Apagão na Engenharia ?
O desencontro de túneis nas obras do metrô de São Paulo pode ter sido provocado muitas causas, mas uma delas está relacionada com a educação

      Um erro na execução da obra da linha 4-amarela (Luz-Vila Sônia) do Metrô de São Paulo provocou um desencontro de túneis que são escavados a partir de duas frentes de trabalho. O encontro das duas frentes de túneis não foi possível por conta de um desalinhamento lateral de 80 cm entre elas e obrigará as empreiteiras a fazerem correções que podem se estender por um mês. O problema ocorreu no último dia 10 de setembro.
      Bárbara Gancia ao falar desse caso, num artigo publicado na Folha de S. Paulo intitulado “Tem mosca no sorvete?”, recorda um outro de menor importância, porém pitoresco, quando uma escavadeira foi esquecida dentro do estádio da Portuguesa, o Canindé, durante sua construção.
      Falhas mais sérias, como a ocorrida no início do ano— surgimento da cratera na obra da mesma linha amarela— levantam a seguinte questão: como evitar que casos como esses se repitam? Creio que é preciso analisar em profundidade as causas e as responsabilidades devidas para que delas se tirem as necessárias lições e aprendizados.
      Alguns apontam como causa principal a política das empreiteiras da obra. Por exemplo, a supracitada colunista bate nessa tecla, afirmando “como podem só cinco empresas de engenharia no país, ditas “as cinco irmãs”, ganhar toda santa concorrência pública que é lançada. O leigo pode imaginar que só a OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa possuam a expertise para realizar obras de grande porte, mas eu garanto que tem muito dono de empresa de engenharia séria por aí que se pergunta porque nunca conseguiu vencer nenhuma das licitações de que participou. Imagino que a resposta à minha persistente pergunta tenha algo a ver com o fato de que, junto com os bancos, as empreiteiras são as maiores contribuintes das campanhas eleitorais e que, se unidos, os deputados que elas elegeram na última eleição dariam uma bancada mais numerosa do que a do PT”.
      Para outros, o controle é tão importante em grandes obras que acaba influindo no seu andamento e precisa ficar automaticamente ligado ao projetista, que deveria acompanhar o processo de construção, pois é ele quem tem como avaliar os processos. Outras considerações incluem conhecimentos técnicos, forma de gerenciamento, administração, contratação, cronogramas, custos, financiamentos... etc.

      Segundo o x-presidente do Instituto de Engenharia (IE), Eduardo Lafraia, “vivemos um momento de apagões na engenharia brasileira. Estamos trabalhando no limite, assim como os controladores de vôo no final de 2006 e o sistema elétrico, num passado nem tão recente.” Para ele, a má gestão pública na contratação de projetos e obras tem contribuído para esse “apagão” por “não dar o devido valor à capacitação técnica, numa espécie de menosprezo à capacidade da engenharia brasileira”.
      O ex-presidente do IE lembra que poucos investimentos públicos resultaram em poucas obras nos últimos anos. “Pressão por menores preços, buscas por novas formas para contratação e financiamento de obras públicas, concessões de serviços, pressões políticas, tudo isto pode levar a atuações além dos limites possíveis, refletindo-se na preocupação com a rentabilidade e exeqüibilidade das obras e empreendimentos, situações estas que podem ter contribuído, mesmo que indiretamente para o acidente”, justifica Lafraia.
      Talvez esteja na Educação Brasileira um dos principais motivos. Nos Estados Unidos, o currículo geral de engenharia foi inteiramente modificado após 1940, ano em que a Ponte de Tacoma Narrows caiu numa manhã de enorme ventania por aquelas bandas. O colapso da ponte teve lugar no dia 7 de Novembro apenas quatro meses depois de aberta ao trânsito de automóvel. Erros de concepção no projeto foram a origem do desastre. Uma explicação técnica elaborada posteriormente sugeriu a existência de um novo conceito para a época – o fenômeno de Flutter – que levava a freqüência própria de oscilação da ponte próxima da freqüência com que sopravam as correntes de ar tornando a ponte instável. Quanto a influência da nossa educação, falarei em uma outra oportunidade.