Tempos atrás, o jornalista Clóvis Rossi publicou,
na Folha de S.Paulo, uma crônica intitulada “Devolvam
o meu Fernão”, que me emocionou muito. Rossi falava
da decadência, no quadro docente e discente, daquela que
foi uma escola de referência no ensino público paulista,
o Instituto de Educação Fernão Dias Pais,
de Pinheiros.
E dava exemplos: com o francês
que aprendeu com a profª Maria Rita, ele se virou muito bem
em seus primeiros tempos de correspondente da Folha em Paris.
Lógico, precisou aperfeiçoar a pronúncia,
o vocabulário, para ser fluente na língua, mas a
base toda foi o curso oferecido no ginásio do Fernão.
Eu também fui aluno
do Fernão, um ano de ginásio e três de curso
Clássico (completei o ginásio na Caetano de Campos,
a gloriosa Escola da Praça, mas essa é outra história),
na década de 50, e também lamento a que ponto levaram
nosso ensino público, seja no Fernão, seja em qualquer
outra escola. Parece-me que não há exceção.
Nós tivemos aqui em
casa um empregado formado no colegial (o 2° grau, hoje ensino
médio) de tradicional escola de Taubaté, apto, portanto,
a prestar vestibular para qualquer faculdade. Do jeito que a concorrência
está brava entre as faculdades particulares, se passar
em frente corre o risco de ser aprovado.
Mas estávamos conversando
sobre pagamentos de salários e benefícios, quando
caímos numa divisão em que tínhamos que achar
uma terça parte. Eu lhe disse que ia arredondar a conta,
para fugir da dízima periódica. Aí me deu
a dúvida: “Você sabe o que é uma dízima
periódica?” “Não sei não”.
“Você sabe o que é o número Pi?”
“Não sei não, isso é coisa de matemática,
nessas aulas a classe toda só fazia zoeira...”
Se na matemática é
ruim, imaginem no português. Não havia jeito de fazê-lo
dizer “dei” em vez de “di”. “ Deu
milho pras galinhas?” “ Di.” “Deu remédio
pros cachorros?” “ Di.” O “mim fazer”,
tentei corrigir com uma regrinha prática: “mim”
não faz nada, se está fazendo alguma coisa é
“eu”. Isto é para eu fazer, comer, lavar, etc.
etc. Mim não faz nada. Só ganha, só recebe:
este livro é para mim, este prato de macarronada é
para mim, etc.etc.
|

Não sei se obtive
êxito. Pode ser que o rapaz esteja por aí, com um
diploma de engenheiro, projetando pontes por onde passarão
adultos e crianças. Deus me livre! Pode ter feito um curso
de Direito (no exame da Ordem ele não passaria), mas para
um currículo de candidato a vice ou a prefeito bastaria.
Como diria Lobato, Domine libera me!
Parem com a zoeira nas escolas
públicas. Devolvam nossa escola pública. Por favor,
é urgente, devolvam nossa escola pública!
|