Ciclismo taubateano na berlinda
Prefeitura não cumpre acordo e quase põe a perder mais de 30 de anos de investimento em atletas vencedores que dão orgulho à cidade Lobato com suas medalhas e troféus conquistados em competições regionais, nacionais e até internacionais

Por Roberta Medeiros

        Em 2006, a Prefeitura não cumpriu um acordo com o Clube de Ciclismo de Taubaté, quando deixou de repassar de uma hora para outra uma ajuda de custo para a equipe campeã competir e para ajudar na organização do campeonato local. Era o início de uma crise que está prejudicando a modalidade esportiva que tem obtido excelentes resultados. O acordo feito em novembro de 2005 previa o repasse, em 2006, de R$ 40 mil para a equipe e mais R$ 20 mil para o Campeonato Taubateano de Ciclismo e mais condução.
        O mesmo projeto foi apresentado para as empresas privadas Feijão Tarumã, Unimed, Prolim, Sedisa e Pedal Bike Shop que cotizaram R$ 30 mil. Enquanto que com as empresas todo acordo é feito por escrito, o mesmo não acontece com a prefeitura onde tudo é apenas apalavrado. “A má fé é muito grande”, desabafa Fernando Monteiro, presidente do Clube de Ciclismo.
        Em 2006, enquanto os patrocinadores pagaram religiosamente em dia a PMT só pagou a primeira uma parcela de R$ 4 mil no dia 5 de abril, recursos que deveriam ter sido liberados em março. Devido aos atrasos nos pagamentos, o Clube negociou a liberação da verba com o prefeito Roberto Peixoto (PSDB) e o valor foi reduzido para R$ 45 mil. Em junho deste ano, a Diretoria de Esportes informou que o patrocínio seria suspenso e que o repasse só poderia ser feito a partir de um contrato de subvenção e convênio. Diante disso, os atletas comunicaram que não querem mais ajuda da municipalidade enquanto não forem pagos os subsídios atrasados.

        Estragos
        Sem patrocínio, os esportistas tiveram que usar recurso próprio para participar das provas que se sucederam. Muitos deixaram de competir devido à falta de verba. O número de atletas inscritos em campeonatos caiu de 26 para 9. “É a primeira vez que isso acontece. O ciclismo é a modalidade que trouxe mais resultados para Taubaté”, reclama o presidente do Clube de Ciclismo.
        Indignado, Fernando Monteiro alega “má fé [por parte] da prefeitura” e lança um manifesto de repúdio contra prefeitura. “A administração pública não está preocupada com o esporte, não cumpre com seus acordos. O valor combinado inicialmente era de R$ 60 mil, mas acabou sendo rebaixado para R$ 45 mil. A prefeitura ainda nos deve, mas eu não creio que iremos receber essa quantia. Como vamos fazer uma parceria com alguém que não cumpre com o que não é combinado?”, critica Fernando.
        Os recursos para essa equipe de ciclismo são residuais quando comparados o orçamento de R$ 1,5 milhão ano, da equipe de São José dos Campos, do quais cerca de R$ 650 mil são pagos pela prefeitura através do Fundo do Esporte Amador. “Todos atletas de visibilidade têm patrocínio das prefeituras. No esporte temos despesas fixas, com equipamento, hotel, alimentação, uniforme, transporte...”, disse.

      


  Estrelas
        Em atividade desde década de 70, a equipe comandada por Fernando Monteiro tem destaques como William Ferreira Leite, de 13 anos, que corre na categoria infanto-juvenil e está invicto no Campeonato Paulista de Resistência e na Copa Sundown de Ciclismo. Outro esportista com bons resultados é Fernando Valério Camargo Ortiz, de 16 anos, campeão da 64ª Promessa Olímpica, em julho, na USP (Universidade de São Paulo).
        O grupo ainda conta com Flávio Wagner Cipriano, de 17anos, que conquistou a medalha do bronze do Campeonato Interestadual de Pista. Ele foi a grande revelação da competição realizada em junho, em Caieiras. No ano passado, ficou como a medalha de bronze no Campeonato Paulista de Resistência.
        Ricardo Venturelli, máster A1, e João Paulo Ferreira de Assis, sub-30, ganharam ouro no Campeonato Brasileiro de Estrada, disputado em Joinvile, SC. Além disso, Venturelli foi bronze na categoria Máster A 1, disputado em Mar del Plata, na Argentina. Já Flávio Vagner, juvenil, e João Vitor, infanto-juvenil, foram bronze no Campeonato Brasileiro de Estrada, disputado em Peruíbe, SP.

        Justificativa
        O diretor de Esportes, Geraldo Faria, disse que repasse foi suspenso em junho por exigência do Conselho de Administração dos Municípios – um órgão consultivo das prefeituras – que orientou a prefeitura a subsidiar apenas entidades a partir de um contrato de subvenção. Para isso, o Clube deveria regularizar sua documentação. “Tivemos que paralisar o pagamento até que houvesse uma adequação da entidade às exigências do Conselho. Pedi ao clube que diminuísse os gastos, que reduzisse o número de participações em campeonatos, mas essa proposta não foi aceita”, disse.
Segundo Faria, o ciclismo consumia a maior parte dos recursos das 28 modalidades esportivas mantidas pela prefeitura. “Um esporte de alto rendimento como é ciclismo deveria buscar parceiros no setor privado. Temos outras modalidades, não podemos ajudar o ciclismo para deixar as outras modalidades descobertas”, justifica.
        “O que nós oferecemos não é exatamente um patrocínio, mas uma ajuda de custo, não existe um contrato e, portanto, não temos a obrigação de repassar a quantia. Quando surgiram as novas exigências do Conselho, tentei negociar com o presidente do Clube, mas ele era muito intransigente, não quis mais dialogar”, disse Faria.
        Faria disse que sua gestão dá prioridade aos projetos em esporte social, como as escolinhas de iniciação, o projeto Esporte Juventude, Ametra e escolinha de futebol de campo. A prefeitura ainda mantém o projeto Quadra-Viva, que atende 2,7 mil jovens entre 7 e 14 anos. A Diretoria de Esporte tem um orçamento anual de R$ 3,2 milhões. A maior parte dos recursos são consumidos na manutenção de campos e quadras (a cidade possui 320). Cerca de R$ 1,2 milhão é gasto com folha de pagamento.