Quinta-feira
foi dia de festa. A Soapro - Sociedade de Amparo e Promoção
– fez 30 anos de trabalho junto a adolescentes carentes.
A beleza da festa foi a simplicidade e singeleza dos alunos que
a organizaram e desempenharam todas as funções:
desde a produção – apresentação,
iluminação, som, bastidores e organização
até os números musicais, as apresentações
de teatro, dança e coral.
Os professores limitaram-se
a orienta-los e dirigi-los. Com certeza influenciaram, ainda bem,
na feliz escolha de textos de Luis Fernando Veríssimo para
serem encenados pelos alunos. A platéia formada por colaboradores,
amigos, familiares e algumas raras autoridades não economizaram
aplausos. Nem tampouco o reconhecimento explícito de que
Terezinha Miragaia reergueu a Soapro desde que assumiu sua coordenação
em 1998.
Outra figura de destaque
na trajetória de recuperação dessa entidade
sem fins lucrativos é o promotor Ozório Nunes, representante
do Ministério Público que apóia e supervisiona
o esforço pelo reerguimento da Soapro. Ozório recebeu
uma justa homenagem. “O promotor foi o grande incentivador
da Soapro, deu respaldo na área jurídica, acreditou
no nosso trabalho. Ele é muito atuante com adolescentes,
acreditando que o trabalho árduo pode transformar o jovem
num verdadeiro cidadão”, disse Terezinha.
Soapro,
exemplo de amor e despreendimento
Fundada há 30
anos, a entidade beneficente Soapro (Sociedade de Amparo e Promoção)
tem como objetivo tirar a adolescentes carentes das ruas atraindo-os
para cursos de qualificação profissional em horário
não coincidente ao escolar. Quase 1.300 adolescentes passam
pela instituição semanalmente. Cerca de outros 3.000
estão na lista de espera.
A sociedade mantém
17 cursos como treinamento para o mercado de trabalho, artesanato,
eletricidade residencial, montagem de bicicletas, rádio,
técnicas bancárias, contabilidade, garçom,
departamento pessoal, gestão de pequenos negócios,
inglês, telemarketing, artes cênicas, técnica
vocal, informática e datilografia.
A Soapro não
tem ajuda do governo. Atualmente é mantida por 78 empresas
que empregam os adolescentes. Elas pagam a taxa administrativa
de R$ 38,00 por aluno mantido na instituição, o
que permite que outros adolescentes ainda não integrados
no mercado de trabalho possam fazer os cursos.
Para participar do projeto,
os adolescentes precisam ter uma renda de no máximo R$
120,00 “per capita”. Eles próprios escolhem
os cursos que desejam realizar. Os módulos duram, em média,
seis meses. Quando completam 16 anos, são encaminhados
para o curso de treinamento profissional, que prepara o aluno
para o mercado de trabalho.
“O objetivo principal
da Soapro é tirar o adolescente da ociosidade no período
em que ele não está na escola. A classe média
mantém seus filhos em cursos de inglês, informática
e natação, mas os filhos das famílias carentes
vão para onde? Eles não têm recursos, não
tem para onde ir”, disse a coordenadora de projetos sociais
da Soapro, Terezinha Miragaia.
“Queremos ver
esses adolescentes aprendendo algo produtivo. Quando chegam [na
Soapro], saltam aos olhos as manchas de desnutrição.
Mas aqui recebem alimentação doada pela prefeitura.
Dá para ver como eles melhoram. As manchas desaparecem
e ficam com outra aparência”, disse Terezinha.
Aprendiz
O programa mantido pela
Soapro com as empresas prevê a contratação
do aprendiz, que irá trabalhar por 30 semanais por um salário
de R$ 380,00. Ele recebe seguro, exame médico, férias,
13º, FGTS e PIS. Para trabalhar 20 horas, o salário
é de R$ 190,00 e de R$ 227,00 para 24 horas.
Além dos cursos,
os adolescentes ainda recebem atendimento médico e psicológico.
O serviço é oferecido a partir de uma parceria com
o CAISA (Centro de Atendimento Integral à Saúde
do Adolescente), mantido pela prefeitura. O atendimento é
feito no Hospital Universitário de Taubaté.
A instituição
ainda se preocupa em oferecer recreação, esporte
e lazer como natação, futebol e gincanas. Há
também o Grupo Psicossocial que realiza atendimento psicológico
a pais dos adolescentes e orientação profissional.
Em 2005, a entidade
passou a receber deficientes mentais leves, que são encaminhados
para os cursos de manicure, cabeleireiro e artesanato. Ao todo,
são 22 alunos participam dessas atividades, graças
a uma parceria feita com a escola municipal Madre Cecília.
Auto-estima
“Os
adolescentes entram para entidade com baixa auto-estima porque
são pobres e conformados com a situação.
No começo, ele não sabem bem como explorar seu potencial,
suas habilidades. Mas isso o que eles vão desenvolver durante
o curso”, afirma o professor da Soapro, Rodrigo Miragaia.
Modernização
Quando foi fundada,
a Soapro oferecia apenas treinamento para o mercado de trabalho.
A entidade passou por um processo de modernização
a partir de 1998 quando ampliou os serviços oferecidos.
“Os adolescentes eram apenas encaminhados para o mercado
de trabalho. Não era um treinamento tão específico,”
conta Terezinha.
“A Soapro superou
vários problemas. Nos primeiros anos de sua existência,
a entidade era mantida somente com recursos da prefeitura, que
acabou cortando a verba nos anos seguintes”, relata a coordenadora.
Nesse período, a entidade mantinha adolescentes que trabalhavam
na limpeza das ruas. Cerca de 200 meninos participavam do projeto.
Mas eles foram substituídos por garis contratados pela
prefeitura.
“A fundadora da
Soapro, Terezinha Garcia Santos Carvalho, driblou o problema,
oferecendo treinamento para o mercado de trabalho”, conta
Terezinha. Em 1996, a entidade chegou a ser interditada por não
cumprir as exigências do Estatuto da Criança e do
Adolescente, que obriga as empresas a assinarem carteira de trabalho
dos aprendizes.
É consenso entre
várias personalidades ouvidas pela nossa reportagem o papel
desempenhado por Terezinha Miragaia, coordenadora da entidade.
Modestamente, ela não aceita. Mas, desde 1998, quando ela
assume a entidade que passa a oferecer cursos profissionalizantes,
a situação muda completamente. Os três cursos
iniciais foram para 17 oferecidos atualmente. “Nos últimos
anos houve um grande crescimento no número de atendimentos
e isso se deve à nova diretoria, que acredita nos profissionais
da Soapro”, admite Terezinha.
Parcerias estratégicas
O grande desafio para
a Soapro é conquistar novos parceiros. “Estamos tentando
nos manter com o recurso que temos, mas, com o tempo, teremos
problemas. Precisamos de empresas para manter a entidade, fazemos
ginástica para fechar as contas aqui”, afirma a sempre
confiante e esperançosa coordenadora da entidade.
Uma das empresas que
contribuem com a instituição é a Constroem,
que mantém um aprendiz da Soapro em seu quadro de funcionários.
“O trabalho feito pela entidade junto aos adolescentes é
muito importante, porque oferece treinamento essencial para que
eles ingressem ao mercado de trabalho”, disse Walter Garcia
Roman, diretor da empresa.
Outro parceiro da entidade
é o supermercado Shibata, que contratou seis jovens atuar
para seu quadro de funcionários. Eles começaram
como aprendizes e, ao completar 18 anos, foram contratados pelo
supermercado. “Para nós, é boa a iniciativa
da instituição porque oferece qualificação
necessária para os jovens, que podem ser agregados ao supermercado”,
conta Edson Shibata, diretor da empresa. 
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