
Entre os instrumentos musicais de maior prestígio
no Brasil, bem como em grande parte do mundo, situa-se o piano.
Sinal nítido de “classe”, o piano sempre enfeitou
lugares, significou posições culturais e a tal ponto
foi considerado burguês que Lima Barreto no “Triste
fim de Policarpo Quaresma” o detratou como arrogante, símbolo
de uma europeização não desejada. Em troca,
o autor mulato lançado por Monteiro Lobato em 1919 saudava
o violão como instrumento coerente com o gosto popular
brasileiro.
Polêmicas à parte, a realidade
é que o piano sempre exerceu fascínio e tanto a
literatura como o cinema, o teatro e a poesia sempre evidenciaram
o piano. E quem não gosta de ouvir um piano bem tocado?
Independente de seu valor como ícone de ascensão
social, o piano é encantador, tem sim suas mágicas
e merece a consagração de “rei dos instrumentos
musicais”.
Esta introdução me veio à
cabeça frente a um convite irrecusável. Ao chegar
de viagem de trabalho pelo nordeste brasileiro, havia um ingresso
para assistir a apresentação do fabuloso virtuose
Dang Thai Son, o vietnamita que emociona público tanto
pela sua arte como pela história pessoal. Sim, o caso de
Son é singular. Menino de sete anos de idade, foi um dos
refugiados que, na atrocidade do ataque norte-americano a Hanói,
se abrigaram nos subterrâneos construídos para proteger
contra os inclementes bombardeios. Pois bem, àquele subterrâneo
havia sido transportado, em lombo de búfalos, por mais
de setenta km um único piano que era disputado por todos.
Com não mais de meia hora por dia, o jovezinho se exercitava,
disputando lugar com outros interessados e se impondo como o gênio
que o mundo iria aplaudir.
A lembrança dessa história me
veio à mente quando filtrava outros episódios da
produção fílmica que têm o piano como
tema. É lógico que me concentrei no cinema com naturalidade,
pois são tantas as películas que assumem o piano
como pretexto central para histórias que seria simplista
demais não levar em conta essa abordagem.
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O primeiro filme que salta aos olhos é sempre
o inevitável “Casablanca” com o memorável
“Play it again Sam” dito em função do
“As time goes bye” – o melhor filme de todos
os tempos. Mas há outros e mais específicos como
“Fitzcarraldo”, o fantástico filme do alemão
Werner Herzog onde é narrada a história de um visionário
que pretendia levar o piano para a floresta amazônica. O
memorável “O piano” de 1993, australiano, neozelandês
e francês, onde uma mulher escocesa que decide não
mais falar se relaciona com o piano para sobreviver a um casamento
maldito no meio da floresta, arrebatou platéias do mundo
todo.
E quem não ficou chocado com a contundência
de Roman Polanski no filme “O pianista”, em 2002,
impacto que justifica porque levou para casa parte considerável
dos prêmios da Academia, o Oscar. Polanski relata a história
de um judeu no Gueto de Varsóvia. No ano anterior, o austríaco
Michael Haneke lançou sem tanto sucesso “A Professora
de Piano”, transpondo para a tela um romance onde apresenta
a personagem Erika Kohut , pianista que troca a carreira de concertista
pela de professora no Conservatório de Viena e se apaixona
pelo jovem aluno vivendo, ambos, uma experiência alucinante.
Alguns devem se lembrar de uma lenda urbana
que virou notícia em abril último, a tal história
do “homem piano”, ou seja, do sujeito que surgiu nas
praias da Inglaterra sem documentos e que não falava uma
só palavra, mas que, frente a um piano, interpretou com
dotes acima da média o “Lago dos cisnes” de
Tchaikoviski. Mais tarde descobriu-se que o moço era alemão
e trabalhava com debilitados mentais que o teriam inspirado, mas
de toda forma, o piano o consagrou.
Pois bem, tudo isso para dizer terei prazer
de ouvir o 1o concerto de Chopin, interpretado por Son, acompanhado
da Orquestra Petrobrás Sinfônica sob a regência
de Isaac Karabtchevsky. Sabe que vai ser difícil ouvir
a música e tentar esquecer a história fantástica
desse sujeito que toca a vida como se fosse teclas de um piano.
E viva a música que permite reunir uma história
emocionante e uma emocionante peça. 
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