Nos primeiros três
meses desse ano, a Prefeitura, através do departamento da
Saúde, gastou pelo menos R$ 1.442.081,70 na compra de filmes
e serviços de radiologia. A quantia foi paga à empresa
filantrópica Pró Visão, de São José
dos Campos, ligada à maçonaria local, que mantém
convênio com a prefeitura para prestar serviço radiodiagnóstico.
Somente em março foram compradas pelo menos 242 mil unidade
de chapas de Raio X, quantidade suficiente para realizar quase uma
radiografia em cada um dos habitantes de Taubaté no período.
O serviço
pago à Pro Visão, por sua vez, é terceirizado.
Quem efetivamente presta o serviço e fornece material é
a Conection World Ltda, que tem como sócio proprietário
Pedro Luiz Alves de Souza, médico cirurgião geral,
que se apresenta como assessor da Pró Visão e diretor
da área de Radiodiagnóstico da entidade filantrópica.
A empresa atende várias cidades em diferentes estados da
federação sob a supervisão direta de Souza.
Em Taubaté, é ele quem faz a supervisão da
área de radiodiagnóstico da Prefeitura.
Origem
Por se tratar
de uma entidade filantrópica devidamente registrada, a
Pró Visão foi contratada sem licitação
pelo então prefeito Bernardo Ortiz, em 21 de novembro de
2001. Doutor Paulo Pereira, então diretor de Saúde,
informou nossa reportagem que naquele momento o serviço
contratado era menos oneroso para os cofres públicos, caso
fossem executado diretamente pela municipalidade. Pereira diz
a explicação é simples: todo o serviço
contratado era pago tendo como referência a tabela do SUS
– Sistema Único de Saúde – do governo
federal.
O contrato de
2001 tinha por objeto “a prestação de serviços
na área de serviços e afins, em Unidades Básicas
de Saúde, em Ambulatórios, em Pronto Socorros e
Hospitais, em parceria com o Município, de forma a aprimorar
o atendimento universalizado aos usuários do SUS do Município...
[e] assegurada a preferência a Entidades Filantrópicas
e sem fins lucrativos para participarem, de forma complementar,
do SUS”.
O contrato especificava que o valor estimado era de R$ 241.051,50
por mês a ser pago mediante apresentação de
um relatório dos serviços prestados no período.
O prazo do contrato era de 60 meses “podendo entretanto
ser desfeito a qualquer tempo, unilateralmente, por uma das partes...”
Peixoto renova
Cinco anos depois,
em 21 de novembro de 2006, o contrato foi renovado nas mesmas
bases de 2001. As poucas e pequenas mudanças referiam-se
a inclusão da Carreta Móvel e o montante estimado
de R$ 2.892.618,00, como limite orçamentário a cada
ano.
Uma rotina que tinha tudo para continuar no mesmo passo e ritmo
de anos anteriores, inclusive de dois anos dessa atual administração,
de repente muda. A mudança foi brusca e assustou funcionários
que trabalhavam em áreas administrativas que se viram ou
alijados do processo ou obrigados a assinar documentos que destoavam
dos procedimentos anteriores. Mas o que mais chamou a atenção
desses funcionários foi o aumento aparente de consumo que
esgotou rapidamente os recursos orçamentários destinados
para esse setor.
Aqui começam
as dúvidas e perguntas que precisam de respostas.
1) Como justificar
um aumento quase exponencial de gastos com esse convênio
nos primeiros três meses de 2007?
Documentos obtidos
por nossa reportagem apontam que em janeiro a Prefeitura pagou
à Pró Visão a quantia de R$ 379.294,55 correspondente,
entre outras coisas, a 153.400 chapas de Raio X e mais 3.500 metros
de filme para ultrassonografia.
Em fevereiro,
o valor pago foi de R$ 476.787,15, correspondente a 195.500 unidades
de chapas de Raio X e mais 5.300 metros de filme para ultrassonografia.
Em março, as notas fiscais no. 00752 e no. 00754 somam
R$ 586.001,00 por serviços e mais 212.800 chapas de Raio
X e 6.000 metros de filme para a ultrassonografia.
2) Como se explica
o consumo de quase uma chapa de Raio X por habitante a cada mês
e a quebra de 20 % a 30 %, conforme revela o médico da
Pró Visão?
3) Como a Prefeitura
vai continuar com esse serviço se em apenas três
meses foram gastos recursos que ultrapassam os limites contratuais?
4) Por que os
processos de pagamento desses valores à Pró Visão
não seguem todos os trâmites formais da Prefeitura?
5) Houve alguma
mudança nos procedimentos rotineiros que justifiquem os
aumentos observados?
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Outro
lado
Nossa reportagem
ouviu por várias vezes doutor Pedro Luiz Alves de Souza,
diretor do serviço de radiodiagnóstico da Pró-Visão,
e sócio-proprietário da Conection World Ltda, a
empresa privada com fins lucrativos contratada pela Pró
Visão para executar o serviço conveniado. Souza
conta que o consumo de filmes é grande porque são
usadas mais de uma película em cada exame. “Quando
se fala em quantidade de películas consumidas, não
quer dizer que esse número corresponda ao número
de exames realizados. A quantidade de material empregado depende
do tipo de exame, por isso existe uma variação de
consumo mês a mês”, diz o médico empresário.
“Um procedimento
demanda várias exposições. Em um mesmo exame,
podem ser usadas até quatro películas. Num caso
de fratura, por exemplo, podem ser feitas diversas radiografias:
lateral, oblíquo, direita e esquerda”, disse. “Apenas
quando o filme é grande é possível fazer
duas incidências no mesmo filme, mas não damos preferência
a esse tipo de material que é mais caro”, completa
Souza.
Dr. Pedro Henrique
da Silveira, diretor do departamento de Saúde, enviou por
escrito as perguntas formuladas por nossa reportagem, mas deixou
de informar, por exemplo:
1) Série histórica do número de pacientes
atendidos mês a mês nos últimos anos;
2) Série histórica dos pacientes que foram submetidos
a Raio X;
3) Série histórica do consumo de material consumido
pela Pró Visão e pago pela Prefeitura;
4) Série histórica dos recursos, devidamente discriminados,
pagos à Pró Visão;
5) O destino do material inutilizado;
6) A origem dos recursos destinados ao pagamento da Pró
Visão;
7) Cópias dos dois convênios celebrados com a Pró
Visão.
Os contratos,
por exemplo, nossa reportagem obteve em outros escaninhos da própria
Prefeitura. E na conversa mantida com Silveira, o diretor de Saúde
insinuou que teria ocorrido o desaparecimento de uma nota fiscal
de dentro de um dos processos. Nossa reportagem teve acesso a
várias notas fiscais e planilhas que foram exibidas à
exaustão para Silveira e Souza.
Contraponto
Nossa reportagem
ouviu outros médicos responsáveis por serviços
assemelhados que pedem para que suas identidades não sejam
reveladas. Com a palavra um dos responsáveis pelo serviço
em dos maiores hospitais públicos da região:
“Não
se admite uma perda de 20 % a 30 % de películas. No serviço
público observa-se uma perda em torno de 12 % porque os
profissionais são de má qualidade. No hospital onde
presto serviço a perda varia em torno de 5 %. Houve mês
que chegou a 15 % por causa de aparelhos maus calibrados ou variações
bruscas de tensão. Mais de 15 % é complicado”.
“Esse aumento de preços não se justifica porque
os insumos são importados e seus preços estão
em queda. Esses filmes, no máximo, são apenas recortados
no Brasil”.
“O exame
que mais consome chapas é o de tórax porque exige
pelo menos duas chapas: uma de frente e outra de perfil”.
“A UTI é
a área que mais consome Raio X”.
Perguntado se
ele sabia dos preços praticados pelo Hospital Regional
de Taubaté, o médico respondeu: “Radiografia
com laudo deve estar em torno de R$ 1,60. Se a Prefeitura fizesse
um convênio com esse hospital com certeza gastaria muito
menos”.
Sobre os altos
custos de manutenção apontados pelo dr. Pedro Luiz,
da Pró Visão, nosso interlocutor informou: “O
tubo (do aparelho de Raio X) é parte mais cara do aparelho.
Quando ele falha, o técnico percebe em uma ou duas radiografias.
Ele (técnico) então repete o exame. Se der o mesmo
resultado, o problema é com o tubo que custa em torno de
R$ 5 mil. O mais caro, da Siemens, custa em torno de R$ 10 mil.
Em 15 anos, tive no máximo três tubos queimados.
Tem aparelho que em 12 anos de uso nunca trocou de tubo”.
Câmara
Nossa reportagem
ouviu apenas o oposicionista Jéferson Campos (PT), que
classificou como “absurdo” o gasto com material para
raio X. Ele promete pedir uma CEI (Comissão Especial de
Inquérito) para apurar possíveis irregularidades
nas contas da Saúde. Um pedido de informação
à prefeitura será protocolado na terça-feira.
“A Câmara tem que investigar o caso, a prefeitura
paga mais de R$ 1 milhão em três meses com filmes
e a população com um sistema de saúde precário,
sofrendo com a falta de remédios. Vou pedir informações
à prefeitura, se elas não forem satisfatórias,
vamos trabalhar para abrir uma CEI”, disse. 
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