
Com certeza, cada cidade tem seus fantasmas
e não lhes faltam aqueles que os cultuam e dão perenidade.
A identidade de cada centro se constrói na caracterização
desses seres imaginários. E quanta graça existe
nesses enlevos amorosos. Certamente os fantasmas do passado encantam
e tornam ternas as lembranças sobre o que um dia foi o
cenário de nossa vida. De Taubaté, mesmo sem ser
saudosista, gosto de ressuscitar alguns tipos que enchiam de medo,
às vezes de ternura, sempre de emoção.
Cresci no Largo do Mercado. Lá negociavam
muitos artifícios que davam graça à memória
da cidade como um todo. E o próprio Mercado era personagem
vivo das trocas de informações e mistérios.
Seria injusto se apenas considerasse o Mercado como “lugar
de memória”. Havia outros importantes também:
o Largo da estação, a Praça do Chafariz,
o Bosque, o Convento, cemitérios, casas assombradas que
guardavam formidáveis histórias sempre contadas
à meia-voz, mas com garantia de verdade.
Como historiador, não poderia deixar
de lado o Cavarucangüera com a lenda magnífica da
curva do rio onde estariam enterradas as caveiras de burros malditos
e, portanto, lugar de muitos azares e desgraças. Aliás,
o sufixo “engüera” em tupi significa “diabo”
e só isto despertaria suspeita.
Indo mais fundo na toponímia, aceitando
que a mais clara inspiração para o nome de nossa
urbe era mesmo “taba-e-eté”, ou seja “taba
grande”, ou mesmo “capital”, temos que ao lado
do sítio privilegiado escolhido para abrigar as artimanhas
do poder governamental dos índios, havia um lócus
onde era enterrado o mal. E o “lugar diabólico onde
eram enterradas os burros” transformou-se em um arsenal
de lembranças. Quando penso no fantástico levantamento
feito por Lobato sobre os sacis, tenho certeza de que só
uma pessoa que passou a infância em Taubaté poderia
garantir tanta potência à mágica daquele personagem
formidável.
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Mas, passemos aos nossos fantasmas “reais”.
Com admiração recordo-me da “Isaura da chave”:
despenteada, com roupas velhas, cara enrugada, ela andava pelas
ruas com uma chave na mão. Diziam – e até
juravam – que ela havia matado a própria filha cujo
corpo estaria ainda em sua casa, e daí a chave. A “loira
do cemitério” – que certamente é uma
variação da portuguesa “mulher de branco”
– é outra que metia medo. A fogosa mulher se materializava
e conquistava os homens solitários que nunca mais amariam
ninguém.
No Largo do Mercado, diziam, que o “homem
da capa preta” aparecia às sextas-feiras depois da
meia noite, e eu morria de medo. Interessante que mesmo os fantasmas
camaradas eram aterrorizantes. Tinha um, o “frei bom”,
certo velhinho que morreu no Convento Santa Clara que até
fazia milagres, mas se falássemos palavrões ele
viria nos beliscar à noite. Acho que nunca uso palavrões,
até hoje, por medo do fradinho. Mais recentemente, diziam
que um médico famoso que se suicidou, aparecia em determinado
local, exatamente onde havia cometido o ato derradeiro. Mesmo
mocinho, eu sempre ia lá, mas nunca tive o prazer de vê-lo.
Juro.
Mas, há personagens que mesclavam a
vida real e a surreal. Será que existe ainda aquela senhora
que toma conta de sepulturas no cemitério da Ordem Terceira?
E o Julio Guerra, quem dele se lembra com seu projeto de fazer
uma linha ligando por teleférico o alto de São João
à praça da Catedral? O seu nhô-nhô Cassiano
e seu legendário patrimônio certamente é vivo
na recordação de quantos lhes pagavam juros altíssimos.
E sabe o que fico pensando? Com tanta riqueza,
com tanto patrimônio mnemônico, como podemos abdicar
de tudo isso e aderir às estranhezas da importação
de mitos como o dia das bruxas. Sei, não... Mesmo sendo
vulnerável às modernidades, acho que negar esta
nossa herança é deixar por menos o que tem valor
simbólico inestimável.
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