
Nunca fui chegado a esta história de
“ver sorte”, “saber sobre o futuro”, “adivinhar
o que vai acontecer”. Nunca mesmo. Tolice essa história
de predizer. Aliás, acho até chato quebrar a surpresa
natural das coisas. Ademais, filho de imigrantes, logo aprendi
que o resultado de tudo corre por conta do trabalho prévio,
cuidadoso e coerente com o meio em que vivemos.
Sempre me diverti com amigos que gastam tempo
e dinheiro pagando para ver o inevitável, o destino. Também
acho que uma das coisas boas da vida é a surpresa. Gosto
do inesperado, em particular quando é alguma variante do
que foi plantado. Aconteceu, porém que dia desses, eu estava
em um desses restaurantes abertos, sentado com amigos, vendo o
mar que insistia num azul magnífico, quando se aproximou
uma dessas ciganas bem chinfrins. Não havia nela nada daqueles
devaneios expressos em Carmens de Bizet ou mesmo nos filmes e
novelas. Não. Tratava-se de uma mulher vestida com cores
berrantes, mas grosseiramente. Dois dentes de ouro denunciavam
uma memória da fantasia guitana. Nada mais.
Dispondo-se a ler a mão, imediatamente
me neguei. Insistente, a moça logo apelou para uma companheira
que deliciosamente se revelou curiosa. Confesso que a devoção
da amiga dedicada às prédicas da “visitante”
me surpreendeu. Não seria polido manifestar que esperava
mais da culta senhora, mas me investi de espectador.
Agilmente, a cigana pegou a mão de
um outro acompanhante e dissertou sobre sua sabedoria, futuro
brilhante, vida amorosa intensa e sucesso econômico. A arenga
foi tão positiva que todos fizeram pressão para
que eu também me dispusesse a “ser lido”. Não
havia como recusar. Entre frio e tedioso estendi a mão
esquerda e ouvi que seria a direita aquela que denunciaria meu
futuro.
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Mecanicamente, instalou-se um desafio entre cigana
e eu. Ela tinha que fazer um show-zinho particular, pois eu a
havia desdenhado. E não lhe faltaram dotes. Teatralmente,
ela me perguntou, à guisa de pressupostos, se eu era casado,
quantos filhos e como me sentia atualmente. Menti. Dizendo que
era casado, afirmei que tinha duas filhas e que estava sem fazer
nada por conta de uma aposentadoria. Olhando com sagacidade para
meus olhos, ela fez a primeira exclamação, algo
assim “hum, olhos verdes; olhos verdes são mentirosos,
o sr. tenta me enganar”. Gelei. Um pouco, mas gelei. Jurei
que não, que era mesmo casado e que minhas duas filhas
eram lindas.
De maneira competente, a moça –
bem feiinha, viu – decretou: “mas há algo errado,
vejo apenas homens em sua linha de descendência”.
O frio aumentou, mas mantive-me firme “ah! é, deve
haver algum engano” ao que ela interpôs “as
mulheres que vejo estão acompanhando os homens, e são
três, não duas”. Minha amiga entusiasmada gritou
“são as noras!”. Continuei incrédulo,
com ar glacial.
As premunições da cigana continuaram
decretando que “vejo-o sozinho, feliz, mas sozinho e precisando
de atenção”. Achei que isso era muito vago
e pedi detalhes. Com olhar maroto, desses de quem sabe que está
ganhando o jogo, a mocinha mostrando o ouro dos dentes dizia “mas
o sr. espera muito de um negócio que está para acontecer”.
Achei apelativo. Juro que achei. Nós sempre esperamos algo
que “está para acontecer” e resolvi acaçapar
o papo dizendo que não, que nada importante estava para
acontecer. Foi quando ela me derrubou e predisse “mas hoje
ainda o sr. vai receber uma resposta que deixará muito
feliz”.
Outras predições foram feitas,
algumas no terreno amoroso – é claro que isto não
poderia faltar – mas as enumerações foram
falhas. O fato é que, depois de pagarmos a referida cigana,
cheguei em casa e, finalmente, encontrei um contrato esperado
há mais de um ano. Foi chocante. Mediante a “adivinhação”,
precavido, resolvi não contar nada aos demais colegas.
Entrei, li com carinho o contrato, assinei e imediatamente fui
ao correio finalizar o negócio com a postagem devida. No
caminho da volta, tive que reconhecer: a cigana me enganou. Enganou
ao definir que eu a havia enganado. Mas, atenção,
isto não quer dizer que acredito em ciganas. Não
mesmo! 
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