Os Animais Pensam?

Talvez os humanos não tenham o monopólio de pensamentos e sentimentos, mostram psicólogos comportamentais norte-americanos. Espécies de macacos podem desenvolver capacidades cognitivas, acumulando uma série de habilidades lingüísticas

      Um pequeno gaio, da família dos corvídeos, de plumagem azul e castanha escura, no estado selvagem tem um comportamento típico: armazena comida para os dias futuros e depois consegue lembrar-se que tipo de comida guardou e onde. Mas será que este comportamento corresponde a uma verdadeira capacidade de planejar o futuro, como acontece com os seres humanos?
      Dados obtidos desde os anos 90 reforçam conceitos já defendidos por cientista desde 1976. Uma série de novas informações, construída desde 1990, fortaleceu a hipótese de que os animais pensam. No Arizona, um papagaio cinzento africano chamado Alex pode identificar cores e formas, assim como qualquer criança na pré-escola. Na Geórgia, um macaco, Kanzi, conversa com sua treinadora por meio do teclado do computador e assiste a filmes do Tarzan na televisão.
Kanzi é um chimpanzé bonobo nascido em 23 de outubro de 1980, em Atlanta, Estados Unidos, no centro Yerkes, uma espécie de campo para experiências com primatas não-humanos. Quando completou seis meses de idade, mudou-se com sua mãe adotiva Matata para o Language Research Center, onde a pesquisadora Sue Savage-Rumbaugh iniciou um experimento lingüístico com que consistia em relacionar o som de certas palavras a imagens desenhadas num tabuleiro para testar sua capacidade cognitiva.
      Mal imaginava a doutora que Kanzi, ali ao lado de Matata, quietinho, foi aprendendo tudo sem que ninguém o ensinasse. Logo Rumbaugh percebeu a enorme habilidade de Kanzi para relacionar as palavras que escutava com os símbolos no tabuleiro. Com tempo e treinamento, Kanzi desenvolveu uma extraordinária capacidade lingüística, dominando milhares de palavras e tornando-se capaz de formar frases inteiras, apenas apontando, sequëncialmente, os símbolos ali desenhados.

      O experimento demonstrou que, se tivessem aparato vocal para desenvolver a fala (suas laringes não são capazes de vocalizar a variedade de sons da laringe humana), os chimpanzés bonobos poderiam perfeitamente balbuciar sentenças lógicas e compreensíveis, já que seus cérebros são capazes de formular sintaxes. Hoje, a pesquisadora Sue Rumbaugh ensina oito macacos superdotados em seu Great Apes Trust of Iowa, entre eles Panbanisha, irmã de Kanzi, que toca teclados.
      Programas que apresentam para animais quebra-cabeças disfarçados como brinquedos e truques transformaram-se numa situação comum no cotidiano dos zoológicos. Essa pesquisa começou há 25 anos com o cientista americano Donald Griffin, hoje com 85 anos. Em 1976, ele publicou um livreto sugerindo que os humanos não tinham o monopólio de pensamentos e sentimentos. Os animais, ele afirmava, muito provavelmente também possuem essas características.
Segundo a doutrina comportamental da época, os animais não eram nada mais que robôs com um sistema nervoso central. A idéia de que uma formiga ou um urso poderia ter pensamentos, imagens mentais, experiências ou crenças não era apenas risível para eles; era herética.
      Quando Griffin lançou outro livreto sobre a consciência animal, nos anos 80, um psicólogo comportamental classificou a obra como “Os Versos Satânicos do comportamento animal”.Não fosse pelo fato de ocupar um cargo intocável na Rockefeller University e ter reputação internacional, Griffin talvez se visse desempregado depois disso.