Quando os extremos se tocam

Por Paulo de Tarso Venceslau

A aliança do Partido dos Trabalhadores com seu ex-arquiinimigo Paulo Maluf (PP) é o sinal mais evidente de que a política brasileira continua sendo o velho balaio de gato. E a recepção oferecida ao deputado Cândido Vacarezza (PT), pelo prefeito Roberto Peixoto e todos seus assessores de primeiro escalão para o malufista mais explícito do petismo, confirma que são todos farinhas do mesmo saco.

      Cândido Vacarezza é médico. Mas sempre gostou de política. Não importa o rumo, desde que leve água pro seu moinho. Ou seja, sua barriga sempre foi mais importante do que qualquer outro compromisso. No começo de 1997, por exemplo, ele era Secretário-Geral do PT em 1997 quando foi flagrado como funcionário fantasma da Câmara Municipal de São Paulo. Era o fantasma petista mais vivo da folha de pagamento do PPB de Paulo Maluf.
      Foi o primeiro sintoma da deterioração partidária provocada pela burocracia petista que há muito tempo abandonou qualquer compromisso com as prometidas mudanças que pregava em seus programas partidários. Naquela época, Vacarezza chegou a ficar lotado no gabinete do malufista Brasil Vitta que, segundo a revista Veja de 8 de janeiro daquele, alfinetou: "Qual é o problema de a gente ajudar os colegas?". Para Vitta, Vacarezza era(é) colega. Para Vacarezza, Vitta era(é) um companheiro.
      E pra não deixar dúvidas, a Folha de São Paulo de 9 de janeiro daquele ano publicou: “O presidente do PT, José Dirceu, sabia, havia pelo menos duas semanas, que o secretário-geral do partido, Cândido Vaccarezza, era funcionário fantasma na Câmara Municipal de São Paulo. Ele foi comunicado por seis vereadores e não tomou providência”.
      Raul Pont, dirigente petista e ex-prefeito de Porto Alegre, escreveu na edição 34 de Teoria & Debate, revista teórica do PT, que em 1997, “ocorreram várias, manifestações de confusão política que, infelizmente, contribuem para diluir as diferenças entre o PT e os partidos burgueses. O então secretário-geral do PT, Cândido Vacarezza, foi comissionado no gabinete da Presidência da Câmara Municipal de São Paulo, do PPB”, de Paulo Maluf.
      Lula venceu as eleições em 2002 e 2006. A burocracia petista gostou tanto do poder que não quer mais largar o osso. Vacarezza é um dos que aprimoraram os métodos e os caminhos para promover as alianças necessárias para garantir seu pedaço. E saiu do armário.
Eleito deputado federal, em 2006, Cândido Vacarezza, o Vaca, como é chamado pelos petistas, transformou-se no principal articulador do PT no plenário. Voluntarioso, ganhou os holofotes ao se deixar fotografar jantando com Paulo Maluf (PP-SP) no Piantella, restaurante mais badalado de Brasília, bebericando vinho francês Château Plince. Risonho e festivo, ele articulava a retirada de três assinaturas do requerimento de criação da CPI do Apagão Aéreo. Maluf, que dá nó até em pingo d’água, porém, abriu o jogo para a imprensa quando afirmou que tratavam da eleição municipal de 2008. Traduzindo: Marta Suplicy na cabeça e uma pessoa de Maluf como vice. Não sei qual versão é pior.





      Esse movimento tem incomodado os aliados do PT. Nádia Campeão, ex-secretária de Esporte de Marta Suplicy e presidente estadual do PC do B, comentou no site Vermelho que o jantar de Maluf com Vacarezza “é uma demonstração clara da guinada na trajetória do PT, da esquerda para o centro".
      A recepção oferecida pelo Palácio Bom Conselho ao petista malufista mais explícito é mais uma prova de que Lula, Maluf e Peixoto se merecem. O autismo político de Roberto Peixoto vai nadar de braçada nessa ausência absoluta de bússola política e ou ideológica. E para apimentar ainda mais essa moqueca, o vereador Jéferson Campos, que resiste heroicamente a qualquer possibilidade de se aliar a Peixoto e menos ainda de participar de seu governo, é do mesmo grupo de Vacarezza. Dá pra entender?