Carta aberta ao futuro
prefeito de Taubaté

Diante do abandono em que se encontram o Sítio do Pica-pau-amarelo, as bibliotecas, os arquivos e museus de Taubaté, mestre JC Sebe redige uma carta que é um verdeiro apelo para que o futuro prefeito, seja lá quem for, inicie a recuperação desse inestimável acervo cultural da terra de Lobato

      É bom que me apresse em redigir esta carta. Não quero adentrar em tramas político-partidárias ou pessoais e por isto enfrento o risco da extemporaneidade. Penso na cidade, no significado que nossa Taubaté pode e deve ter em termos de cultura. E inscrevo minha manifestação nos limites da educação e das dimensões afeitas ao conhecimento e suas expressões públicas.
      Não abordarei instituições universitárias, até por respeito aos projetos em curso. Meu âmbito, contudo, não pode deixar de lado o que é matéria exclusiva da Prefeitura Municipal. Assim, inicio pela Educação infantil e de saída vai minha recomendação para que os órgãos responsáveis adotem modelos mais eficientes e estejam atentos a uma tendência em curso em alguns municípios com enorme sucesso: falo da educação em tempo integral. O que surpreende nessas experiências é que o resultado não é apenas expresso na melhoria do ensino, mas sobretudo na área social onde as crianças são retiradas da rua e se iniciam de maneira eficiente em esportes, informática, dança. É lógico que isto demanda recursos e re-alocações de pessoal, mas qualquer esforço nesta direção é satisfatório e o pior entrave, certamente, é a falta de um plano escolar mais agressivo e a carência de vontade política.
      Ainda no âmbito do atendimento às crianças – e por extensão – em nível do turismo, tenho que falar de temas ligados à exploração da temática lobateana. Que miséria o Sítio do Pica-pau-amarelo. Que pobreza, em todos os sentidos. Diria sem medo de errar que é vergonhoso o que se apresenta. A indigência das instalações é compatível com a falta de criatividade, onde funcionários – sempre com boa vontade – são obrigados a motivar os visitantes com seus recursos pessoais sem que haja uma política de abertura para a consideração da memória de Lobato além do arremedo modesto do que a Rede Globo propõe.
      Com todo respeito, fico vexado a cada vez que vejo o teatrinho dos munícipes que enfrentam a falta de orientação, de capacitação profissional e “interpretam” os personagens do Sítio. Por extensão, não posso deixar de abordar a indigência da Semana Monteiro Lobato. Quando penso na dimensão nacional que poderia ser atribuída a data, me vem a constatação de que Taubaté não sabe o que tem de potencial.

 


      Minha maior preocupação, porém, é relativa às bibliotecas, arquivos e museus. Lembro-me em criança de quando ia à Biblioteca Municipal – então localizada à Rua das Palmeiras – e não ter onde me sentar, tal era a freqüência. Ao longo dos anos, porém, os livros foram rareando, coleções desatualizadas, e as instalações!... Como pode haver progresso na cultura formal sem uma biblioteca digna? E não há em Taubaté um centro onde os munícipes possam pesquisar ou mesmo ler. Seria fácil mostrar exemplos, mas prefiro dizer que esta é uma área onde poderíamos ver sanados defeitos.
      E os arquivos!? Logo Taubaté que tem absolutamente tudo para reunir acervos históricos, inclusive com pessoal competente para tanto, carece de uma política de investigação sobre questões locais de impacto nacional. Por que não se oferece mais oportunidades para os arquivistas que temos? E não é possível que a falta de criatividade seja um mal tão crônico. Quando imagino que os arquivos municipais poderiam publicar séries documentais importantes, de interesse para todo o Brasil, e mal têm aparelhos para um funcionamento mínimo, chego a perder as esperanças. E os nossos museus? Será que alguém se lembra que um dia Taubaté teve um dos melhores museus históricos do interior de São Paulo? Nem quero perguntar onde foram parar as coleções – isto demandaria uma CPI – mas pergunto se é justo relegar a tal abandono o Museu de Arte Sacra, [da Capela] do Pilar. Peças tão valiosas, algumas únicas, são misturadas a outras de gesso, de barro. E as imprecisões informativas: uma lástima. Igreja e Prefeitura podiam se unir.
      Reconheço o esforço dos munícipes, em particular de alguns empresários que enfeitam suas paredes com fotos e até programam folders que deveriam ser patrocinados pela Prefeitura, mas isto não basta. Futuro senhor Prefeito Municipal de Taubaté. É necessário juízo e muito carinho para que seja corrigida a rota declinante do atendimento cultural de nossa cidade. E sabe mais, não é só que a cidade mereça, não. O Brasil precisa de uma Taubaté mais preparada.