Responsabilidade Social
Tirar adolescentes das ruas
Foi simples, mas muito reveladora, a comemoração pelos 30 anos da Soapro - Sociedade de Amparo e Promoção - que trabalha 24 horas por dia com a qualificação profissional de quase 1.300 adolescentes que por lá passam toda semana, como método eficaz para diminuir o impacto das diferenças sociais. A entidade e sobrevive desde a década de 70 com a contribuição voluntária de empresas privadas e mantém algumas parcerias com a prefeitura

Por Roberta Medeiros

       Quinta-feira foi dia de festa. A Soapro - Sociedade de Amparo e Promoção – fez 30 anos de trabalho junto a adolescentes carentes. A beleza da festa foi a simplicidade e singeleza dos alunos que a organizaram e desempenharam todas as funções: desde a produção – apresentação, iluminação, som, bastidores e organização até os números musicais, as apresentações de teatro, dança e coral.
       Os professores limitaram-se a orienta-los e dirigi-los. Com certeza influenciaram, ainda bem, na feliz escolha de textos de Luis Fernando Veríssimo para serem encenados pelos alunos. A platéia formada por colaboradores, amigos, familiares e algumas raras autoridades não economizaram aplausos. Nem tampouco o reconhecimento explícito de que Terezinha Miragaia reergueu a Soapro desde que assumiu sua coordenação em 1998.
       Outra figura de destaque na trajetória de recuperação dessa entidade sem fins lucrativos é o promotor Ozório Nunes, representante do Ministério Público que apóia e supervisiona o esforço pelo reerguimento da Soapro. Ozório recebeu uma justa homenagem. “O promotor foi o grande incentivador da Soapro, deu respaldo na área jurídica, acreditou no nosso trabalho. Ele é muito atuante com adolescentes, acreditando que o trabalho árduo pode transformar o jovem num verdadeiro cidadão”, disse Terezinha.

Soapro, exemplo de amor e despreendimento

       Fundada há 30 anos, a entidade beneficente Soapro (Sociedade de Amparo e Promoção) tem como objetivo tirar a adolescentes carentes das ruas atraindo-os para cursos de qualificação profissional em horário não coincidente ao escolar. Quase 1.300 adolescentes passam pela instituição semanalmente. Cerca de outros 3.000 estão na lista de espera.
       A sociedade mantém 17 cursos como treinamento para o mercado de trabalho, artesanato, eletricidade residencial, montagem de bicicletas, rádio, técnicas bancárias, contabilidade, garçom, departamento pessoal, gestão de pequenos negócios, inglês, telemarketing, artes cênicas, técnica vocal, informática e datilografia.
       A Soapro não tem ajuda do governo. Atualmente é mantida por 78 empresas que empregam os adolescentes. Elas pagam a taxa administrativa de R$ 38,00 por aluno mantido na instituição, o que permite que outros adolescentes ainda não integrados no mercado de trabalho possam fazer os cursos.
       Para participar do projeto, os adolescentes precisam ter uma renda de no máximo R$ 120,00 “per capita”. Eles próprios escolhem os cursos que desejam realizar. Os módulos duram, em média, seis meses. Quando completam 16 anos, são encaminhados para o curso de treinamento profissional, que prepara o aluno para o mercado de trabalho.
       “O objetivo principal da Soapro é tirar o adolescente da ociosidade no período em que ele não está na escola. A classe média mantém seus filhos em cursos de inglês, informática e natação, mas os filhos das famílias carentes vão para onde? Eles não têm recursos, não tem para onde ir”, disse a coordenadora de projetos sociais da Soapro, Terezinha Miragaia.
       “Queremos ver esses adolescentes aprendendo algo produtivo. Quando chegam [na Soapro], saltam aos olhos as manchas de desnutrição. Mas aqui recebem alimentação doada pela prefeitura. Dá para ver como eles melhoram. As manchas desaparecem e ficam com outra aparência”, disse Terezinha.

Aprendiz

       O programa mantido pela Soapro com as empresas prevê a contratação do aprendiz, que irá trabalhar por 30 semanais por um salário de R$ 380,00. Ele recebe seguro, exame médico, férias, 13º, FGTS e PIS. Para trabalhar 20 horas, o salário é de R$ 190,00 e de R$ 227,00 para 24 horas.
       Além dos cursos, os adolescentes ainda recebem atendimento médico e psicológico. O serviço é oferecido a partir de uma parceria com o CAISA (Centro de Atendimento Integral à Saúde do Adolescente), mantido pela prefeitura. O atendimento é feito no Hospital Universitário de Taubaté.
       A instituição ainda se preocupa em oferecer recreação, esporte e lazer como natação, futebol e gincanas. Há também o Grupo Psicossocial que realiza atendimento psicológico a pais dos adolescentes e orientação profissional.
       Em 2005, a entidade passou a receber deficientes mentais leves, que são encaminhados para os cursos de manicure, cabeleireiro e artesanato. Ao todo, são 22 alunos participam dessas atividades, graças a uma parceria feita com a escola municipal Madre Cecília.

Auto-estima

       “Os adolescentes entram para entidade com baixa auto-estima porque são pobres e conformados com a situação. No começo, ele não sabem bem como explorar seu potencial, suas habilidades. Mas isso o que eles vão desenvolver durante o curso”, afirma o professor da Soapro, Rodrigo Miragaia.

Modernização

       Quando foi fundada, a Soapro oferecia apenas treinamento para o mercado de trabalho. A entidade passou por um processo de modernização a partir de 1998 quando ampliou os serviços oferecidos. “Os adolescentes eram apenas encaminhados para o mercado de trabalho. Não era um treinamento tão específico,” conta Terezinha.
       “A Soapro superou vários problemas. Nos primeiros anos de sua existência, a entidade era mantida somente com recursos da prefeitura, que acabou cortando a verba nos anos seguintes”, relata a coordenadora. Nesse período, a entidade mantinha adolescentes que trabalhavam na limpeza das ruas. Cerca de 200 meninos participavam do projeto. Mas eles foram substituídos por garis contratados pela prefeitura.
       “A fundadora da Soapro, Terezinha Garcia Santos Carvalho, driblou o problema, oferecendo treinamento para o mercado de trabalho”, conta Terezinha. Em 1996, a entidade chegou a ser interditada por não cumprir as exigências do Estatuto da Criança e do Adolescente, que obriga as empresas a assinarem carteira de trabalho dos aprendizes.
       É consenso entre várias personalidades ouvidas pela nossa reportagem o papel desempenhado por Terezinha Miragaia, coordenadora da entidade. Modestamente, ela não aceita. Mas, desde 1998, quando ela assume a entidade que passa a oferecer cursos profissionalizantes, a situação muda completamente. Os três cursos iniciais foram para 17 oferecidos atualmente. “Nos últimos anos houve um grande crescimento no número de atendimentos e isso se deve à nova diretoria, que acredita nos profissionais da Soapro”, admite Terezinha.

Parcerias estratégicas

       O grande desafio para a Soapro é conquistar novos parceiros. “Estamos tentando nos manter com o recurso que temos, mas, com o tempo, teremos problemas. Precisamos de empresas para manter a entidade, fazemos ginástica para fechar as contas aqui”, afirma a sempre confiante e esperançosa coordenadora da entidade.
       Uma das empresas que contribuem com a instituição é a Constroem, que mantém um aprendiz da Soapro em seu quadro de funcionários. “O trabalho feito pela entidade junto aos adolescentes é muito importante, porque oferece treinamento essencial para que eles ingressem ao mercado de trabalho”, disse Walter Garcia Roman, diretor da empresa.
       Outro parceiro da entidade é o supermercado Shibata, que contratou seis jovens atuar para seu quadro de funcionários. Eles começaram como aprendizes e, ao completar 18 anos, foram contratados pelo supermercado. “Para nós, é boa a iniciativa da instituição porque oferece qualificação necessária para os jovens, que podem ser agregados ao supermercado”, conta Edson Shibata, diretor da empresa.  

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Alunas da Madre Cecilia encenando bailado



Momento em que o coral se apresentava

Presidente Jose Garcia e Andre Saiki no momento em que decerravam placa pelos 30 anos da SOAPRO

Promotor Ozorio Nunes no momento em que era homenageado

Walter Garcia Roman, no centro, aplaude os jovens artistas

Jose Garcia Roman presidente da SOAPRO sendo entrevistado pela aluna reporter

Carlos Dourado socio proprietario da Araya e colaborador da SOAPRO no momento em que era ebtrevistado ao vivo por uma aluna reporter