Sempre
tive curiosidade de saber como funcionavam os namoros de antigamente.
Aquela história do rapaz passar diante da casa de uma donzela...
A moça na janela a fingir casualidade... E ninguém
dizia nada! Bastava isto para que fossem considerados namorados?
Empregadas cúmplices vigiavam a rua e, ao vislumbrar o
“pretendente”, corriam para chamar a moçoila...
Tudo escondido, porque os pais nunca estariam de acordo... Será
que sempre se escolhia a pessoa errada? As preferências
paternas nunca se alinhavam com o gosto das filhas... Queriam
eles casamentos convenientes? Ou somente determinados rapazes
estariam à altura de suas prestigiadas famílias?
Parece que o sentimento dos jovens é o que menos importava.
Namorar devia ser, então,
um eterno “sofrer no paraíso”, luta permanente
para “vencer as barreiras”. E tudo velado, porque
declaração mesmo, só depois de muitas peripécias.
Antes disto, apenas olhares lânguidos ou conversas rápidas
entre uma valsa e outra, naturalmente sobre assuntos de salão...
Penso que nessa época determinado tipo de olhar ou um breve
aperto de mão era muito considerado. Verdadeiras demonstrações
de amor profundo.
Tive a oportunidade de saber um pouco mais sobre isto através
da leitura do livro “Razão e Sentimento” de
Jane Austen, a mesma autora de “Orgulho e Preconceito”.
Ela narra com detalhes preciosos como tudo acontecia na Inglaterra
no início do século dezenove.
É interessante notar que naquela época os jovens
ingleses, que por ventura se considerassem namorados, tinham convivência
dentro da própria casa. A intensa vida social a que se
dedicava todo mundo reunia,
no mesmo ambiente, pessoas de categorias diferentes.
|
Havia
os mais ricos e os menos ricos.Os
primeiros viviam em mansões rodeadas de imensas propriedades
espalhadas pelo interior do país. Os outros eram acolhidos
por parentes ou amigos bem situados. Moravam em casas menores,
cedidas ou alugadas, quase sempre nas cercanias dos mais bem postos.
E acabavam sendo convidados para chás, jantares e bailinhos,
eventos em que moças pobres cruzavam com rapazes ricos
e vice-versa. Tinham a oportunidade de conversar sobre assuntos
variados, de mostrar ao outro suas preferências, fosse pelo
desenho, pintura ou música. Quando as afinidades coincidiam,
percebiam logo o interesse mútuo. Mas não o revelavam
a ninguém. Nem a eles mesmos. E era considerado indiscreto
quem ousasse desvendar o que ia pelo coração desses
jovens. Mães e irmãs desconfiavam e punham-se a
fazer suposições. Procuravam sempre “tirar
informações” sobre os envolvidos.
Apesar
desse aspecto facilitador da convivência, quase nunca dava
certo, porque o grande lance era casar-se com alguém rico,
objetivo não restrito somente às moças. Os
rapazes tinham até mais liberdade e eram incentivados a
cortejar herdeiras de grandes fortunas. Por imposição
da família ou vontade própria, acabavam sacrificando
sentimentos em favor do dinheiro.
E como falavam em dinheiro! Abertamente,
sem rodeios. Toda a sociedade sabia exatamente com quantas libras
anuais viviam fulaninho ou fulaninha de tal...
|