
Sempre, sempre o suicídio me impressionou
muito. Lembro-me de jovens – meninos ainda –, alunos
que tentavam “se matar”. O sucesso de alguns desses
casos me exasperava e me doe até hoje na escuridão
das dúvidas e porquês. Não foi sem motivação
que a morte provocada dos índios kaiowás, em Dourados,
me instigou para estudos. Para escrever “Canto
de morte Kaiowá” fui ao Mato Grosso do Sul
e fiquei na Reserva Francisco Horta Barbosa, morando com os índios,
ouvindo suas histórias.
De outra forma, me seria impossível
perceber a morte preferencial de crianças entre 10 e 17
anos que têm que fazer sua opção por continuar
(ou não) índios à altura dos acordos de casamento
feito pelos pais. Ademais, há uma ritualização
que no mínimo perturba: eles se sufocam com uma corda numa
cerimônia isolada que demora até três horas.
Um suporte teórico ajudou-me a compreender
aquele drama que sempre maltratará minha consciência.
Émile Durkheim em seu ensaio intitulado “O
Suicídio” provava que a morte provocada é
sempre resultante de um contexto que se articula culturalmente
de maneira a definir os que se auto-imolam. É pela sociedade
e pelos problemas do grupo que as mortes se explicam. O suicídio
tem sempre uma razão coletiva.
Precisei disto para admitir que o contingente
de mais de 800 suicídios em dez anos está diretamente
ligado ao tratamento que dispensamos àqueles índios.
Ironicamente eles querem viver e para isto motivam os jovens ao
único ato que chama a atenção dos “brancos”.
Esta história é terrível.
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Devo confessar, contudo, que me surpreende e atordoa
ver a opção pela morte provocada de personalidades
como Santos Dumont ou Pedro Nava, Primo Levi ou Walter Benjamin,
Gilles Deleuze ou minha escritora preferida Virgínia Woolf
que encheu os bolsos de pedra e, lentamente, entrou em um rio. Vargas
antes de seu derradeiro tiro tentou outras duas vezes, até
que conseguiu e recentemente o músico Kurt Cobain procedeu
a uma das mais dramáticas auto-imolações. De
igual monta o fizeram Van Gogh e Alfonsina Storni. Fico, contudo,
tonto ao ler detalhes da trágica morte de Catão que,
ao se ver derrotado por César, enterra um punhal no peito
e sem morrer crava as unhas nas vísceras arrancando-as.
Fazendo uma arqueologia do temor das mortes por suicídio,
no entanto, percebo que fui desde cedo nutrido por exemplos que
mesclam encantamento com motivação romântica
ou épica. E aqui tenho que fazer uma reflexão sobre
os efeitos de Shakespeare, literatura cultivada como essencial na
formação de qualquer leitor.
Não fugi a regra, pois desde muito cedo,
em edições recontadas ou traduções mal
feitas, eu me entretive nas tramas do grande escritor. E há
uma profusão de suicídios naquelas páginas
emocionantes. Talvez o caso de Romeu e Julieta seja o mais eloqüente
e atestado de desencontros e bloqueios amorosos entre jovens que
se inviabilizam, mas há outros.
O caso de Cleópatra é prova da coragem feminina que
não renuncia à altivez e à beleza; Macbeth
se mata para cumprir um designo que lhe foi dado; Ofélia
se suicida sem motivo aparente; Brutus por remorso. E há
tantos outros: Marco Antonio, Cássio e Otelo. Ah! Os suicidas
de Shakespeare!...
De modo geral, a literatura está cheia
de suicidas mas, se me perguntarem quais os suicídios mais
impactantes, sem dúvida direi que é o de Sócrates
que sorve cicuta para garantir a seriedade de suas palavras. E há
algo de contagiante na morte socrática. Lembremo-nos, por
exemplo, que o trágico Catão com punhal no peito e
com as vísceras dilaceradas lia o texto de Platão
sobre a morte de Sócrates. Aliás, “Phedon”
– o livro em que Platão dignifica a morte do mestre
– está entre os livros mais importantes da antiguidade.
Pensando nessas passagens, ocorre a fatal observação
de Albert Camus que definia no suicido o maior e único problema
filosófico do mundo. E como precisamos de filosofia para
entender o mundo dos vivos. Sem lógica, o suicídio
é a única explicação. 
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