De
nada adiantou saber como se diz essa maldita palavra em outras
línguas. Ao contrário, só amplia sua ativa
presença. Faz um ano e meio que é minha indissociável
companheira. Fiel, ela me acompanha em todo lugar e vive comigo
minha vida social, quando sua presença é inoportuna
e indesejável, vai comigo para a cama, ampliando seu significado
e presença, acorda-me, alta madrugada, para que me lembre
de sua existência.
Não
me conforta ter ampliado meus precários conhecimentos sobre
ela, alertado que fui, ao descobrir, muitos anos atrás,
que a Escola Paulista de Medicina tinha uma cadeira que tratava
dela, levando-a mais a sério do que eu o fazia. Na verdade,
nem assim, confesso, dei a ela o significado que merece, lastimavelmente.
Agora
mesmo neste espaço, que é um sortilégio cercado
do que minha modesta vida tem de melhor - tantos livros, tantos
discos – estou cumprindo com meu dever com o Paulo, meu
editor e ex-aluno, ela está aqui comigo, mesmo depois que
o talento de um médico me aliviou tanto que até
cheguei a pensar que houvesse me abandonado.
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Ocorre
que descobri que uma dor puxa outra e, associadas, fazem de um
paciente uma vítima e de uma vítima um ser fraco
e sujeito a associar sua dor ao destino, pensando nela como inamovível.
Coisas tolas, se pertencentes a uma cabeça normal ou, pelo
menos, razoável. Minha dor, a dor que é só
minha, como se fosse um capital negativo dos negócios de
minha vida já apresentou sua fatura conexa e me exibe,
orgulhosa, uma isquemia, com algumas formas atenuantes, embora
existentes, o que terminará (?) em cirurgia “simples”,
uma bobagem, no pobre linguajar dos médicos.
A
dor, essa má idéia que puxei de meus dias de hoje,
acaba me levando para dentro das casas dos que me toleram, às
sextas, como se eu tivesse direito a invadir o sossegado espaço
onde vivem sem dor. É que uma faceta que ela não
faz muita questão de esconder pode aparecer quando você
está menos preparado para sua presença, agora sob
a forma de agulhadas que vão do joelho até a alma,
uma acupuntura impiedosa que chega até seus mais fundos
limites e fica revolvendo, até que só as lágrimas
conseguem tapeá-la e, mesmo assim, como engano, pois, já
já ela volta.
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