Sete Maravilhas de Minha
Saudade Taubateana

Tentando eleger as maravilhas que se entranharam na sua memória taubateana, mestre JC Sebe revira o fundo do baú e se pergunta se valeu a pena mudar tanto. Nosso leitor poderá opinar diante de uma questão que envolve muito mais emoção do que a simples memória


      Gosto de acordar muito cedo. Sei lá quais razões me enchem de energia e há situações em que me ponho a tomar café, sempre muito forte, na varanda de meu apartamento no Rio. E vejo o sol nascer sobre a Guanabara magnífica. É mais do que emocionante. Garanto.
      Na verdade, levo tão a sério este ritual que, em me despertando muito mais cedo, ainda quando o escuro não se sente ameaçado pela luz que irá violenta-lo, vou direto ao computador ver as mensagens. Aconteceu hoje, e deparei-me com uma seqüência fantástica de fotos do Rio Antigo, mandadas pelo meu filho Felipe. Foi o que bastou... e fiquei pensando nos lugares de minha memória afetiva sobre minha enternecida Taubaté. Novas emoções! No embalo das “Sete Maravilhas do Mundo Moderno”, me permiti supor outras “Sete Maravilhas”, na pacatês do que foi um dia a hoje agitadinha Terra de Lobato (como diria o Paulo de Tarso). E se me acenderam lembranças encantadoras.
      É bem verdade que os sofisticados estudos de memória explicam a idealização mágica das transformações e, assim, não é errado pensarmos as chamadas “utopias de passado”. Então, enfeitamos tudo de um jeito que é melhor que fique guardado nas reminiscências recônditas de nós mesmos.
      De toda forma, elegi as “Sete Maravilhas de Minha Saudade Taubateana”. Não sei dizer se a ordem seria esta, mas recordei-me em primeira instância do velho Bosque com suas frondosas árvores e com o bicho preguiça que de quando em vez caia e deixava toda a urbe preocupada; a antiga Rua das Palmeiras me veio em seguida e não há como negar homenagem à imponência daqueles (ex)magníficos exemplares; no

 


antigo Jardim da Estação, havia uma ilhota a que se chegava por uma romântica pontezinha – e num banco solitário, eu ia com alguns livros e me escondia debaixo de um Chorão para ler poemas de Vicente de Carvalho, Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles (será que ainda existe?); quando em 1959 começou a construção da imagem do Cristo, no Alto de São João, subia o morro não para admirar o monumento, mas para gozar da vista serena daquele então; ir a Tremembé ouvir as cigarras em tardes de novembro me era um exagero de felicidade e de igual monta era descer até a fonte e tomar a água cristalina que jorrava em abundância; o canto ensurdecedor dos pardais da Praça da Catedral me fazia sentar nos bancos e esperar a noite; sei lá porque, mas sempre me impressionei muito com a região do Largo da Estrela, onde os dilatados tijolos da CTI mesclavam no arremedo da planta da Place d’Étoile, de Paris, a pujança da indústria nacional nascente e a agitação dos trabalhadores que faziam o Morim Ave Maria; Quiririm me era arrebatadora também e, com seus italianos, fascinava a composição de Taubaté bem completa em sua singularidade meio cabocla, meio metida a besta, sempre bem brasileira.
      Sei que é reducionista esta minha relação. Eu mesmo reconheço que há outros detalhes mais que poderiam preencher esta lista. Gostaria de lembrar do Bar do Alemão, da Leiteria Cristal, das Sessões do Mercurinho, do Clube do Guri, da Rádio Difusora Taubaté, das delícias fabricadas pela Embaré e até da imponência da Fábrica Corozita. Não seria justo deixar longe os palacetes que acompanhavam o Colégio Bom Conselho e nem a Casa Cabral. O velho Mercado Municipal, as quebradas da Rua São José com sua igrejinha resistente e, sobretudo, a Bica do Bugre. Ah! Taubaté, porque mudou tanto?! Será que valeu a pena?! De toda forma, não há como estancar o destino, e bendita sejam as lembranças que nos fazem melhores porque envelhecemos na contramão de sua beleza.
      Pois, é... de tão perdido na redação deste texto que me esqueci de saudar o sol que a esta altura já é senhor do dia.