DEVOLVAM MINHA
ESCOLA PÚBLICA

A partir dessa edição, CONTATO conta com a colaboração de Oscar Sachs, se apaixonou por Taubaté desde que aqui chegou para trabalhar na construção da Volkwagen. O fino humor de sua crônica inicial dispensa maiores apresentações


Oscar Sachs Jr.

       Tempos atrás, o jornalista Clóvis Rossi publicou, na Folha de S.Paulo, uma crônica intitulada “Devolvam o meu Fernão”, que me emocionou muito. Rossi falava da decadência, no quadro docente e discente, daquela que foi uma escola de referência no ensino público paulista, o Instituto de Educação Fernão Dias Pais, de Pinheiros.
       E dava exemplos: com o francês que aprendeu com a profª Maria Rita, ele se virou muito bem em seus primeiros tempos de correspondente da Folha em Paris. Lógico, precisou aperfeiçoar a pronúncia, o vocabulário, para ser fluente na língua, mas a base toda foi o curso oferecido no ginásio do Fernão.
       Eu também fui aluno do Fernão, um ano de ginásio e três de curso Clássico (completei o ginásio na Caetano de Campos, a gloriosa Escola da Praça, mas essa é outra história), na década de 50, e também lamento a que ponto levaram nosso ensino público, seja no Fernão, seja em qualquer outra escola. Parece-me que não há exceção.
       Nós tivemos aqui em casa um empregado formado no colegial (o 2° grau, hoje ensino médio) de tradicional escola de Taubaté, apto, portanto, a prestar vestibular para qualquer faculdade. Do jeito que a concorrência está brava entre as faculdades particulares, se passar em frente corre o risco de ser aprovado.
       Mas estávamos conversando sobre pagamentos de salários e benefícios, quando caímos numa divisão em que tínhamos que achar uma terça parte. Eu lhe disse que ia arredondar a conta, para fugir da dízima periódica. Aí me deu a dúvida: “Você sabe o que é uma dízima periódica?” “Não sei não”. “Você sabe o que é o número Pi?” “Não sei não, isso é coisa de matemática, nessas aulas a classe toda só fazia zoeira...”
       Se na matemática é ruim, imaginem no português. Não havia jeito de fazê-lo dizer “dei” em vez de “di”. “ Deu milho pras galinhas?” “ Di.” “Deu remédio pros cachorros?” “ Di.” O “mim fazer”, tentei corrigir com uma regrinha prática: “mim” não faz nada, se está fazendo alguma coisa é “eu”. Isto é para eu fazer, comer, lavar, etc. etc. Mim não faz nada. Só ganha, só recebe: este livro é para mim, este prato de macarronada é para mim, etc.etc.





       Não sei se obtive êxito. Pode ser que o rapaz esteja por aí, com um diploma de engenheiro, projetando pontes por onde passarão adultos e crianças. Deus me livre! Pode ter feito um curso de Direito (no exame da Ordem ele não passaria), mas para um currículo de candidato a vice ou a prefeito bastaria. Como diria Lobato, Domine libera me!
       Parem com a zoeira nas escolas públicas. Devolvam nossa escola pública. Por favor, é urgente, devolvam nossa escola pública!