| Instituto
São Rafael
Perseguições, acusações
e
até violência contra
deficientes visuais
A
luta política reinante em Taubaté prejudica até
os deficientes visuais da cidade. O caso mais emblemático
chama-se Instituto São Rafael, no bairro Vila São
José, próximo à Rodoviária Nova. Idealizada
por Oswaldo Barbosa Guisard, a instituição passa por
um momento delicado marcado por disputas, acusações
e até violência
Por Marcos Limão
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No primeiro dia de janeiro
de 2004, às 10 horas, a Diretoria eleita para o triênio
2004, 2005 e 2006 toma posse na sede do Instituto São Rafael.
Patrícia Querido Guisard elege-se presidente. Paulo Bonani
Filho, hoje assessor do prefeito Roberto Peixoto (PMDB), é
eleito 1º tesoureiro.
Após dois anos de
trabalho, Patrícia Guisard se afasta da diretoria por motivos
de saúde. O vice-presidente e os 1º e 2º secretários
declaram não querer assumir o cargo vago. Então,
a presidência sobra para o 1º tesoureiro, Bonani Filho.
Depois de deixar o cargo, Patrícia Guisard redigiu uma
declaração, no dia 10 de março de 2005, e
informou que a entidade dispunha de um “grande equilíbrio
orçamentário”.
A “eleição”
de Bonani filho sempre foi contestada. A contadora e voluntária
do Instituto, Izabel Cristina Pantaleão, por exemplo, alega
que a Diretoria, encabeçada por ele, é ilegal, pois
“não existe registro de convocação,
eleição e posse de nova diretoria em substituição
a atual, legalmente investida, consta sim, uma declaração
autenticada em cartório, datada em 10 de março de
2005, onde o referido senhor [Bonani Filho] assina como presidente
interino”.
Além disso, no dia
17 de novembro de 2006, Bonani Filho publica um Edital de Convocação
para eleição para um novo triênio, assinado
por ele. Seus críticos argumentam que ele não poderia
faze-lo por que ele era apenas interino e sendo assim não
poderia ter assinado a convocação. Segundo o Estatuto,
somente o presidente, no caso seria Patrícia Guisard, poderia
convocar o pleito.
Expulsa
Os relatos registrados por
nossa reportagem apontam para uma limpeza milimétrica levada
a cabo por Bonani Filho. É o caso da 2ª Suplente da
Diretoria que era encabeçada por Patrícia Guisard,
Ivone de Andrade Santos.
Há dois anos fora
da diretoria, ela declara: “Eu ainda faço parte da
Diretoria. Eu não assinei nada para sair”. A diretora
afastada nunca perdeu contato com os internos. Segundo Santos,
os deficientes visuais do Instituto, quando ninguém está
vigiando, ligam e falam que estão sendo maltratados. “Quando
pode, quando conseguem, eles ligam pra mim”.
Santos também relata
que foi expulsa pelo telefone simplesmente porque pediu prestação
de contas de um dinheiro arrecadado em uma festa beneficente:
“Ele me expulsou por telefone. Ele me ligou e falou que
eu estava proibida de ir lá”. E nega que sua expulsão
possa ter ligação com a sua amizade com Patrícia
Guisard.
Morte
Maria Eufrazina de Oliveira
freqüenta o Instituto São Rafael há mais de
10 anos onde presta serviços voluntários. “Eu
faço visita todos os domingos e eu tenho visto ultimamente,
de um ano para cá, eles [deficientes visuais] reclamando
pra gente que não estão sendo bem tratados. A Dona
Izabel Ferreira Neves reclamava muito de dor de barriga. Todos
os domingos que eu ia lá, ela reclamava de dor de barriga.
Eu cheguei a perguntar para a Dona Lúcia, que faz parte
da [atual] Diretoria, e ela falou pra mim que ela estava sendo
medicada, fazendo exame. Ela caiu no banheiro. [Em outra ocasião]
Foi levada para fazer trabalho de argila, caiu da cadeira. Essa
Dona Izabel reclamava pra mim que não agüentava andar
e eles queriam que ela andasse. Num domingo, que eu estava lá,
a faxineira pediu para [eu] dar um prato de sopa pra ela porque
já fazia três dias que ela não se alimentava.
Eu peguei o prato de sopa, fui no quarto e dei para ela. Mas eu
fui repreendida pela Dona Lúcia, que faz parte da Diretoria,
que eu não poderia ter levado o prato de sopa lá,
porque a Dona Izabel estava fazendo manha. Até que chegou
um dia que ela [Dona Izabel] vomitou sangue. Aí então
eles correram com ela para o hospital. Ela ficou sem assistência
médica lá [no Instituto]. No Instituto, colocaram
uma enfermeira, depois tiraram. Diziam que não tinham condições
de pagar [uma enfermeira]. Mas eu entrei em contato com a família
e a família disse que mandou o dinheiro para pagar a enfermeira.
Esse caso eu acompanhei de perto. Ela reclamando pra mim que não
conseguia andar. Eles disseram na minha cara que era manha, que
não era doença, que ela tinha que andar até
o refeitório para comer. Os três, o senhor Paulo
Bonani, Dona Magali e a Dona Lucia falaram pra mim que ela fazia
manha”.
“Subversivo”
Para participar da disputa
política, o cidadão precisa ter visão. Mas,
em Taubaté, um deficiente visual é considerado inimigo
político, subversivo, e, por isso, está sendo duramente
castigado. Nascido em Redenção da Serra, Fridolino
Soares dos Santos, de 67 anos, mais conhecido como Sr.Lino, mora
no Instituto São Rafael há 15 anos. CONTATO conversou
com o neto do Sr.Lino, Sandro Alex da Silva que conta: “Você
entendeu o que está acontecendo lá... [a briga entre
Izabel Pantaleão e Bonani Filho] é uma questão
política.” Segundo Silva, a amizade do seu avô
com Pantaleão e o relacionamento dela com o pessoal da
Associação de Moradores da Vila São José
foi o motivo para perseguir o Sr. Lino, do Instituto - há
cerca de 3 meses, a Associação de Moradores da Vila
São José elegeu nova diretoria. Na ocasião,
venceu a Chapa 2, com 272 votos. A chapa 1 recebeu 169 e contou
com apoio de vereadores da base aliada do prefeito Roberto Peixoto
(PMDB).
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“Meu avô não tem nada a ver com isso. Ele faz
amizade com quem ele quiser. Eles têm que cuidar do meu
avô. Vai fazer política com as negas dele. Uma disputa
de espaço entre Isabel, atual presidente Associação
de Moradores, e Dona Patrícia... Isso é uma política
deles. O que não pode acontecer é envolver os cegos.
Na cabeça dele [Bonani Filho] meu avô é uma
força política contrária a ele. Meu avô
não está nem conseguindo levantar da cama. O que
meu avô faz é reclamar de coisa que está errada”.
“A minha irmã
foi fazer uma visita [para Sr. Lino] e ele [Bonani Filho] foi
atrás da minha irmã, achando que ela fosse alguém
da política da Izabel. Ele confundiu as coisas. A minha
irmã me ligou [do Instituto São Rafael] e disse:
‘eu estou sendo agredida aqui, estou sendo maltratada por
uma pessoa chamada Bonani’”. Então, Silva foi
até o local: “Quando eu cheguei, o Bonani já
tinha saída. Quando eu cheguei, tinha uma cadeira na porta,
com uma funcionária com ordem de só sair dali a
partir do momento que a minha irmã se retirasse. Ele está
cerceando o direito de visita do meu avô. Eu fui na delegacia
e fiz um Boletim de Ocorrência. A Dona Patrícia [Guisard],
na época ela, em relação à família,
me recebia muito bem. Nós nunca vivemos esta situação
lá [quando Patrícia presidia a entidade].”
Sandro Silva também
conta indignado que Bonani Filho, “na frente de outros cegos,
bateu no ombro do meu avô e falou: ‘não quero
mais ver a cara do senhor aqui’.
No dia 10 de setembro, Bonani
Filho, escreveu um documento para justificar o pedido de expulsão
do Sr. Lino e enviou cópias para a Promotoria Pública
e para o Conselho Municipal do Idoso. Um dos argumentos usados
por Bonani Filho é: “a situação chega
a ser mais agravante, pois o mesmo é dotado de espírito
de liderança sobre outros “assistidos” menos
esclarecidos e constantemente contribui para o surgimento de atritos
dos mesmos com funcionários da instituição.”
Outro Lado
O atual presidente do Instituto São Rafael, Paulo Bonani
Filho, não foi encontrado para falar sobre o assunto. Todavia,
é importante ressaltar que o espaço do jornal está
aberto para futuras explicações.
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