Dois
documentos importantes foram produzidos durante a expedição
de Pedro Álvares Cabral ao Brasil: A Carta de Pero Vaz
de Caminha, que relata ao Rei D. Manuel I os acontecimentos da
viagem e o contato dos portugueses com os índios, e a Carta
de Mestre João Faro, também dirigida ao Rei, que
contém detalhes sobre os aspectos astronômicos da
navegação, da determinação da latitude
do local onde Cabral e sua frota aportaram e sobre a constelação
do Cruzeiro do Sul.
A Carta de Mestre João descreve
a Astronomia, o Calendário e os Instrumentos Astronômicos
e Náuticos da época e revela, além disso,
um fato importante: já sabiam da localização
do Brasil . Tal fato fica evidente quando João sugere ao
Rei que consulte o mapa-mundi dos antigos.
Carta de Mestre João
O bacharel mestre João, físico
e cirurgião de Vossa Alteza, beijo vossas reais mãos.
Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram
a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente
escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que
foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor
e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia
e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional [meridional],
pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar
afastados da equinocial por 17º e ter por conseguinte a altura
do pólo antártico em 17º, segundo é
manifesto na esfera.
E isto é quanto a um dos
pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos
vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante
150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz
a verdade não se pode certificar até que em boa
hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos
quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e
o astrolábio.
|
Quanto,
Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer
um mapa-mundi que tem Pero Vaz Bisagudo e por aí poderá
ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapa-mundi
não certifica se esta terra é habitada ou não;
é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita
também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta
era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui
almadias a pelejar com eles e os levam cativos.
Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que,
acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas
não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal,
que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma
da mão; e também por causa de este navio ser muito
pequeno e estar muito carregado, que não há lugar
para coisa nenhuma.
Somente mando a Vossa Alteza como
estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está
cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível,
no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei
muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro
ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão
em terra. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Estrelas
nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte,
e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas
duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas
estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase
como as do Carro; e a estrela do pólo antártico,
ou Sul, é pequena como a do Norte e muito clara, e a estrela
que está em cima de toda a Cruz é muito pequena.
Não quero alargar mais, para não importunar a Vossa
Alteza, salvo que fico rogando a Nosso Senhor Jesus Cristo que
a vida e estado de Vossa Alteza acrescente como Vossa Alteza deseja.
Feita em Vera Cruz no primeiro de maio de 1500. Do criado de Vossa
Alteza e vosso leal servidor.
|