A pobre educação brasileira pode ficar mais pobre

      No Brasil, secularmente, um dos reconhecidos problemas está na educação. Quando a escola passou a existir para muitos, o grande educador Anísio Teixeira e outros denunciaram a existência da escola para os filhos ricos e da escola para os filhos dos outros. Antes disso, é claro, os filhos dos outros nem contavam com ela.
      A denúncia atravessa os tempos, apesar de realizações de vulto como a expansão quantitativa das matrículas. Porém, a cada comparação internacional, a cada divulgação dos resultados da educação básica no Brasil, renova-se o constrangimento. Agora mesmo, no PISA 2003, que analisa o desempenho dos alunos de 15 anos de idade, o País continuou nas últimas posições.
      Para piorar a situação, em de abril , portanto à véspera do lançamento do chamado Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE , o Presidente da República encaminhou ao Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional – PEC n° 50/2007, que prorroga até o final de 2011 a vigência da desvinculação de receitas da União (DRU). Esta medida reduz drasticamente a obrigatoriedade de aplicação de receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino. Para se ter uma idéia do prejuízo, basta dizer que, entre 1998 e 2007, R$ 43,5 bilhões deixaram de ir para o financiamento do ensino público no Brasil por causa da DRU. Um montante de recursos que não podemos nos dar ao luxo de tirar da educação, que deve ser a política pública prioritária do país.

 

 

 

      Por outro lado, o governo federal planeja pagar R$ 260 bilhões de juros da dívida pública de 2008 a 2010 só com dinheiro de impostos cobrados da população. O valor consta do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) 2008.
      Muito se tem falado sobre a prorrogação, até 2011, da CPMF. A tal ponto, porém, que pouca ou quase nenhuma atenção tem sido dedicada à prorrogação, também até 2011, de um mecanismo que há mais de dez anos afeta diretamente a educação brasileira. Hoje, o Brasil investe US$ 870 per capita por ano, em média, nas quatro primeiras séries do ensino fundamental. Esse valor é metade do investimento realizado pelo México e quase cinco vezes menos que o da Coréia do Sul, por exemplo.
      Para entender como funciona a DRU, basta pensar que 20% de todos os impostos que, pela Constituição, deveriam ir para a educação podem ser destinados pelo governo federal para outras áreas. A DRU é responsável por cerca de 60% do total dos recursos que a União tem liberdade de gastar. Se dependesse do governo federal, os governadores estaduais também teriam o direito de gastar 20% da arrecadação do jeito que quisessem, independentemente de vinculações previstas na Constituição. E isso poderia abalar mais um pouco a seguridade social, já que a área de saúde tem forte atuação dos estados. O governo federal propôs aos governadores uma DRU estadual, mas alguns rejeitaram a idéia, e ela foi abandonada.
      Assim como a CPMF, a DRU também foi criada com prazo de validade bem definido: sua vigência se encerra em 2007. Por isso, o governo busca agora a prorrogação de ambas, que tramitam juntas na mesma proposta de emenda constitucional.
      A sociedade tem o direito e o dever de acompanhar de perto as discussões sobre a prorrogação da DRU, entender seus efeitos para a educação e reagir.