
Ando muito interessado em definições
das crises existenciais modernas. Acho que as novas neuroses são
de sofisticação atraente e desafiadoras para entendimentos
do nosso tempo. Nada a ver com as antigas depressões crônicas,
melancolias, tristezas, esquizofrenias que ficavam bem em vovós
d’antanho. Hoje em dia é elegante valer-se conceitos
como Síndrome de pânico, Quizilosfrenia ou o mais
interessante deles Síndrome de Estocolmo.
Sabe, acho chique ter “Sindrome de Estocolmo”
e me justifico. Antes de mais nada, é preciso dizer que
a capital da Suécia é uma das cidades mais belas
do mundo e por isto só valeria batizar qualquer síndrome.
Mas isto é pouco, muito pouco e nem justificaria uma balada
tão encantadora como Stockholm Syndrome do Muse. Mas vejamos
a gênese do termo.
Logicamente, o fato que gerou o conceito ocorreu
em Estocolmo e envolveu três mulheres e um homem em uma
trama diabólica. Era o dia 23 de agosto de 1973 e acontecia
um assalto em um dos mais importantes bancos da cidade, o Kreditbanken.
O perpetrador era um jovem que estava em liberdade condicional
e que atendia pelo nome de “Jenne”. Com a eficiência
coerente com a reputação, a polícia logo
chamada chegou ao local em quatro minutos e dois policiais logo
entraram no banco sendo que um deles foi ferido pelo bandido enquanto
o outro obrigado a se sentar em uma cadeira e cantar uma música,
no caso a country music “Lonesome Cowboy” de Peter
Rowan e Don Edwards.
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A essa altura, os quatro reféns seriam trocados
por nada mais nada menos que 730 mil dólares, duas armas
poderosas, coletes aprova de balas, munição, capacetes
e um carro. O detalhe curioso é que tudo deveria ser trazido
pelo melhor amigo do assaltante. Iniciava-se assim uma negociação
curiosa, pois, as falas dos reféns passaram, magicamente,
a proteger o bandido condenando os métodos da polícia.
Tal foi a sedução do assaltante que os reféns
desenvolveram verdadeira fascinação pelo tal Jenne
e por seu companheiro.
Os detalhes são impressionantes. Os
perpetradores colocaram os reféns como escudo e assim conseguiram
autorização para a fuga, mas sem os usuários
do banco. Tudo voltou à estaca zero, pois os bandidos somente
se sentiriam seguros com as vítimas. Foi assim que se deu
a grande novidade: uma das moças, de nome Kristin, mostrava-se
irritada e pedia para a polícia deixa-los sair. O curioso
é que o primeiro assaltante permanecia calmo e cantarolava
o tempo todo “Killing me softly” enquanto negociava.
Tudo tardou mais dois dias e meio até
que os bandidos vendo que a polícia tinha feito um buraco
de fora para dentro, a fim de libertar os reféns, os amarraram
de maneira enforca-los caso a polícia invadisse. De toda
forma, no dia 28 foi usado gás e os bandidos se renderam
e todos saíram sem ferimentos. Condenado, Jenne passou
a receber visitas das vítimas e o colega liberado, por
dizer-se também vítima e que permaneceu para amenizar
a ira do amigo, tornou-se intimo das vítimas e até
hoje, segundo a lenda, são fraternos.
O que interessa é notar a dependência
afetiva que os bandidos exercem sobre suas vítimas. Aí
reside a novidade dessa síndrome que, parece, acomete parcela
considerável dos envolvidos em crimes modernos. E no momento
em que colocamos em juízo a impunidade em nosso país,
cabe questionar que perpetradores nos fariam apaixonar por eles
e suas falcatruas. Acho que sou ainda alguém a moda antiga...
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