
Como grande parte dos brasileiros, fiquei
mobilizado em face da decisão da FIFA confirmar o Brasil
como sede para a realização da Copa do Mundo de
2014. Vibrei com a escolha e naturalmente me coloquei ávido
a ler o que me caia às mãos e remetia ao tema. Era
como se vaidoso buscasse nos jornais a foto de uma vitória
que sendo de todos é de cada um. Sabe, parece que caçava
elogios, reconhecimento, sei lá. No fundo o que se esperava
nessa aprovação era o alento capaz de regenerar
nossa auto-estiva tão caída com problemas tipo:
congresso nacional, elite da tropa, impostos altos, corrupção
e que tais.
Absorto nas buscas redentoras, contudo me
ocorreu a menção de Nelson Rodrigues que reconhecia
na primeira vitória mundial do Brasil, nos idos de 1958,
na Suécia, o momento de virada na superação
de um complexo de inferioridade, atávico em nossa cultura
até então. O que Nelson Rodrigues dizia é
que em termos internacionais, tímidos e reclusos, nós
nos escondíamos atrás de um nacionalismo pueril,
defensivo e isso embaçava ver o mundo de maneira competitiva
e moderna. E teria sido o futebol que nos redimiu, exibindo-nos
donos de gingas, graças e movimentos capazes de expressar
alegria. Sim, o futebol brasileiro é vivaz, meio maroto
e simpático enganador. Lindo.
Agora, nesta nova fase de preparação,
cabe um balanço capaz de nos dar chão para que pensemos
a imagem pública do país. Com a preocupação
de ver o presente, então, comecei a caçar frases
definidoras do pulso do Brasil e cheguei a algumas que se mostram
já candidatas a “clássicas”. Satisfeitas
umas, irônicas outras, todas centram o acontecimento como
marco decisivo apto a dividir o evento em um Brasil de antes e
depois do vindouro campeonato.
A primeira a merecer destaque, brasileiramente,
apareceu no “Casseta e Planeta” e mordia o presidente
da República na brincadeira que aproximava a “Copa
do copo”, em algo mais ou menos assim “é
lógico que a Copa viria no mandato de um presidente que
entende de copo”. Risos. Contudo, outras mais desafiaram
a atenção e, ainda no rol dos ditos presidenciais,
uma que ganhou destaque foi “O Brasil realizará
uma Copa para argentino nenhum botar defeito”. Mesmo
sem ter claro o porquê, sem motivos para o apelo espontâneo,
a vizinha Argentina foi evocada como contraponto obrigatório
que formula um “inimigo” presente na memória
coletiva. A rivalidade futebolística – só
esportiva? – com o país vizinho fez brotar um destaque
forte o suficiente para garantir que já começou
a competitividade. E meus caros, pensem se a Argentina, num lance
de absoluta fatalidade para nós, ganhe a disputa?
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Mas vamos para outros dizeres. Franz Beckenbauer,
talvez o mais preparado executivo do mundo esportivo, por sua
vez, do alto de sua diplomacia assumiu um discurso polido e político
e declarou que “se tem um país no mundo com direito
a receber a Copa é o Brasil”, e, nem foi preciso
se alongar em palavras para dizer o que nos agradaria e que, ao
mesmo tempo, é obvio e simpático.
Sem duvidas, porém, a frase mais imponente
foi dita pelo francês Michel Platini que juntou imagens
e fatos e soltou a antológica passagem “(O Brasil)
é o país que mais deu ao futebol, o país
que venceu mais Copas, de onde saíram mais jogadores espetaculares.
Uma Copa do Mundo no Brasil é como ir em peregrinação
a Meca, a Santiago de Compostela ou a Jerusalém”.
Perfeição, não é verdade? Verdade
mesmo, porém, é que esta é uma chance importante.
Oportunidade de passar o país a limpo, supondo que somos
vistos pelo mundo e que agora podemos exportar o que de melhor
temos. E na faxina que se nos foi dada como tarefa, muito mais
do que preparar vitórias que se provarão no campo,
cabe recolher virtudes e transformar esta ocasião em projeto
nacional.
Nada junta tanto os brasileiros como o futebol
e para encerrar esta relação de ditos, apelo para
Paulo Coelho que elaborou um encadeamento de palavras mágicas
no humor “Já vi muita gente ficar cinco horas
a discutir futebol, mas nunca vi ninguém ficar cinco horas
a discutir sobre uma relação sexual”
e conclui “(A vinda da Copa para o Brasil) é
uma vitória que vai durar sete anos. O que vemos na seleção,
veremos no povo brasileiro. A capacidade de trabalhar arduamente,
de sonhar. Vamos despertar essa emoção, mesmo tendo
ganho cinco vezes”. É isto caro mago, falou
e disse. 
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