Que havia antes do big bang?

Grande parte da comunidade científica tem como dado assegurado que o Universo resultou de uma expansão da singularidade inicial, o “Big Bang”, ocorrida há cerca de 13,7 a 14 bilhões de anos. Antes disso o que havia?

      Uma maneira de responder tal questão é argumentar que o “Big Bang” costruiu o tempo e o espaço. Então, não faz sentido perguntar o que havia antes do tempo, pois que, para que a noção de tempo exista, é preciso já que o tempo exista. É como se perguntasse: o que há para Norte do pólo Norte?
      Para os físicos, se passarmos ao contrário o filme da história do Universo, veremos todas as galáxias aproximarem-se cada vez mais. A última imagem mostra-nos um ponto que contém toda a massa do Universo: um ponto de densidade infinita. Os físicos chamam a isto uma singularidade. Assim que se chega a uma singularidade, de fato, todas as teorias da física se contorcem; não sabemos mais o que se passa.
      Grande parte da comunidade científica tem como dado assegurado que o Universo resultou de uma incomensurável expansão da sigularidade inicial - big bang - ocorrida há cerca de 13,7-14 bilhões de anos. Há um vestígio fóssil desse evento, verificado pela ciência. Em 1965, dois técnicos norte-americanos da Bell Telephone de New Jersey, Arno Penzias e Robert Wilson, construíram um aparelho ultra-sensível de microondas. Ao testarem o aparelho, constataram que nele havia um ruído que não podiam limpar. Ele vinha uniformemente de todas as partes do universo, uma onda baixíssima de três graus Kelvin. Qual a origem deste ruído cósmico de fundo? Eles e outros astrofísicos constataram que era o último eco da grande explosão e o derradeiro resto da irradiação inicial. Tomando como referência as galáxias mais distantes que estão fugindo de nós a grande velocidade e cuja radiação vermelha está agora chegando a nós, concluíram que tal fato teria ocorrido cerca de 13,7 bilhões de anos atrás. Por isso, Penzias e Wilson ganharam o prêmio Nobel em física em 1978.
      A teoria física para descrever o Universo no seu conjunto é a teoria da relatividade geral de Albert Einstein. Nessa teoria, o tempo constitui uma quarta dimensão desempenhando um papel parecido ao das três dimensões do espaço: altura, largura, profundidade. Imagine que o espaço-tempo seja a superfície de um balão a inchar. É preciso imaginar que uma das dimensões do balão (a altura, por exemplo) representa o tempo. Para baixo é o passado, para o alto é o futuro. A singularidade inicial é o pequeno nó, na base do balão, que o fecha.

      Uma outra maneira de responder a questão inicial é pensar como alguns cosmólogos que nos sugerem que antes havia o vácuo quântico, o estado de energia de fundo do universo, origem de tudo o que existe. Sua condensação seria aquele pontozinho que primeiro se inflacionou como um balão e depois expandiu dando origem talvez a outros eventuais mundos paralelos. Mas o vácuo quântico, última realidade atingida pela microfísica, é ainda uma realidade discernível. É o antes. Mas, antes deste antes discernível o que havia?
      Num programa de rádio perguntaram a Penzias o que havia antes do Big Bang e do vácuo quântico. Ele respondeu: “não sabemos; mas, sensatatamente, podemos dizer que não havia nada”. A seguir, uma radiouvinte, irritada, telefonou acusando Penzias de ateu. Ele sabiamente retrucou: “Madame, creio que a senhora não se deu conta das implicações do que acabo de dizer. Antes do Big Bang não havia nada daquilo que hoje existe. Caso houvesse caberia a pergunta: de onde veio?” Em seguida, comenta que se havia o nada e de repente começaram a aparecer coisas é sinal de que Alguém as tirou do nada. E conclui dizendo que sua descoberta poderá levar a uma superação da histórica inimizade entre ciência e religião.
      Agora podemos perguntar: no início do big-bang, como era? Os físicos teóricos estão seguros de nada saber do que se passou antes de 10-43s. Porquê? Porque antes desse momento, o Universo estava de tal forma concentrado que torna ineficaz a relatividade geral.
      Existem variações dessa teoria. Por exemplo. O físico americano de origem russa Andreï Linde imagina que universos-bolhas pululam sem cessar a partir do nada. O nosso Universo não seria mais que uma bolha minúscula e efêmera numa espuma eterna e infinita… Idéia vertiginosa mas inverificável por enquanto. Em princípio, observar a existência desses outros universos separados do nosso é impossível. Se existem, são muito diferentes do nosso. E a física que os descreveria não teria, possivelmente, nada a ver com a nossa.