CEI abortada
Palácio Bom Conselho
manobra e enterra CEI

Bancada da base governista da Câmara Municipal de Taubaté imita Brasília com manobras nos bastidores para obter o voto (sabe-se lá como) que faltava para enterrar a Comissão Especial de Inquérito que iria investigar o uso de máquinas, homens e material da prefeitura para consertar a calçada da residência do diretor do DOP, Gerson Araújo. Dessa vez, as musas do Palácio Bom Conselho foram as vereadoras Maria Tereza Paolicchi e Pollyana Gama

Por Paulo de Tarso Venceslau

       Depois de muita protelação ao longo das últimas três semanas, finalmente foi votada e derrotada, na sessão ordinária de terça-feira, 23, a criação de uma Comissão Especial de Inquérito para investigar o uso indevido de máquinas, viaturas, materiais e homens da prefeitura empregados para reconstruir a calçada em frente a residência do diretor do Departamento de Obras Públicas (DOP), engenheiro Gerson Araújo.
       Ninguém foi pego de surpresa. Deu a lógica. Desde a semana passada já se comentava nos bastidores do Legislativo que a vereadora Tereza Paolicchi havia aderido ao Palácio Bom Conselho e decidido a votar contra a criação da CEI. O que teria levado a vereadora a mudar de opinião nos últimos dias só será conhecido com o tempo. Apostadores contumazes põem fichas no atendimento de solicitações da vereadora para obras em bairros onde ela concentra suas atividades assistenciais. Embora questionável, faz parte do jogo político o uso desse tipo de moeda de troca.
       O que chamou a atenção, nesse caso, foram as diferentes e contraditórias argumentações usadas pelos vereadores da base palaciana para impedir a aprovação do requerimento feito pela oposição.

Base governista

       Vereadora Pollyana (PPS), por exemplo, fazendo coro com sua colega Maria Tereza, não teve sequer o cuidado de camuflar seu adesismo cada vez mais militante e engajado nas causas de interesse palaciano. “O diretor do DOP tem todo o direito de receber esse serviço da prefeitura porque ele paga imposto como cidadão”. Por isso ela se arvorava no argumento de que seu voto contra a CEI se baseava na Lei, uma vez que “a prefeitura seria ressarcida”, declarou Pollyana, da tribuna.
       Já Henrique Nunes (PV), ex-colega de sigla da vereadora, usou um argumento bastante original: seria uma irregularidade se fosse uma grande obra, “mas uma calçada não tem qualquer significância. Se pelo menos fosse uma grande obra eu apoiaria a CEI, como já assinei o requerimento para a que vai investigar a compra de livros sem licitação, condenada pelo Tribunal de Contas do Estado. Não vou assinar uma CEI por um caminhão de areia e um monte de pedras. Por isso, meu voto será contra.” O vereador poderia explicitar, por exemplo, a partir de qual valor a malversação de recursos públicos pode ser incluída no rol das falhas que merecem investigação.
       Chico Saad, sempre posando de legalista, desenterrou uma lei aprovada em 2001 pelo governo do então prefeito Bernardo Ortiz (PSDB), para tentar mostrar que a obra em frente a casa do diretor do DOP era regular e prevista em lei. Além disso, afirmou que teria tirado fotos das outras casas da rua para provar que também tinham sido atendidas. “A população está revoltada com a reportagem [publicada pelo Jornal CONTATO]. O que quer a oposição”? Propor uma CEI direto? Querem que a prefeitura pule a casa do diretor [do DOP] na hora de consertar? Isso [seria] uma injustiça. A consciência vai pesar para quem mantiver o voto [favorável] CEI”.
       Rodson Lima (PP) fez malabarismos. Elogiou o Jornal CONTATO, autor da matéria que motivou o pedido da CEI, porque “tem divulgado fatos como eles são”. Mas defendeu o diretor do DOP, porque ele “não se macularia por tão pouco. Além disso, não houve flagrante porque a equipe da prefeitura trabalhou durante o dia”. E concluiu dizendo que “muitas pessoas ligaram para pedir que eu mude o voto; mas eu vou mantê-lo porque tenho palavra”.
       Vereadora Maria Tereza Paolicchi fez o pronunciamento mais aguardado da noite, pelo menos para os neófitos freqüentadores da Câmara. “Sempre votei a favor da criação de CEI desde que assumi meu mandato”, foi a primeira frase da vereadora antes de anunciar o já sabido: dessa vez, seria contra a criação da CEI. O argumento já era conhecido. Abastecida por papéis fornecidos por Saad, Paolicchi confessou que o líder do prefeito abrira seus olhos ao mostrar o serviço feito em outras calçadas. “Não podemos condenar quem tem direito”. E mais adiante concluiu: “Não sou traíra e nunca o serei”, como resposta à insinuação feita pelo vereador tucano Wilson Vieira que havia dito em seu discurso que a traição ia correr solto e por isso “depois da sessão vou comer traíra no Barril do Zé Bigode”.
       Carlos Peixoto (PMDB), sobrinho e líder do prefeito, parabenizou a vereadora Paolicchi e aproveitou para acusar o ex-prefeito Bernardo Ortiz de ter concedido área para que o governo do estado construísse o CDP – Centro de Detenção Provisória – sem qualquer autorização da Câmara. “Quero saber por que os vereadores da época não fizeram nada”, atacou Carlão. E para encerrar, prometeu acionar o Conselho de Ética da Câmara para avaliar o comportamento do vereador Wilson Vieira que, na sua opinião e de outros da base aliada, teria faltado com respeito e decoro em suas intervenções bem humoradas.
       Consultado por nossa reportagem, o presidente da Câmara informou ainda não existe a referida Comissão de Ética. Ele vai tirar da gaveta os requerimentos que já existem para sua criação e, se aprovado, só valerá para os casos futuros.

Oposição

       O bloco oposicionista formado pelos tucanos Ângelo Filippini, Orestes Vanone e Wilson Vieira, Maria da Graça (PSB), Maria Gorete (PMN) e Jéferson Campos (PV) bateu em duas ou três teclas comuns.
       Filippini, por exemplo, engenheiro com muita experiência no Metrô de São Paulo, não admite qualquer possibilidade de a Sabesp ter qualquer acordo verbal com a prefeitura, conforme argumentou o diretor do DOP, pelo menos em duas ocasiões, para justificar a obra em frente sua residência. O mesmo argumento foi levantado por Maria da Graça e Maria Gorete.
       Graça, irônica, comentou que já teve vários requerimentos solicitando reformas de calçadas, alguns com mais de um ano, ignorados pela prefeitura e concluiu confessando “que gostaria que os demais moradores da cidade tivessem o mesmo tratamento do diretor de Obras”.
       Já para Jéferson Campos, a vertente da CEI seria descobrir porque a prefeitura foi recuperar a calçada danificada pela empresa Elevação, contratada pela Sabesp.


“Gerson tem o direito de receber o servico por que ele tambem paga impostos”

vereadora Pollyana Gama


Homens, maquinas e viaturas consertando os 60 centimetros danificados por uma empreiteira contratada pela Sabesp


“Nao vou assinar uma CEI por causa de um caminhao de pedras e um monte de areia”

vereador Henrique Nunes


Ninguem viu nem ouviu o mantra de Aryzinho


“Se a CEI não passar,
teremos de ir ao Barril do Zé Bigode
para comer traíra”


“Presidente Collor foi cassado por c ausa de uma Elba”

vereador Wilson Vieira


Tereza Paolicchi mostra as provas fornecidas por Saad para sua colega Gorete que nao foi convencida

       Por outro lado, com muita ironia, o médico Wilson Vieira queria saber quem definiu que a calçada da residência de Gerson Araújo para ser reformada com prioridade quando a própria Graça já havia exibido requerimento feito há mais de um ano para execução de trabalho similar. Nessa mesma toada, Vieira confessou sentir pena de Henrique Nunes diante do argumento usado e fez um paralelo com o presidente Collor cassado por causa do recibo de um automóvel Elba, da Fiat, e encerrou confessando que sua noite provavelmente terminaria no Barril do Zé Bigode onde comeria traíra, insinuação explícita sobre as traições mais que anunciadas. Sua fala detonou uma saraivada de críticas por parte da tropa de choque do Palácio Bom Conselho.