sobrenome. Talvez isto seja fator de tanta dignidade.
Gosto de pensar no “co” de comemoração.
“Co” significa junto, unido, e, assim a memória
fica compartida, vivida em sociedade. E isto é bom. O final
“ação” anima tudo, e transforma
a “co-memória” em “ação”
que se celebra junto. Não é lindo? “Co-memória-ação”,
ou “ação de comemorar junto”.
Solidariedade no melhor estilo.
Tudo isso para falar da celebração
do “dia das crianças”. Aliás, é
um dia bem comemorado na medida em que se reparte com outras datas
coincidentes: “dia da Padroeira do Brasil”, Nossa
Senhora de Aparecida, e “dia da chegada oficial dos Europeus”,
espanhóis da frota de Colombo, à América.
De toda forma, este “três em um” é triângulo
que, familiarmente, mais vale pelo dia das crianças.
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Lembro-me que quando era pequeno
não havia tal data ou pelo menos não era tão
celebrado. Antes era, em termos religiosos, a Padroeira que merecia
atenção, e, nas escolas era Colombo. Tudo mudou
muito, e fico pensando no peso fatídico que tal comemoração
carrega hoje. É lógico que elogio a reverência
às crianças. Claro, e nem poderia ser de outro jeito,
mas acho que materializar isso em presentes, em particular em
brinquedos, é pouco ou nada. Se o mesmo raciocínio
vale para o dia das mães ou dos pais concluo que é
urgente que façamos uma reflexão mais atenta ao
sentido de tais celebrações.
Não sejamos tão materialistas,
ou consumistas vulgares. Pensemos que mais do que viciar os pequenos
com brindes que os habilitam a cobranças peremptórias
e dispensáveis, mais valeria um bom livro. Sim, penso no
significado vibrante de se dar livros no dia da criança.
E nem preciso fazer apologia às dimensões dadas
pelas histórias. E como são bonitos os livros de
hoje! Em contraste convido-os a pensar nos malefícios dos
brinquedos modernos, em geral. De plástico, volumosos,
ostensivos, incômodos, de mau-gosto, caríssimos,
tralhas, objetos superáveis que em poucos dias clamarão
por substitutos ainda mais monstruosos, os brinquedos modernos
nada têm a ver com exercícios, com ligações
mentais, com ânimo positivo.
Bonecas para as meninas, nem pensar. Vejo
isto como crime, indução a uma maternidade que não
é escolhida. Carrinhos para os guris, menos ainda. Penso
nos problemas criados pela direção precoce e como
condeno o sexismo polarizado em bonecas para elas, carrinhos para
eles! Por lógico, nem me estendo no caso das “armas
de brinquedos”. Nem pensar. E volto aos livros. Insisto
nos textos infantis e com eles retomo o sentido da comemoração.
Imaginemos que lindo: país, tios, avós, todos lendo
para os rebentos. Com certeza assim teríamos verdadeiramente
“comemoração” ou ação
de comemorar juntos. A leitura nos une, dignifica, faz pensar.

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