A CEI
Na sessão de 23 de
outubro, dez vereadores - Jéferson Campos (PV), Ângelo
Filippini (PSDB), Henrique Nunes (PV), Luizinho da Farmácia
(PDT), Maria das Graças (PSB), Maria Gorete (PMN), Maria
Tereza (PSC), Orestes Vanone (PSDB), Pollyana Gama (PPS) e Wilson
Vieira (PSDB), que substituía o licenciado Pastor Valdomiro
(PTB), assinaram um requerimento, em regime de urgência,
para a criação de uma Comissão Especial de
Inquérito (CEI) para a “apuração das
eventuais ilegalidades ocorridas” no processo que adquiriu
70 mil exemplares do livro “Taubaté: Cidade Educação,
Cultura e Ciência”, por R$ 1.575.000,00, sem licitação,
sendo que 75,7 % desse valor foi proveniente do FUNDEF –
Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino
Fundamental e de Valorização do Magistério),
um programa do governo federal.
No requerimento, os vereadores
perguntam como é que o Departamento de Educação
sabia com três dias de antecedência “o valor
dos livros sem ter conhecimento da proposta da editora e antes
da abertura do processo [de compra]? E exibem como prova a constatação
de que a Reserva de Empenho traz a data de 8 de julho de 2005,
cinco dias antes da manifestação formal da Procuradoria
Jurídica da Prefeitura.
Os argumentos não param
aí. Os vereadores observam que, na “proposta da editora
que consta do processo está suprimido o nome do autor do
livro que, depois, revelado pela própria editora, é
de autoria de um funcionário da Prefeitura Municipal [professor
Benedito Prado] que atuou no citado processo recomendando a aquisição
dos livros, o que, expressamente, fere o princípio constitucional
da impessoalidade. Em seguida, relatam que funcionários
municipais teriam trabalhado na feitura do livro o que “significa
pagar servidores públicos à prestação
de serviços particulares”.
Arrolam outros argumentos
como a ação movida pelo Ministério Público
Estadual (ver detalhes abaixo), a cessão de direitos autorais
à Editora Noovha América que lucra até hoje
com a venda do livro; a ação derrotada na Justiça
movida pelo diretor do DEC, professor Benedito Prado, contra o
jornalista Djalma Castro e o Jornal da Cidade que publicou seu
artigo apontando irregularidades e acusando de plágio o
conteúdo do livro, e, finalmente, a decisão do Tribunal
de Contas do Estado que considerou ilegal essa aquisição
uma vez que não houve “licitação direta
e formalizada”.
Apesar da força da
argumentação, quatro dos dez signatários
– Henrique Nunes, Luizinho da Farmácia, Tereza Paolicchi
e Pollyana Gama – mudaram de opinião, enquanto Wilson
Vieira foi substituído pelo titular Pastor Valdomiro, fiel
escudeiro do Palácio Bom Conselho.
Ministério
Público
Além da grave falha
administrativa, o livro é uma cópia pessimamente
disfarçada da obra da historiadora Maria Morgado de Abreu,
uma das maiores autoridades em história da cidade e da
Região. Por causa dessa evidência, o Ministério
Público Estadual, através do Promotor José
Carlos Sampaio, moveu uma Ação Civil Pública
contra a Prefeitura Municipal, na 3ª Vara Cível.
O argumento de Sampaio é contundente quando afirma, em
12 de abril de 2006: “Analisando-se a obra adquirida pela
Municipalidade de Taubaté pode-se afirmar que grande parte
dos textos nela inseridos foram extraídos da obra “Taubaté
de Núcleo Irradiador do Bandeirismo a Centro Industrial
e Universitário do Vale do Paraíba”, de autoria
da escritora Maria Morgado de Abreu, cuja edição
coube à Editora Santuário, sendo que a primeira
edição se deu no ano de 1985 e a segunda no ano
de 1991; e da obra “História de Taubaté através
de Textos”, de co-autoria dos escritores Antonio Carlos
Argôllo de Andrade e Maria Morgado de Abreu, que faz parte
do volume de n° 17 da coleção Taubateana, datando
a primeira edição do ano de 1996, e a segunda no
ano de 2004”.
O Promotor vai além
quando afirma que “a parte relativa ao folclore (...) foi,
em grande parte, extraída da obra “Aspectos do Folclore
em Taubaté”, de autoria da escritora Maria Morgado
de Abreu”. Mais adiante conclui que não poderia ter
ocorrido a transferências de direitos autorais e complementa
afirmando que “está diante de ‘Frankstein Literário’”.
No próximo dia 13 haverá
uma audiência na 3ª Vara Civel sobre a ação
movida pelo Ministério Público. Curiosamente, o
diretor do Departamento de Educação, professor José
Benedito Prado, fará um depoimento como testemunha da Editora
Noovha América.
Pizza
e falta de respeito
Diante de tantas evidências
de que se trata de uma verdadeira pirataria intelectual praticada
justamente sobre uma das maiores intelectuais da terra de Lobato,
é de causar náuseas a cumplicidade entre um grupo
de vereadores e os inquilinos do Palácio Bom Conselho para
transformar em pizza uma prerrogativa do Legislativo que é
investigar e ficalizar o desempenho do Executivo.
É inadmissível
e incompreensível que a Administração de
uma cidade que elegeu o turismo como um dos carros-chefe de seu
desenvolvimento econômico trate com tanta falta de respeito
seu patrimônio histórico. Professora Maria Morgado
de Abreu e sua obra fazem parte desse patrimônio entregue
a preço de banana, já que valor histórico
não tem preço, a uma empresa que tem como objetivo
a obtenção de lucro imediato.
Essa falta de respeito pode
ser diagnosticada no despreparo administrativo, na pobreza intelectual
e cultural dos inquilinos do Palácio Bom Conselho assim
como de seus aliados na Câmara dos Vereadores.
Essa falta de respeito será
cobrada “com juro, juro” assim que essas tristes figuras
forem desalojadas da Prefeitura. A ordem de despejo será
apresentada daqui a menos de 11 meses, isso mesmo, menos de 11
meses, por qualquer um candidatos que for eleito que, com certeza,
não será o engenheiro Roberto Peixoto e sua esposa,
como mostram pesquisas recentes que o colocam em 5º lugar
na intenção de votos nas eleições
de 2008.
Truculência
A sessão da Câmara
Municipal, além de assinar em baixo o desrespeito pelo
nosso patrimônio histórico construído com
a produção intelectual de nossos melhores professores
e pesquisadores, foi palco de cenas de truculência, incompatíveis
com sua história e com a consolidação da
democracia. Aos fatos.
Terminada a votação
da CEI que foi arquivada por 8 votos contra sua instalação
– Aryzinho, Henrique Nunes, Chico Saad, Luizinho da Farmácia,
Tereza Paolicchi, Pollyana Gama, Rodson Lima e o Pastor Valdomiro
- e apenas 5 a favor – Ângelo Filippini, Jéferson
Campos, Maria das Graças, Maria Gorete e Orestes Vanone
– a claque palaciana que acompanhava a sessão para
pressionar os vereadores, aplaudiu. Afinal, era o resultado de
uma longa negociação que começou após
o almoço e terminou pouco antes da sessão. A mesa
diretora regozijou-se com essa manifestação que
não foi silenciosa.
Quem conhece minimamente a
história política de Taubaté não conseguia
entender a alegria de petistas que até ontem pregava outros
valores. Nem tampouco a intimidade desses militantes transformados
em paus mandados de seus aliados do PMDB. Quanta alegria diante
de tanta podridão! Quem diria!
No meio dessa festa que deveria
ser um féretro do poder Legislativo, uma voz saiu da garganta
de um solitário cidadão: “Mensalão!”.
O silêncio se fez. Olhares raivosos percorreram as poltronas
para descobrir o autor daquele protesto. “Mensalão!”,
gritou de novo repetidamente Felipe Malta, um jovem economista
de apenas 24 anos.
“É ele de novo”,
berraram alguns vereadores. Imediatamente, o vereador Henrique
Nunes, que segundo seus próprios pares estaria “chapado”,
começou a berrar “seu FDP, seu P, seu M, FDP. Eu
não recebo mensalão nenhum, seu FDP” e partiu
do espaço reservado aos vereadores para tentar agredir
o manifestante solitário.
Estabeleceu-se um grande corre-corre
e muita gente tentou segurar o vereador, que não parava
de vociferar contra o cidadão que não aplaudiu a
decisão da maioria dos vereadores. Nessa confusão,
Felipe, que em nenhum momento esboçou qualquer intenção
de agredir alguém, foi agarrado pelo vereador Rodson Lima
que lhe deu uma gravata e arrastou-o, com ajuda de outros, para
fora do plenário da Câmara.
Nunes não retornou.
A Polícia Militar foi acionada, mas não sabia o
que fazer. Um oficial comentou com a reportagem de CONTATO que
“nessas horas é preciso ter cabeça fria, respirar
fundo, e não foi isso que aconteceu. Esse pessoal não
está preparado para isso”, concluiu. Felipe seguiu
para Delegacia de Polícia na viatura policial para registrar
um BO – Boletim de Ocorrências, onde permaneceu até
as 3 horas da madrugada.
Foi um triste espetáculo
que segundo, segundo André Saiki, ex-presidente da ACIT,
“nunca havia ocorrido naquela Casa”. Um espetáculo
que poderia se chamar CEI, Pizza e Truculência, patrocinado
pelo Palácio Bom Conselho e representado pelos atores palacianos
na Câmara de Vereadores.
Diante dessa postura pouco
louvável da Câmara, vereador Jéferson afirma
que recorrerá à Justiça. Tal qual fez a oposição
parlamentar em Brasília.