A COPA EM FRASES

De Nelson Rodrigues ao mago Paulo Coelho, passando pelo Casseta Planeta, Platini e Beckenbauer, mestre JC Sebe seleciona e comenta com humor as frases sobre a COPA de 2014 que mais lhe chamaram a atenção





     Como grande parte dos brasileiros, fiquei mobilizado em face da decisão da FIFA confirmar o Brasil como sede para a realização da Copa do Mundo de 2014. Vibrei com a escolha e naturalmente me coloquei ávido a ler o que me caia às mãos e remetia ao tema. Era como se vaidoso buscasse nos jornais a foto de uma vitória que sendo de todos é de cada um. Sabe, parece que caçava elogios, reconhecimento, sei lá. No fundo o que se esperava nessa aprovação era o alento capaz de regenerar nossa auto-estiva tão caída com problemas tipo: congresso nacional, elite da tropa, impostos altos, corrupção e que tais.
     Absorto nas buscas redentoras, contudo me ocorreu a menção de Nelson Rodrigues que reconhecia na primeira vitória mundial do Brasil, nos idos de 1958, na Suécia, o momento de virada na superação de um complexo de inferioridade, atávico em nossa cultura até então. O que Nelson Rodrigues dizia é que em termos internacionais, tímidos e reclusos, nós nos escondíamos atrás de um nacionalismo pueril, defensivo e isso embaçava ver o mundo de maneira competitiva e moderna. E teria sido o futebol que nos redimiu, exibindo-nos donos de gingas, graças e movimentos capazes de expressar alegria. Sim, o futebol brasileiro é vivaz, meio maroto e simpático enganador. Lindo.
     Agora, nesta nova fase de preparação, cabe um balanço capaz de nos dar chão para que pensemos a imagem pública do país. Com a preocupação de ver o presente, então, comecei a caçar frases definidoras do pulso do Brasil e cheguei a algumas que se mostram já candidatas a “clássicas”. Satisfeitas umas, irônicas outras, todas centram o acontecimento como marco decisivo apto a dividir o evento em um Brasil de antes e depois do vindouro campeonato.
     A primeira a merecer destaque, brasileiramente, apareceu no “Casseta e Planeta” e mordia o presidente da República na brincadeira que aproximava a “Copa do copo”, em algo mais ou menos assim “é lógico que a Copa viria no mandato de um presidente que entende de copo”. Risos. Contudo, outras mais desafiaram a atenção e, ainda no rol dos ditos presidenciais, uma que ganhou destaque foi “O Brasil realizará uma Copa para argentino nenhum botar defeito”. Mesmo sem ter claro o porquê, sem motivos para o apelo espontâneo, a vizinha Argentina foi evocada como contraponto obrigatório que formula um “inimigo” presente na memória coletiva. A rivalidade futebolística – só esportiva? – com o país vizinho fez brotar um destaque forte o suficiente para garantir que já começou a competitividade. E meus caros, pensem se a Argentina, num lance de absoluta fatalidade para nós, ganhe a disputa?


     Mas vamos para outros dizeres. Franz Beckenbauer, talvez o mais preparado executivo do mundo esportivo, por sua vez, do alto de sua diplomacia assumiu um discurso polido e político e declarou que “se tem um país no mundo com direito a receber a Copa é o Brasil”, e, nem foi preciso se alongar em palavras para dizer o que nos agradaria e que, ao mesmo tempo, é obvio e simpático.
     Sem duvidas, porém, a frase mais imponente foi dita pelo francês Michel Platini que juntou imagens e fatos e soltou a antológica passagem “(O Brasil) é o país que mais deu ao futebol, o país que venceu mais Copas, de onde saíram mais jogadores espetaculares. Uma Copa do Mundo no Brasil é como ir em peregrinação a Meca, a Santiago de Compostela ou a Jerusalém”. Perfeição, não é verdade? Verdade mesmo, porém, é que esta é uma chance importante. Oportunidade de passar o país a limpo, supondo que somos vistos pelo mundo e que agora podemos exportar o que de melhor temos. E na faxina que se nos foi dada como tarefa, muito mais do que preparar vitórias que se provarão no campo, cabe recolher virtudes e transformar esta ocasião em projeto nacional.
     Nada junta tanto os brasileiros como o futebol e para encerrar esta relação de ditos, apelo para Paulo Coelho que elaborou um encadeamento de palavras mágicas no humor “Já vi muita gente ficar cinco horas a discutir futebol, mas nunca vi ninguém ficar cinco horas a discutir sobre uma relação sexual” e conclui “(A vinda da Copa para o Brasil) é uma vitória que vai durar sete anos. O que vemos na seleção, veremos no povo brasileiro. A capacidade de trabalhar arduamente, de sonhar. Vamos despertar essa emoção, mesmo tendo ganho cinco vezes”. É isto caro mago, falou e disse.