| “Tropa
de Elite”, “Elite da Tropa”, consumo
de drogas
e estudantes...
Sempre
antenado, mestre JC Sebe entra na polêmica provocada pelo
filme Tropa de Elite, sobre o Bope – Batalhão de Operações
Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O filme baseou-se
na obra Elite da Tropa, o mais recente e mais forte livro do sociólogo
carioca Luiz Eduardo Soares, escrito em parceria com dois policiais
sérios e competentes: André Batista e Rodrigo Pimentel.
Os personagens são vítimas que se tornam algozes.
José Padilha, o mesmo autor de Ônibus 174. O filme
tem provocado muita polêmica, antes mesmo de ser lançado
oficialmente. Causa: cópias piratas foram e são vendidas
livremente por R$ 10 cada.
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Soou o telefone. Do outro lado, uma voz urgente
pedia que visse o filme Tropa de Elite e comentasse dois
pontos: o papel dos estudantes – no caso alunos da PUC/RIO
e a questão das drogas no Rio de Janeiro. A solicitação
visava um debate público e eu deveria falar como professor
universitário e acompanhante de um programa de combate
às drogas.
Desde que o filme de José Padilha fora
lançado, acompanhei os ardentes argumentos estampados,
com alarde, nos jornais. Impactado pelo “Ônibus
174”, do mesmo diretor, confesso, esperava outro filme
de ação, baseado em fatos ocorridos, mas com apelo
amplo, dirigido ao público em geral. Ver o novo filme,
porém, me foi surpresa. Logo que saiu o livro – com
título inverso ao filme, “Elite da Tropa”,
comecei a lê-lo, mas o tive raptado por meu filho Davi que
jamais devolveu. De toda forma, cheguei ao ponto em que dava para
equacionar os problemas centrais: o paralelo entre o ciclo do
consumo de drogas pela classe média carioca e o comércio
clandestino do produto regido pelo tráfego, nos morros
e favelas.
Numa montagem elementar, algo tipo causa e
conseqüência, ou efeito dominó, tudo é
mostrado linearmente, porém com uma novidade notável:
a narração parte do ponto de vista de um, único,
policial. Contrariando as soluções convencionais
foi ressaltado o drama pessoal/familiar do Comandante Nascimento,
no lugar de uma visão institucional, da polícia
como um todo. Somados, estes atributos engrossam alguns méritos
do filme: feroz crítica à classe média estudantil
que, ao mesmo tempo em que promove participação
caritativa aos programas sociais, notadamente regidos por ONGs,
ativa o consumo de drogas tornando-se motivadores de um sistema
fatal.
Esta aparente contradição culpa
os jovens que, mesmo se supondo ativistas, são os responsáveis
pela tragédia assumida como “guerra urbana carioca”.
A simplificação – didática sem dúvida
– é, por outro lado, o pior inimigo do filme. Ao
deixar de lado fatores subjetivos: questões culturais e
de desarticulação familiar, tensão profissional
que pesa sobre os jovens ou o papel da educação
superior, perde-se a oportunidade da evidência de que, como
o comandante, os consumidores também possuem suas justificativas.
As coisas não são tão simples como se mostrou
em cenas de violência explícita. E nem tão
mecânicas.
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A discussão em aula do clássico texto
“Vigiar e Punir”, de Michael Foucault, imediatamente
foi induzido para a “nossa realidade” e isso não
daria conta de explicar o que se passa com a polícia, até
porque o referencial de Foucault é do século XVIII
quando as instituições eram verdadeiramente “fechadas”.
Hoje, com os meios de comunicação
modernos – inclusive mostrados no filme com telefonias atualizadas
– não caberia supor uma cultura institucional sem
críticas. Além disso, a premissa equivocada do pretexto
foucaultiano levou a exageros dos quais a consagração
heróica de um soldado violento, torturador, é justificada
pela sua “boa intenção”. Mas, para atender
a solicitação, resta-me abordar o papel dos universitários
e a questão do consumo de drogas.
Ainda que concordasse com o “cinismo
juvenil” que ao mesmo tempo quer salvar os pobres –
em nome de uma “consciência social” –
se vicia, articulando o tráfego. A culpa delegada exclusivamente
aos jovens, contudo, é exagerada, pois não são
apenas os estudantes os consumidores. Não mesmo.
O outro lado dessa moeda é a questão
do comércio. Partindo do princípio velado de que
o tráfego é incontrolado, a maneira indicada, sem
ser explicitada, é que o consumo deveria ser liberado e
assim poderia ser administrado pelo Estado. Condena-se com veemência
a liberação do tráfego por dois motivos combinados:
o que vem junto à liberação é um contexto
sistêmico de instituições e pessoal que promove
os vícios. Mais do que isso, o Brasil é um país
imenso e com população tão grande que permite
contrastar com outros países, como a Holanda ou Suécia
que, além de historicamente serem bem administradas, têm
tão pouca gente que é capaz permitir controles insondáveis
entre nós.
Mas devo terminar com um comentário
que certamente me será cobrado: sim acho o filme válido,
recomendável, desde que discutido além da boa atuação
dos protagonistas, do roteiro exemplar e do impacto causado. 
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