Sobre pai, desencontro,
silêncio e saudade...

A leitura de um livro consegue desencavar nas profundezas da alma de mestre JC Sebe recordações singelas e delicadas de seu pai

      Com a cabeça cheia de problemas, por noites de insônia, devoro livros. Acabo de ler um empolgante “Desafios da terapia”. Devo dizer que não sei bem da razão pela qual textos sobre terapia me atraem tanto, mas na realidade acabo sempre encontrando algum que me interessa e me perco nas entranhas de situações filtradas por profissionais de consultórios.
Acho que cultivei esta mania desde as leituras de Freud, mas principalmente de Peter Gay. No caso, o autor tinha lastro atrativo, pois duas de suas publicações anteriores foram best sellers no mundo todo. Tanto “Quando Nietzche chorou” como “A cura de Schopenhauer” fazem de Irvin Yalom um dos mais celebrados ficcionistas da atualidade. Talvez seja isto: um psiquiatra criando tipos que se aproximam da realidade. E ele amarra bem histórias de fins inesperados e sempre problemáticos.
      O “Desafios da terapia” me fascinou por uma razão especial. Uma das situações aborda o tema da paternidade e isto basta para me lançar páginas adentro. Como Yalom se distingue por tratar com delicadeza e profundidade questões de relacionamento, por certo o caso narrado me envolveria, mas desta vez foi de um jeito diferente. A tristeza da história se dava pela inviabilidade de soluções.
      A moça na ficção era uma paciente com problemas sérios na aceitação do pai. A longa trama de convivência entre pai e filha era sempre mesclada por confrontos, discussões tempestivas e o melhor que acontecia eram os intermináveis silêncios. Pouco se falava na casa. Um dia, porém, surgiu a possibilidade de uma viagem. Finalmente os dois sairiam juntos. Para a filha, esse parecia o momento ideal para que, por horas a fio em um automóvel, ambos se acertassem, tivessem momentos de troca de opiniões, de resoluções de pequenas dificuldades de viagem e quiçá de algum afeto.
      A viagem começou por uma estrada que cortava dois riachos, um correndo de cada lado. E foi por aí que os desencontros se reapresentaram exibindo a inviabilidade de diálogo. Enquanto a menina observava pelo seu lado, sob um céu lindo, um rio límpido, de águas transparentes e recortes encantadores, o pai à direção, reclamava da sujeira e degradação, do descaso e falta de cuidado de todos em face da natureza degradada. Metáfora da vida paterna, aos olhos da menina o rio “dele” era ele próprio. A comparação foi o que bastou e o silêncio – o mesmo silêncio de antes – foi a salvação daquela viagem melancólica repartida entre um rio feio e outro bonito. Frente às diferenças, o melhor era nada comentar e ficar cada qual recolhido em suas cavernas interiores. O longo trajeto parecia uma eternidade. Os anos passaram, o destino dividiu pai e filha.


 
      Morto ele, um dia, afinal, a moça teve que refazer a mesma viagem, agora com uma amiga. Dessa vez, ela foi guiando o carro. Iniciado o trajeto, a constatação dolorosa: o riacho visto pelo lado do condutor era mesmo sujo e poluído, escuro de aparência deplorável. Foi o que bastou. Lances daquele velho périplo voltaram e junto a visão amarga do pai. A sensação de desencontro se fez verdade e abriu-se a inviabilidade de acertar as diferenças. O pai ausente promovia outro silêncio, mais surdo ainda. O vazio outra vez evocado, agora era uma constatação da realidade daquela situação. Tristezas profundas. Vontade de ter de volta, por momentos o pai e dizer que no lugar dele, na direção, ela via o mundo como ele descrevera. Mas era tarde demais.
      Esta história bateu no chão de minha alma. Certa feita, tinha algo fundamental a comentar com meu pai. Sua morte anunciada – foi um longo processo de paralisia renal – colocou-me um dilema. Recebera um convite e tinha que decidir se iria morar fora do Brasil com minha família ou não. Era difícil comentar o assunto, mas ao contrário da história de Yalom, foi ele que sentou do meu lado e viu o fantástico rio que corria à minha direita. Fui. Ele morreu quando eu estava fora do Brasil, mas sua voz continuou em mim: vá meu filho, vá... Se pudesse, hoje eu diria: obrigado meu pai por ter visto o meu rio.