
A solenidade devotada à condição
de professor me fez pensar muito antes de chegar a este texto.
Queria algo mais cerimonioso, bordado com linhas coloridas na
talagarça de uma experiência profissional feliz.
Comecei várias vezes. Supus de início comemorar
o termo “professor” como quem “professa”
e “professar” é militar na crença, perder-se
na satisfação de trabalho esperançoso, cultivar
utopias.
Belezas ou poesias à parte, tudo me
parecia pouco, algo obtuso e pessoal demais. Também não
me convenci do recurso sempre válido, mas exaurido, de
eleger modelos e decantar velhos mestres. Falar de livros ou sobre
a educação seria esfriar reflexões que merecem
tepidez confortável e dignidade para quantos identificam
no trabalho docente o que os franceses chamam de “raison
d’être”. Nada me satisfazia. Nada!
Estava assim meio perdido, quando recebi um
telefonema de ex-aluno anunciando que chegaria ao Rio para lançar
um livro na Bienal. Foi o que bastou. Uma festa se fez em mim.
Como no lançamento em São Paulo, também não
pude ir ao distante Riocentro, pois compromissos acertados previamente
bloqueavam as alternativas possíveis. Mas marcamos novo
encontro. Necessidade dele, outra vez, precisamos adiar. Expectativa.
Tudo se fez, porém, na
manhã de um domingo. Era a despedida do inverno e o clima
estava magnífico. Com sua mulher, adorável, e tão
perfeita que também fora minha aluna, saímos em
busca de um lugar para costurar falas prometidas. Praia de Copacabana
ao fundo, brisa mansa, cumplicidade explícita.
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Conversamos por horas, sem parar. Rimos muito,
visitamos nossas idiossincrasias e com sutis agulhadas, picardias
ternas, nos desafiamos. Depois de demorada preparação,
ao se despedir, ele me deu o livro. Disfarcei ler a dedicatória
no momento, agradeci, mas apenas li de verdade em casa. Por fim
reconheci a validade de uma vida de dedicação nas
palavras por ele medidas “querido mestre, aprendi a escrever
com você. Aprendi tanta coisa: apostar no leitor não-especialista,
a ter na mira a causa pública e a amar o conhecimento.
Muito obrigado por ter feito tanto por tantas pessoas. Com carinho
e admiração, Juliano”. Enfim...
Enfim, Juliano não é o único
aluno meu a publicar livro. Tenho pelo menos mais uma dúzia
deles, alguns de sucesso nacional, mas trata-se de um caso especialíssimo.
Ele foi desses que achou o caminho próprio e sozinho. Antes
vale contar uma história paralela, mas reveladora de “destinos”.
Juliano é filho de Marcos Spyer que, coincidentemente,
foi o primeiro chefe de meu filho Felipe que trabalhou no então
no programa “Aqui e Agora” quando ainda se inaugurava
no Brasil o chamado “jornalismo instantâneo”.
Este fato nada teria de notável não
fosse a troca perfeita entre meu filho admirador profundo do chefe
e da dedicação que o Juliano tinha a mim. Amigos
comuns, projetos desenvolvidos juntos, textos assinados em parceria,
tudo nos acorrentou, porém agora tenho que reconhecer os
caminhos deste jovem independente.
Seu livro chama-se “Conectado: o que
a internet fez com você e o que você pode fazer com
ela”, publicado pela Zahar, Rio de Janeiro. Trata-se de
um texto muito bem escrito, claro e didático destinado
a esclarecer os mistérios da internet. Valendo-se conceitos
simples, qualquer leigo pode aprender segredos antes indecifráveis.
Em dois capítulos iniciais, passa da teoria à prática
e termina com, no terceiro, uma série de casos, exemplos,
que revelam a trajetória de um escritor moderno. Moderno
por explicar a modernidade de uma das mais importantes ferramentas
da história: a internet. Moderno também por reconhecer
no velho mestre um chão que há de se abrir a outras
gerações. 
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