O Caldeirão e o Rolex do Huck

Mestre JC Sebe não resiste e entra na polêmica levantada depois que o apresentador Global escreveu um texto sobre segurança pública depois que teve seu Rolex roubado por amigos do alheio


     Ao ler, dias passados, o artigo assinado pelo apresentador da TV Globo Luciano Huck na Folha de São Paulo, e depois ao acompanhar o barulhento noticiário sobre o roubo de seu fabuloso Rolex, perpetrado por marginais, algumas idéias avassalaram minha cabeça de cidadão comum.
     A conclusão primeira correspondeu a uma surpresa: meu Deus, ele sabe escrever! A segunda desdobrou-se de uma frase grafada no referido artigo: “escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o Rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo”.
     Lembrei-me então de sua criação máxima, a “Tiazinha”, aquela bela moça que vestida de cinta liga, sutiã preto, ostentava um chicotinho destinado a excitar fantasia de machos necessitados de estímulo erótico. Pensei então se era isso que proporia para um Brasil “mais maduro, equilibrado e justo”. Nem precisei apelar para o tenebroso “Caldeirão” para concluir que fora exatamente a farra do incansável apresentador que alimenta a ditadura do supérfluo e do consumismo fútil e instantâneo que fez dele uma vítima do próprio veneno.
     Mas minhas indignações continuaram nas maltratadas linhas da fatídica personagem. Ao ler que “está na hora de discutirmos segurança pública de verdade”, só não chorei porque havia piada melhor vazada nas pontifícias palavras que decretava a seguir: “o lugar deles é na cadeia”. Fingi que não havia lido que ele antes confessara: “já andei de carro blindado” e não perdi tempo de perguntar o porquê. Falei de idéias, no plural, e elas, em par, me fizeram apelar para a derivação intelectual, pois, é preciso colocar um mínimo de inteligência nessa aberração rotineira.

     A primeira veio na mais perfeita sintonia irônica. Ao ver que o objeto roubado era um relógio, lembrei-me do axioma calvinista que reza que “tempo é dinheiro” e elaborei um silogismo bufo: se roubaram o relógio Rolex do Luciano Huck; se relógio (mesmo sendo Rolex) marca o tempo, e, se tempo é dinheiro, o roubo foi duplo de tempo e de dinheiro e, faltando tempo (e dinheiro?) o apresentador vai nos poupar de suas sandices.
     Num patamar mais elevado, porém, me veio a lembrança da mensagem do livro “A Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, publicado em plena contracultura, em 1967, em Paris, e tardiamente traduzido para português do Brasil pela editora Contraponto, em 1997. Neste livro, o autor anunciava o advento de uma cultura capitalista, eminentemente consumista e de peso hedônico, sustentado pela aparência independente das relações contextuais. O exibicionismo individualista seria a marca do show que cada um poderia dar. Os argumentos de Debord foram destilados em 221 pressupostos aforísticos de concisão chocante. Em suma, Debord demonstra que a sociedade do espetáculo torna-se o destino de qualquer cultura que se deixa seduzir pelo consumo e passa a venerar o que deveria, no máximo, ser utilitário (no caso do sr. Huck, o Rolex).
Mas o texto não é simplificador. Confesso que há algo de condescendente nas reflexões de Debord: ele crê que as pessoas são compelidas a comprar compulsivamente para compensar o que lhes falta na vida real. Uma espécie de carência psicológica motivada pelo capitalismo desbragado ser-lhe-ia explicação. O que fica de fora é o efeito de contágio que isto traz. Afinal, o “distinto” público também quer e merece seu Rolex.
Sabe o que mais concluí? Que foi necessário o sr. Huck ser roubado do precioso e imprescindível Rolex para ele, que faz um dos programas mais populares da TV, perceber que o povo existe fora dos Programas e que as distâncias sociais se abismam na mesma proporção que a inconseqüência de quantos idiotizam massas com apelos tolos. E quando vejo o patético recurso escrito por ele definindo que está “à procura de um salvador da pátria” me pergunto se o chicote da “Tiazinha” não poderia ser a arma redentora? Devo lembrar também que, se não for, ainda pode apelar para mais uma de suas criações messiânicas: “A feiticeira”. Lembram-se dela? Entre o chicote e a magia, talvez alguém recupere o Rolex do dono do “Caldeirão”. E quem sabe com o Rolex recuperado teremos um Brasil “mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo?”.