BLUES ETÍLICOS

Por Melissa Oliveira

O grupo conta como foi o trabalho do novo álbum e faz apelo aos (futuros) jornalistas




     A banda de maior referência do blues no Brasil já possui vinte anos de carreira, a maior vendagem de discos do estilo musical e está em turnê para divulgação de seu novo álbum, “Viva Muddy Waters”, uma homenagem ao músico de mesmo nome. O grupo se apresentou no SESC Taubaté na última sexta-feira, 24. O show, que contou também com clássicos antigos e composições próprias, fez parte do encerramento da 27ª SECOM – Semana da Comunicação da UNITAU.
     No final do show, com exceção do vocalista norte-americano Greg Wilson, e o baixista Cláudio Bedran, que preferiram o conforto do camarim, uma entrevista bastante informal e em tom de bate-papo, foi concedida pelo gaitista (que também possui carreira solo) Flávio Guimarães, o baterista Pedro Strasser, e Otávio Rocha, guitarrista de renome.
     Otávio possui familiares em Taubaté. Mas seus pais preferiram faze-lo nascer na cidade do Rio de Janeiro, daí seu sotaque carioca. Quando se deu conta que a entrevista estava sendo gravada, comentou com humor: “Mas os hospitais de Taubaté atualmente são muito bons...”.
     Confira os melhores momentos da entrevista:

Dos 1500 shows realizados, aberturas para shows de artistas famosos, como BB King, algum marcou mais a banda?

Flávio Guimarães: O início marcou muito. A gente tocava no Circo Voador (espaço cultural do RJ), abrimos shows para várias bandas, como o Barão Vermelho. Agente abriu um show do Barão, que o Cazuza participou. Foi um show inesquecível. E também abrir para BB King, Robert Cray, Magic Slim, Buddy Guy foi especial...

Pedro Strasser: Nessa turnê, a gente não abriu para ninguém em especial, mas para mim, um show marcante foi abrir para o Buddy Guy, onde hoje é o ATL Hall, e antigamente era o Metropolitan, no Rio. Do show nem me lembro! Só lembro da boca do Buddy Guy (imita o músico cantando).

Como foi o show de hoje (sexta-feira, 24, no SESC Taubaté)?

Otávio Rocha: Foi um show bom, mas não foi nosso “top”. A gente se divertiu no palco. Independente de qualquer coisa, é fundamental se divertir. Às vezes você esquece que a função é entreter. Então, o público tem que se divertir e a gente tem que se divertir também. Quando há uma junção desse divertimento, é recado dado. O show é uma coisa meio mágica, porque as pessoas que estão assistindo o show também influenciam.

 

Pedro: O show foi bom! Fomos conquistando aos pouquinhos. Não é nenhum show desses grandes, que “já chega ganho”, temos que conquistar. A guerra está aí pra ser vencida.

Flávio: O público foi super-receptivo. Em Taubaté e no interior de São Paulo em geral, alguns sempre são muito receptivos.

Referência do blues nacional, vocês precisaram de 20 anos de carreira para se sentirem amadurecidos musicalmente para gravar um CD em tributo a um ídolo (Muddy Waters). Alguma dificuldade?

Pedro: Não foi difícil, mas deu trabalho. Tivemos que pesquisar, escolher o repertório, e ver o que ele fazia pra gente fazer não igual, porém, na mesma direção.

Flávio: Caiu de maduro. Foi um produto natural depois de vinte anos. O Muddy Waters inspirou a banda, a sua formação, os arranjos com gaita, duas guitarras, baixo e bateria, mas realmente é um repertório bem específico, e não dá pra sair tocando porque pode ficar muito ruim. Tivemos a humildade de esperar o momento certo pra fazer isso.

Como é o público de Blues no Brasil?

Pedro: Nada se deve, tudo se pode. Poderia ter mais gente. Eu poderia estar pagando as minhas contas com muito mais tranqüilidade, e iria ser muito legal pra mim.

Flávio: É um público não tão pequeno, bem expressivo e muito fiel. Quem gosta de blues hoje em dia, daqui a vinte anos vai continuar gostando e quem gostava há vinte anos atrás, ainda gosta. Não é um fenômeno passageiro. O blues veio pra ficar. Eu diria que o blues inspirou tudo. Cássia Eller gravou blues, Cazuza gravou blues, Alceu Valença compôs blues, e o blues influenciou o jazz, e por conseqüência, a bossa nova. A música brasileira tem muito blues. Talvez algumas pessoas não tenham essa noção exata, mas é uma música afro-americana que influenciou toda a música popular do mundo.

Como foi encerrar a Semana de Comunicação de estudantes da Unitau?

Pedro: Boa sorte! Boa sorte em escolher as músicas que vocês vão ouvir para o resto de suas vidas. E boa sorte em todo o resto da vida.

Otávio: Não sabia que era tanta responsabilidade (brinca). Meu recado é fazer o que se gosta. O dinheiro também ajuda, mas é importante dedicar à parte que se gosta. Sinto-me bem em saber que encerramos a SECOM, porque, de uma certa maneira, estamos fora dos grandes veículos de comunicação. Mesmo assim, a gente consegue ter comunicação com as pessoas de uma geração mais nova. É legal!!

Flávio: É importante, para os futuros jornalistas, tentar ter uma isenção. A mídia hoje em dia tem um papel muito poderoso e, infelizmente, tende a seguir uma tendência de mercado. Os jornalistas não podem ser prepotentes, eles têm que entender que se leva um tempo para aprender sobre diversos assuntos, e que é importante estar sempre aprendendo, ter sempre a sua humildade de aprendiz. Um jornalista de vinte e poucos anos pode destruir o trabalho de gente que está aí há trinta anos. Criou-se um poder muito grande que não pode ser usado de forma equivocada. Na parte política brasileira, a missão do jornalista é muito importante também. O jornalismo é responsável por várias das mudanças que aconteceram recentemente no país. Agora, nas artes e na música, deve-se pensar de uma forma mais abrangente. É o que eu acho.