Um aluno
e um professor...

O documento no qual D. Pedro I propôs a criação das escolas primárias no Brasil só se tornaria oficial no dia 15 de outubro de 1933, data escolhida para comemorar o Dia do Professor. Pegando esse gancho, mestre JC Sebe revela detalhes de uma parceria bem sucedida entre mestre e aluno


     A solenidade devotada à condição de professor me fez pensar muito antes de chegar a este texto. Queria algo mais cerimonioso, bordado com linhas coloridas na talagarça de uma experiência profissional feliz. Comecei várias vezes. Supus de início comemorar o termo “professor” como quem “professa” e “professar” é militar na crença, perder-se na satisfação de trabalho esperançoso, cultivar utopias.
     Belezas ou poesias à parte, tudo me parecia pouco, algo obtuso e pessoal demais. Também não me convenci do recurso sempre válido, mas exaurido, de eleger modelos e decantar velhos mestres. Falar de livros ou sobre a educação seria esfriar reflexões que merecem tepidez confortável e dignidade para quantos identificam no trabalho docente o que os franceses chamam de “raison d’être”. Nada me satisfazia. Nada!
     Estava assim meio perdido, quando recebi um telefonema de ex-aluno anunciando que chegaria ao Rio para lançar um livro na Bienal. Foi o que bastou. Uma festa se fez em mim. Como no lançamento em São Paulo, também não pude ir ao distante Riocentro, pois compromissos acertados previamente bloqueavam as alternativas possíveis. Mas marcamos novo encontro. Necessidade dele, outra vez, precisamos adiar. Expectativa.
         Tudo se fez, porém, na manhã de um domingo. Era a despedida do inverno e o clima estava magnífico. Com sua mulher, adorável, e tão perfeita que também fora minha aluna, saímos em busca de um lugar para costurar falas prometidas. Praia de Copacabana ao fundo, brisa mansa, cumplicidade explícita.


     Conversamos por horas, sem parar. Rimos muito, visitamos nossas idiossincrasias e com sutis agulhadas, picardias ternas, nos desafiamos. Depois de demorada preparação, ao se despedir, ele me deu o livro. Disfarcei ler a dedicatória no momento, agradeci, mas apenas li de verdade em casa. Por fim reconheci a validade de uma vida de dedicação nas palavras por ele medidas “querido mestre, aprendi a escrever com você. Aprendi tanta coisa: apostar no leitor não-especialista, a ter na mira a causa pública e a amar o conhecimento. Muito obrigado por ter feito tanto por tantas pessoas. Com carinho e admiração, Juliano”. Enfim...
     Enfim, Juliano não é o único aluno meu a publicar livro. Tenho pelo menos mais uma dúzia deles, alguns de sucesso nacional, mas trata-se de um caso especialíssimo. Ele foi desses que achou o caminho próprio e sozinho. Antes vale contar uma história paralela, mas reveladora de “destinos”. Juliano é filho de Marcos Spyer que, coincidentemente, foi o primeiro chefe de meu filho Felipe que trabalhou no então no programa “Aqui e Agora” quando ainda se inaugurava no Brasil o chamado “jornalismo instantâneo”.
     Este fato nada teria de notável não fosse a troca perfeita entre meu filho admirador profundo do chefe e da dedicação que o Juliano tinha a mim. Amigos comuns, projetos desenvolvidos juntos, textos assinados em parceria, tudo nos acorrentou, porém agora tenho que reconhecer os caminhos deste jovem independente.
     Seu livro chama-se “Conectado: o que a internet fez com você e o que você pode fazer com ela”, publicado pela Zahar, Rio de Janeiro. Trata-se de um texto muito bem escrito, claro e didático destinado a esclarecer os mistérios da internet. Valendo-se conceitos simples, qualquer leigo pode aprender segredos antes indecifráveis. Em dois capítulos iniciais, passa da teoria à prática e termina com, no terceiro, uma série de casos, exemplos, que revelam a trajetória de um escritor moderno. Moderno por explicar a modernidade de uma das mais importantes ferramentas da história: a internet. Moderno também por reconhecer no velho mestre um chão que há de se abrir a outras gerações.