Depois de muita protelação ao longo das últimas
três semanas, finalmente foi votada e derrotada, na sessão
ordinária de terça-feira, 23, a criação
de uma Comissão Especial de Inquérito para investigar
o uso indevido de máquinas, viaturas, materiais e homens
da prefeitura empregados para reconstruir a calçada em
frente a residência do diretor do Departamento de Obras
Públicas (DOP), engenheiro Gerson Araújo.
Ninguém foi pego de
surpresa. Deu a lógica. Desde a semana passada já
se comentava nos bastidores do Legislativo que a vereadora Tereza
Paolicchi havia aderido ao Palácio Bom Conselho e decidido
a votar contra a criação da CEI. O que teria levado
a vereadora a mudar de opinião nos últimos dias
só será conhecido com o tempo. Apostadores contumazes
põem fichas no atendimento de solicitações
da vereadora para obras em bairros onde ela concentra suas atividades
assistenciais. Embora questionável, faz parte do jogo político
o uso desse tipo de moeda de troca.
O que chamou a atenção,
nesse caso, foram as diferentes e contraditórias argumentações
usadas pelos vereadores da base palaciana para impedir a aprovação
do requerimento feito pela oposição.
Base
governista
Vereadora Pollyana (PPS),
por exemplo, fazendo coro com sua colega Maria Tereza, não
teve sequer o cuidado de camuflar seu adesismo cada vez mais militante
e engajado nas causas de interesse palaciano. “O diretor
do DOP tem todo o direito de receber esse serviço da prefeitura
porque ele paga imposto como cidadão”. Por isso ela
se arvorava no argumento de que seu voto contra a CEI se baseava
na Lei, uma vez que “a prefeitura seria ressarcida”,
declarou Pollyana, da tribuna.
Já Henrique Nunes
(PV), ex-colega de sigla da vereadora, usou um argumento bastante
original: seria uma irregularidade se fosse uma grande obra, “mas
uma calçada não tem qualquer significância.
Se pelo menos fosse uma grande obra eu apoiaria a CEI, como já
assinei o requerimento para a que vai investigar a compra de livros
sem licitação, condenada pelo Tribunal de Contas
do Estado. Não vou assinar uma CEI por um caminhão
de areia e um monte de pedras. Por isso, meu voto será
contra.” O vereador poderia explicitar, por exemplo, a partir
de qual valor a malversação de recursos públicos
pode ser incluída no rol das falhas que merecem investigação.
Chico Saad, sempre posando
de legalista, desenterrou uma lei aprovada em 2001 pelo governo
do então prefeito Bernardo Ortiz (PSDB), para tentar mostrar
que a obra em frente a casa do diretor do DOP era regular e prevista
em lei. Além disso, afirmou que teria tirado fotos das
outras casas da rua para provar que também tinham sido
atendidas. “A população está revoltada
com a reportagem [publicada pelo Jornal CONTATO]. O que quer a
oposição”? Propor uma CEI direto? Querem que
a prefeitura pule a casa do diretor [do DOP] na hora de consertar?
Isso [seria] uma injustiça. A consciência vai pesar
para quem mantiver o voto [favorável] CEI”.
Rodson Lima (PP) fez malabarismos.
Elogiou o Jornal CONTATO, autor da matéria que motivou
o pedido da CEI, porque “tem divulgado fatos como eles são”.
Mas defendeu o diretor do DOP, porque ele “não se
macularia por tão pouco. Além disso, não
houve flagrante porque a equipe da prefeitura trabalhou durante
o dia”. E concluiu dizendo que “muitas pessoas ligaram
para pedir que eu mude o voto; mas eu vou mantê-lo porque
tenho palavra”.
Vereadora Maria Tereza Paolicchi
fez o pronunciamento mais aguardado da noite, pelo menos para
os neófitos freqüentadores da Câmara. “Sempre
votei a favor da criação de CEI desde que assumi
meu mandato”, foi a primeira frase da vereadora antes de
anunciar o já sabido: dessa vez, seria contra a criação
da CEI. O argumento já era conhecido. Abastecida por papéis
fornecidos por Saad, Paolicchi confessou que o líder do
prefeito abrira seus olhos ao mostrar o serviço feito em
outras calçadas. “Não podemos condenar quem
tem direito”. E mais adiante concluiu: “Não
sou traíra e nunca o serei”, como resposta à
insinuação feita pelo vereador tucano Wilson Vieira
que havia dito em seu discurso que a traição ia
correr solto e por isso “depois da sessão vou comer
traíra no Barril do Zé Bigode”.
Carlos Peixoto (PMDB), sobrinho
e líder do prefeito, parabenizou a vereadora Paolicchi
e aproveitou para acusar o ex-prefeito Bernardo Ortiz de ter concedido
área para que o governo do estado construísse o
CDP – Centro de Detenção Provisória
– sem qualquer autorização da Câmara.
“Quero saber por que os vereadores da época não
fizeram nada”, atacou Carlão. E para encerrar, prometeu
acionar o Conselho de Ética da Câmara para avaliar
o comportamento do vereador Wilson Vieira que, na sua opinião
e de outros da base aliada, teria faltado com respeito e decoro
em suas intervenções bem humoradas.
Consultado por nossa reportagem,
o presidente da Câmara informou ainda não existe
a referida Comissão de Ética. Ele vai tirar da gaveta
os requerimentos que já existem para sua criação
e, se aprovado, só valerá para os casos futuros.
Oposição
O bloco oposicionista formado
pelos tucanos Ângelo Filippini, Orestes Vanone e Wilson
Vieira, Maria da Graça (PSB), Maria Gorete (PMN) e Jéferson
Campos (PV) bateu em duas ou três teclas comuns.
Filippini, por exemplo, engenheiro
com muita experiência no Metrô de São Paulo,
não admite qualquer possibilidade de a Sabesp ter qualquer
acordo verbal com a prefeitura, conforme argumentou o diretor
do DOP, pelo menos em duas ocasiões, para justificar a
obra em frente sua residência. O mesmo argumento foi levantado
por Maria da Graça e Maria Gorete.
Graça, irônica,
comentou que já teve vários requerimentos solicitando
reformas de calçadas, alguns com mais de um ano, ignorados
pela prefeitura e concluiu confessando “que gostaria que
os demais moradores da cidade tivessem o mesmo tratamento do diretor
de Obras”.
Já para Jéferson
Campos, a vertente da CEI seria descobrir porque a prefeitura
foi recuperar a calçada danificada pela empresa Elevação,
contratada pela Sabesp.