30 anos de
“Carta aos Brasileiros”

Os anos de chumbo é o chamado período de 1964 a 1985 em que o Brasil viveu sob uma ditadura militar. Em 8 de agosto de 1977, o jurista Gofredo da Silva Telles leu para centenas de pessoas, nas Arcadas da Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco, em São Paulo, um documento intitulado “Carta aos Brasileiros” que marcou o início do fim do regime militar e lançou uma luz no caminho da redemocratização do país

Por Paulo de Tarso Venceslau


      Em 1977, a ditadura dava os primeiros sinais de esgotamento. Muita gente ainda iria morrer até seu féretro em 1985 quando o general João Batista Figueiredo, aquele que preferia cheiro de cavalo ao do povo, saiu pelas portas dos fundos do Palácio do Governo para não passar a faixa para José Sarney, vice de Tancredo Neves que morreu antes de assumir a presidência da República, para a qual ele havia sido eleito de forma indireta.
      Em 1977, personalidades das mais variadas origens articulavam um movimento democrático que contribuísse para encurtar a vida do regime militar que abril daquele ano fechara o Congresso e continuava efetuando prisões arbitrárias como a do cineasta Renato Tapajós e cassações como as dos deputados Marcos Tito e Alencar Furtado.
      Em 1977, a Faculdade Direito da USP comemoraria 150 anos e os festejos oficiais estavam a cargo de Alfredo Buzaid, ministro de Justiça do governo comandado pelo general Garrastazu Médici. Foi nesse cenário de incerteza política que o professor direito Goffredo da Silva Telles foi convidado para ler um manifesto em defesa da democracia.
      Goffredo da Silva Telles era e foi o nome ideal para assumir a pposição que assumiu. Ele inspirava respeito, era isento e, mais importante, não tinha qualquer vínculo com a esquerda. Apesar dos riscos, ele aceitou o desafio que representava o anseio de muitos professores daquela escola. “O pedido veio ao encontro de um ideal que tinha no coração há muito tempo", lembra Flávio Bierrenbach, hoje ministro do Superior Tribunal Militar.
      A “Carta ao Brasileiros” foi subscrita por centenas de personalidades. O único critério era evitar que figuras conhecidas de oposição ou perseguidos políticos aparecessem. Por isso, nomes com Almino Afonso, ex-ministro de João Goulart, presidente deposto pelos militares, e Plínio Arruda Sampaio, sobrinho de José Luis Soares, ex-prefeito de Taubaté, que fora exilado no Chile e Europa não constam da lista de assinaturas.
      Em 1977, Lula era presidente do Sindicato do Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Não há qualquer registro de que ele, na ocasião tenha se interessado pelo tema. Ele só se engajaria no movimento pela redemocratização do Brasil durante as históricas greves que tiveram início dois anos após a leitura da “Carta aos Brasileiros”.
      O Brasil não seria o mesmo depois da leitura desse documento. As pessoas começaram a perder o medo. As eleições de 1978, embora limitadas e sem a presença de partidos políticos criados por livre vontade de seus filiados, registraram derrotas para o regime militar. Era o começo do fim da ditadura militar.
Na quarta-feira, 8, foi lançado o livro “Estado de Direito Já”, escrito por antigos alunos da Faculdade do Largo de São Francisco, para celebrar os 30 anos da “Carta aos Brasileiros”
      Leia “Carta aos Brasileiros´” na íntegra em clicando aqui.


Fotos da leitura da “Carta aos Brasileiros” na Faculdade de Direito
da USP em 8 de agosto de 1977


Momentos diferentes de várias comemorações realizadas por ocasião de aniversários da leitura da “Carta aos Brasileiros” pelo jurista Gofredo da Silva Telles.