Greve na Polícia Civil, de novo

Democracia pressupõe a existência de uma sociedade organizada das mais diferentes formas e em torno das mais diferentes demandas. A greve da Polícia Civil paulista, que saiu às ruas para reivindicar entre coisas a reposição salarial que não acontece há mais 14 anos, é mais uma prova de que a democracia está cada vez consolidada no Brasil

Por Marcos Limão

        15 de agosto. Muito sol de um dia de inverno com cara de primavera que tinha tudo para ser igual àqueles que expulsaram a frente fria, gelada, de meados de julho. Ledo engano. Nessa bela manhã, polícias civis do Estado de São Paulo novamente cruzaram os braços para uma paralisação de 48 horas, que pode se estender por tempo indeterminado. Na terra de Lobato, por volta das 9 horas, policiais civis da Região se reuniram em frente a Delegacia Seccional e seguiram em passeata até o 1º Distrito Policial de Taubaté.
        A segunda paralisação fora decidida um mês após uma Assembléia Geral Extraordinária Permanente na sede da AORPM ( Associação dos Oficiais da Reserva da Polícia Militar). Na pauta de reivindicações consta o reajuste salarial de 48%. Um dos líderes da greve informa: “Não é um número aleatório. Não é um índice que veio ao capricho do nosso pensamento, mas sim baseado no IPCA dos últimos 5 anos, que é o índice menor que existe. Todavia, o governo do estado está nos contemplando com um reajuste menor.” Além do reajusta salarial, os grevista querem também a incorporação ao salário das gratificações, como ALE e AOL; a recepção da Lei Complementar Federal nº 51/85; e o pagamento da licença-prêmio, a contar da data da edição da Lei 986/06.

Comando da greve

        Barril de pólvora. Essa é a melhor maneira de descrever o momento grevista vivido pela Polícia Civil do Estado de São Paulo. A insatisfação é grande e a mobilização, maior ainda. Prova disso, é a histórica reunião do Comando de Greve realizada (dia 13) em Taubaté, que começou com a leitura de um dos pensamentos do revolucionário pacifista Mahatma Gandhi. "A desobediência civil é um direito intrínseco do cidadão. A desobediência civil nunca é seguida pela anarquia. Reprimir a desobediência civil é tentar encarcerar a consciência.”
        São 19 horas e 40 minutos do dia 13 de agosto de 2007. Todos estão na sede do Sindicato dos Bancários de Taubaté. Sete policiais compõem a mesa da maior mobilização das últimas décadas da polícia: José Martins Leal, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo; João Batista Rebouças Neto, presidente do Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo; Jarin Lopes Roseira, membro do Sindicato da Associação dos Professores da Academia de Polícia; Cláudio Pereira da Silva, presidente do Sindicato dos Carcereiros; Valter Honorato, presidente do Sindicato dos Escrivães de Polícia do Estado de São Paulo; André Rovegno, delegado de polícia; e Jeferson Fernando Cabral, presidente da Associação dos Servidores Públicos, Fundações e Autarquias.
        São homens determinados a levar adiante uma luta para recuperar seus salários que não são reajustados há mais de 14 anos. Ao lado deles, o Deputado Estadual Padre Afonso Lobato, da base aliada do governador José Serra. Esse fato provocou-lhe visíveis constrangimentos. Quando algum integrante da mesa manifestava-se contra o governo do estado, olhava para o Deputado como se falasse diretamente para o governador, como o fez um dos líderes quando declarou alto e bom som: “Chega governador José Serra. O senhor deixa se levar pela sua política econômica de tecnocratas insensíveis e frios que fazem cálculos a margem do sofrimento e do empobrecimento do funcionário público.”


"Na quinta, 16, à noite, o comando de greve informou que a paralização era total em todas as cidades do interior paulista."










Acima, manifestação na quinta-feira, 16.
Abaixo, o comando da greve reunido em Taubaté, com a presença do deputado Padre Afonso. Da esquerda para direita: Padre Afonso, José Leal, João Rebouças, Neto, Jarim Roseira, Cláudio Pereira da Silva, Valter Honorato, André Rovegno e Jeferson Fernando Cabral.