Lazer perigoso
“Queremos reivindicar os direitos do Maycom,
como cidadão e como criança”

Por Melissa Oliveira

Conflitos de comunicação e descuido com áreas de lazer da cidade ilustram um acidente que envolve a administração pública e a falta de informação adequada na relação médico-paciente


       Maycom da Costa Scarpa tem 12 anos. Aluno da 6ª série da Escola Municipal Monsenhor Evaristo, foi vítima da falta de cuidados de uma administração, capaz de deixar uma quadra esportiva, localizada ao lado da escola, jogada às traças.
       O acidente ocorreu quando uma das traves da quadra, amparada há meses apenas por uma pedra, caiu sobre o menino estudante.
       Os pais de Maycom, Luis Cláudio Scarpa, 38, motorista da empresa ABC, e Jane Mara da Costa Scarpa, 42, dona de casa e diarista, escreveram uma carta ao prefeito, e ainda aguardam resposta.

Via crucis

       “No dia 11 de agosto, às 22:30, Maycom foi até a quadra para brincar e de repente, vieram nos avisar que ele havia sofrido um acidente. Uma trave tombou sobre sua mão. Fomos para o Pronto Socorro Municipal. Era caso de cirurgia, e ele foi transferido para o Hospital Escola”, contam os pais do menino.
       Como não havia cirurgião-ortopédico de plantão, a família aguardou até o dia seguinte. Os médicos alegaram que a mão de Maycom estava muito inchada e a cirurgia não poderia ser feita. Amarraram sua mão para o alto e, durante cinco dias, ele recebeu injeções para cortar a dor.
       Outra alegação do HUT – Hospital Universitário de Taubaté – segundo a família, era de que um aparelho do centro cirúrgico estava em São Paulo para esterilização e manutenção. Como era caso de fratura, não havia problema esperar alguns dias para a cirurgia. Os pais de Maycom se preocuparam com a dor que o filho sentia. Somente no dia 15, colocaram três pinos na mão na sua mão.
       As consultas de retorno eram todas às segundas-feiras. Por ser um hospital universitário, a cada dia atua uma equipe de trabalho diferente. Cláudio e Jane Mara não sabem quem fez a cirurgia.
       A família Scarpa argumenta que as equipes médicas davam informações contrárias. E que, inclusive, seria preciso um quarto pino na mão de Maycom. “Foi um erro do Hospital, um erro cirúrgico. A mão do Maycom já poderia ter melhorado logo no início”, alega Jane.

Condutas distintas

       Ao invés de obterem um respaldo capaz de garantir-lhes segurança no tratamento do filho, Cláudio e Jane tornaram-se cada vez mais inseguros. Informações trocadas e a necessidade de uma nova cirurgia fizeram com que desacreditassem do profissionalismo da equipe médica que atendia Maycom no Hospital Universitário.
       Insatisfeitos com o atendimento e com o procedimento adotado, os pais levaram o filho caçula a um médico particular. “Maycom estava sentindo muita dor. Então decidimos tentar da nossa maneira. Resolvemos mexer em nossas finanças”, conta Cláudio.
       O ortopedista escolhido, dr. José Elísio Ubarana Neto, explicou que existem 70% de chances de a mão de Maycom ficar menor do que a outra. E ao invés de outra cirurgia, indicou tratamento de fisioterapia imediato, já que o desenvolvimento da mão tinha sido bloqueado.
       Dr. Elísio, que retirou os pinos, não confirma a denúncia de erro médico. “São condutas diferentes. Não tem como julgar o que foi feito porque eu não vi. Somente fiz o tratamento subseqüente. Maycom está bem. E as seqüelas em relação ao desenvolvimento da mão são conseqüências do acidente”, afirma.
       A questão da conduta médica é também lembrada pelo diretor clínico do HUT, dr. Celso Luiz de Sá Rodrigues. Ele explica que, depois da alta do paciente, a equipe de plantão encaminha o caso para a especialidade. No caso de Maycom, especialistas em mão o atenderam. Essa nova equipe optou por outra cirurgia, para o 5º dedo. “Não vejo negligência ou erro algum. Foi falta de diálogo, tanto da família quanto da nossa equipe profissional”, conclui o médico.
       Na opinião de Dr. Celso, a família deveria ter voltado ao hospital para obter maiores explicações sobre o caso, mas não descarta a ineficácia de alguns médicos no diálogo com o paciente. “Existem médicos que se acham soberbos”, admite.

A Carta

       No dia 19 de setembro, uma carta mammnuscrita foi entregue pessoalmente para a secretária de Peixoto, em frente a residência do prefeito. “Deixamos endereço, telefone, mas ainda não recebemos nenhuma resposta”, destaca Jane Mara.
       “Queremos reivindicar os direitos dele, como cidadão e como criança”, expõem os pais de Maycom. Sem poder continuar o tratamento de fisioterapia do filho por razões financeiras, Luis Cláudio diz que, na carta, pediu auxílio e benfeitorias à quadra.
       “Esse acidente nos aborreceu bastante porque a quadra existe para crianças brincarem, e só acabou trazendo prejuízo. Graças a Deus, ocorreu com a mão. Se fosse na cabeça, o estrago seria muito maior”, desabafa Jane.
       Desde que a família Scarpa se mudou para a Rua José Francisco, na Estiva, há 18 anos, a quadra já existia. Nenhuma reforma aconteceu até hoje. Para evitar mais acidentes, a trave foi recolhida para as dependências da Escola Municipal Monsenhor Evaristo.
       Contatada por telefone e email, a prefeitura não retornou à redação.

Conclusões

       O relato de Luis Cláudio e Jane Mara Scarpa envolve dois temas principais: a adequação da conduta médica e a administração de bens públicos de lazer.
       O primeiro, pode ser debitado na falha de comunicação na relação médico-paciente. A linguagem técnica adotada por alguns médicos com seus pacientes pode trazer conseqüências danosas para ambas as partes. Quando um indivíduo, leigo, é atendido por médicos, ele espera obter resultados rápidos, o que nem sempre é possível. Mas de uma forma simples e objetiva, obter explicações que justifiquem ações. Não foi o que ocorreu no caso de Maycom.
       Quanto a administração de bens público, trata-se de um problema crônico da administração Roberto Peixoto que, infelizmente, tem sido pauta recorrente nas edições de CONTATO.