É Primavera...

A nova estação desperta um lado mais filosófico e poético do mestre JC Sebe porque precisa “acreditar que os ciclos da vida existem para renascer e nos dar as flores que existem nas possibilidades”


     Quando este texto for publicado, com certeza, a primavera estará inaugurada e vestida de folhas novas. Festa do calendário; folia em almas que contrastam com os que nada vêem e nem sentem as estações do ano... E fico pensando no significado metafórico do eterno recomeço.
     A força da palavra primavera é de incrível teor regenerativo e insiste em convidar a renascimentos como se uma vida nova pudesse em nós brotar, em coerência com o ciclo biológico da Terra. É lindo pensar que há homologias entre o planeta e a gente. Esperança em essência. Mansa e branda palavra: primavera.
     Ao pensar na ternura do termo, me veio à cabeça a música Primavera, de Cassiano e Sílvio Rochael, interpretada por Tim Maia em sons que não saem de meus ouvidos. E quem não se lembra: “quando o inverno chegar/eu quero estar junto a ti/pode o outono voltar/que eu quero estar junto a ti/e é primavera, te amo/é primavera, te amo meu amor/trago esta rosa/para te dar/meu amor/hoje o céu está tão lindo/Vai chuva...”.
     Mas não é só a canção que me invade em recordações amorosas. Lembro-me também, garoto ainda, decorando versos de “As Primaveras” de Casimiro José Marques de Abreu e dentre tantos poemas havia um em especial, verso/diálogo, que me encantavam mais que outros e, agora, não tenho com deixá-lo sem evocação: “E se a virgem viesse agora mesmo/surgindo bela qual visão de amores/tu, p’ra saudá-la bem do imo d’alma/diz-me, poeta - o que escolhias ?” e eis a resposta “- Flores”. Esta passagem está no verso intitulado “O quê” e acho que a semente que fertilizou o solo dessa minha memória veio pela representação das flores como símbolo de vida refeita. \
     E sob todos os pontos de vista convém lembrar que precisamos re-aprender a “Sagração da primavera” como propôs o poeta e músico cubano Alejo Carpentier e o incrível Stravinsky no balé em dois atos que marcou o início do modernismo na música erudita.

     É tão bom pensar que podemos ser melhores, que conseguimos virar páginas, superar estações, e projetar utopias que prometem verdades. Sim, é são admitir que o inverno, em sua metáfora arrefecedora de emoções, aproximada da neve fria e ímpia, é compensado pela superação primaveril. De igual monta, há beleza em se suplantar na fantasia do que é o outono: doído, sempre tão próximo do imaginário do fim, com folhas caindo, desbotadas.
     Creio que, contudo, todos esses tropos, espécie de metonímias, valem também como alertas. Mas pensemos quais flores gostaríamos de colher nessa nova primavera. Sondei meu íntimo e, creio, que em termos pessoais gostaria de florir mais em paciência, tolerância e tranqüilidade. Em termos materiais, poderia dizer que nesta primavera gostaria mais de ver meus netos, estar próximo ao mar – tão perto e tão distante – andar pelo verde entre árvores que expressam em si a força da purificação.
     Mas há projeções mais conseqüentes, políticas. Bem que o Congresso Nacional podia assumir o renascimento. Talvez algum projeto-lei, decreto, pudesse propor a re-fertilização dos atos governamentais e orvalhar de honestidade o dever de nos representar. E então, de forma drástica, teríamos um reflorestamento da cidadania.
     Li outro dia uma frase da Lígia Fagundes Teles onde ela declarava que sua “cor favorita é o verde, porque verde é a única cor que amadurece”. Confesso: quase chorei. Mas também tomei meu copo de cólera quando medi a distância entre a frase poética e a realidade política que vivemos. Mas preciso não me contradizer. Nesta primavera quero e preciso mais paciência, tolerância e tranqüilidade. Tomara.
     Tomara que a primavera refaça em mim as esperanças e mostre que mesmo o inverno, o outono e até o verão têm funções fertilizadoras. Eu preciso acreditar que os ciclos da vida existem para renascer e nos dar as flores que existem nas possibilidades.