Patrimônio histórico

Especulação imobiliária
ameaça nossa história


Enquanto em Taubaté nossa história é demolida, na vizinha Pindamonhangaba ela aflora em plena época de especulação imobiliária e atrai turistas

Por Ana Lucia Vianna

        O Palácio Visconde de Palmeira, em Pindamonhangaba, foi construído em estilo neoclássico em 1850 e é considerada a única reminiscência da nobreza rural do Ciclo do Café Paulista. As paredes externas do edifício de três pavimentos foram construídas em taipa de pilão. A fachada do prédio tem mais de sessenta janelas. Os pisos dos salões são forrados com madeira de lei formando desenhos únicos, o teto é ornado por lustres de cristal. As portas e janelas são de madeiras maciças, o piso do saguão em mármore de Carrara. As paredes filetadas em ouro e as bandeiras das portas com pinturas em azulejos de paisagens brasileiras, refletem a suntuosidade de uma época. Quatro estátuas feitas em cerâmica louçada do vale do Sena, representando as estações do ano que antigamente ornamentavam a parte superior do palácio, hoje enfeitam os salões já em fase final de restauração.
        O Palácio já abrigou a escola de Farmácia e Odontologia de Pindamonhangaba, bem como o Colégio Estadual e Escola Normal “João Gomes de Araújo”. Tombado pelo CONDEPHAAT, passou agora a sediar o Museu Histórico e Pedagógico “Dom Pedro I e Imperatriz Leopoldina”.
        Contudo, o grande trunfo desta conquista está no entusiasmo e determinação de pessoas, sejam do poder público ou cidadãos comuns, que há mais trinta e oito anos (vinte de pesquisa e dezoito de restauração) vêm se dedicando a este magnífico e difícil trabalho de restauro. Pessoas como Dr. João Laerte Salles e Sra Maria Ceres Salles, que, com um entusiasmo contagiante, certamente induziram muitos moradores a contribuir, doando relíquias de família. Também conseguiram atrair artistas da terra para trabalhar, cada um com seu maior dom, na recuperação de detalhes do Palácio.
        O Museu ainda não está aberto à visitação pública, porém, por deferência especial, um grupo de moradores de Taubaté e de Pinda teve acesso a seus salões, guiado pela incansável Professora Ceres. Esperamos que em breve suas portas se abram a todos e que o trabalho sensibilize e inspire muitos cidadãos para que voltem a olhar os nossos prédios e espaços históricos com mais respeito, para que nossa história possa ser mostrada a nossos descendentes e não apenas contada em fotos ou livros.
        Pindamonhangaba é um exemplo de determinação e respeito ao seu patrimônio histórico. E a restauração do Palácio Visconde da Palmeira é a maior prova dessa postura que a terra de Lobato podia muito copiar.

Contramão da história
        Turismo é o tema do momento. Em todo o país existe um movimento que ao longo dos anos tem conseguido resultados fabulosos. As restaurações do Pelourinho, das igrejas e dos edifícios históricos são, sem dúvida, os maiores responsáveis pelas transformações que fizeram de Salvador a porta de entrada mais solicitada por turistas de todo o mundo.
        Nos últimos anos, porém, em Taubaté o caminho tem sido outro. Aqui acontece a rápida e progressiva destruição de imóveis históricos. A especulação imobiliária já não respeita nem mesmo imóveis tombados, como a residência de Raul Guisard onde muitas árvores já foram arrancadas de seu berço secular. Vale tudo em nome do progresso e da modernidade, como a proposta da revogação do tombamento do prédio do TCC. Um bom arquiteto resolve qualquer problema dando equilíbrio entre o moderno e o antigo, harmonizando espaços, sem que haja necessidade de apagarem-se memórias.
        Os meios de comunicação têm denunciado constantemente os anúncios da venda do patrimônio histórico como o das Casas Pias, da praça Monsenhor Silva Barros e do centenário quarteirão do antigo Hospital Santa Isabel. Também é consenso o descaso com a Villa Aleixo, bem agora que surgem fortes evidências do seu projeto ter tido a participação do arquiteto Ramos de Azevedo (arquiteto, autor de obras como Teatro Municipal de São Paulo, Santa Casa de Misericórdia, Palácio das Indústrias Liceu de Artes e Ofícios - atual Pinacoteca do Estado).
        Mega investimentos imobiliários propostos nas ruas quatro de Março e Barão da Pedra Negra, a anunciada construção de um espigão de 15 andares no entorno da Praça Santa Teresinha, sem falar na absurda construção do terminal turístico dentro da praça, recentemente divulgado pelo Poder Executivo, têm levado muitos cidadãos a repensarem seus valores.
As deletérias conseqüências desta corrida destrutiva podem ser sentidas na perda da Chácara das Flores, da praça Dom Epaminondas, de parte da praça do Relógio da CTI e de muitas casas no centro da cidade. Nossa Taubaté, berço da história do Vale do Paraíba, está indo para o chão e para os ares.