A cigana me enganou...

Em qualquer lugar do mundo é possível defrontar-se com uma cigana disposta a ler sua mão para lhe contar o que acontecerá no futuro, por apenas alguns trocados. Mestre JC Sebe, incrédulo conhecedor desses mistérios, estendeu suas mãos e...


     Nunca fui chegado a esta história de “ver sorte”, “saber sobre o futuro”, “adivinhar o que vai acontecer”. Nunca mesmo. Tolice essa história de predizer. Aliás, acho até chato quebrar a surpresa natural das coisas. Ademais, filho de imigrantes, logo aprendi que o resultado de tudo corre por conta do trabalho prévio, cuidadoso e coerente com o meio em que vivemos.
     Sempre me diverti com amigos que gastam tempo e dinheiro pagando para ver o inevitável, o destino. Também acho que uma das coisas boas da vida é a surpresa. Gosto do inesperado, em particular quando é alguma variante do que foi plantado. Aconteceu, porém que dia desses, eu estava em um desses restaurantes abertos, sentado com amigos, vendo o mar que insistia num azul magnífico, quando se aproximou uma dessas ciganas bem chinfrins. Não havia nela nada daqueles devaneios expressos em Carmens de Bizet ou mesmo nos filmes e novelas. Não. Tratava-se de uma mulher vestida com cores berrantes, mas grosseiramente. Dois dentes de ouro denunciavam uma memória da fantasia guitana. Nada mais.
     Dispondo-se a ler a mão, imediatamente me neguei. Insistente, a moça logo apelou para uma companheira que deliciosamente se revelou curiosa. Confesso que a devoção da amiga dedicada às prédicas da “visitante” me surpreendeu. Não seria polido manifestar que esperava mais da culta senhora, mas me investi de espectador.
     Agilmente, a cigana pegou a mão de um outro acompanhante e dissertou sobre sua sabedoria, futuro brilhante, vida amorosa intensa e sucesso econômico. A arenga foi tão positiva que todos fizeram pressão para que eu também me dispusesse a “ser lido”. Não havia como recusar. Entre frio e tedioso estendi a mão esquerda e ouvi que seria a direita aquela que denunciaria meu futuro.

     Mecanicamente, instalou-se um desafio entre cigana e eu. Ela tinha que fazer um show-zinho particular, pois eu a havia desdenhado. E não lhe faltaram dotes. Teatralmente, ela me perguntou, à guisa de pressupostos, se eu era casado, quantos filhos e como me sentia atualmente. Menti. Dizendo que era casado, afirmei que tinha duas filhas e que estava sem fazer nada por conta de uma aposentadoria. Olhando com sagacidade para meus olhos, ela fez a primeira exclamação, algo assim “hum, olhos verdes; olhos verdes são mentirosos, o sr. tenta me enganar”. Gelei. Um pouco, mas gelei. Jurei que não, que era mesmo casado e que minhas duas filhas eram lindas.
     De maneira competente, a moça – bem feiinha, viu – decretou: “mas há algo errado, vejo apenas homens em sua linha de descendência”. O frio aumentou, mas mantive-me firme “ah! é, deve haver algum engano” ao que ela interpôs “as mulheres que vejo estão acompanhando os homens, e são três, não duas”. Minha amiga entusiasmada gritou “são as noras!”. Continuei incrédulo, com ar glacial.
     As premunições da cigana continuaram decretando que “vejo-o sozinho, feliz, mas sozinho e precisando de atenção”. Achei que isso era muito vago e pedi detalhes. Com olhar maroto, desses de quem sabe que está ganhando o jogo, a mocinha mostrando o ouro dos dentes dizia “mas o sr. espera muito de um negócio que está para acontecer”. Achei apelativo. Juro que achei. Nós sempre esperamos algo que “está para acontecer” e resolvi acaçapar o papo dizendo que não, que nada importante estava para acontecer. Foi quando ela me derrubou e predisse “mas hoje ainda o sr. vai receber uma resposta que deixará muito feliz”.
     Outras predições foram feitas, algumas no terreno amoroso – é claro que isto não poderia faltar – mas as enumerações foram falhas. O fato é que, depois de pagarmos a referida cigana, cheguei em casa e, finalmente, encontrei um contrato esperado há mais de um ano. Foi chocante. Mediante a “adivinhação”, precavido, resolvi não contar nada aos demais colegas. Entrei, li com carinho o contrato, assinei e imediatamente fui ao correio finalizar o negócio com a postagem devida. No caminho da volta, tive que reconhecer: a cigana me enganou. Enganou ao definir que eu a havia enganado. Mas, atenção, isto não quer dizer que acredito em ciganas. Não mesmo!