Ele
vai fazer cem anos! Um século! Sim, cem anos, um século
de criatividade e energia política. Este é um momento
solene e deve ser todo dedicado a Oscar Niemeyer. Sei de outros
centenários na cena nacional brasileira, mas nenhum merece
mais respeito que o famoso arquiteto.
Modesto,
comedido, exato e suave nas palavras, ele arranca admiração
de quantos se detêm a analisar sua obra monumental. Sobre
seus projetos, pode-se até não gostar, mas não
há como deixar de reconhecer a lógica social e a
preocupação com a qualidade de vida comunitária.
Eu mesmo, com olhar ingênuo de quem apressadamente sentencia
um “gosto” ou “não gosto” cheguei
a achar algumas criações estranhas. Mas, à
medida em que procurava entender a conexão entre prédios
e ideologia passava a admirar. Foi assim quando visitei o edifício
do Partido Comunista Francês em Paris, o Memorial da América
Latina em São Paulo e principalmente o prédio da
Fundação Getúlio Vargas no Rio. Nos três
casos mudei de idéia ao investir na relação
entre a proposta e a materialização dos projetos.
Diga-se à propósito que o vínculo entre o
intento e obra me foi uma das lições da contemplação
do mestre.
Lembro-me da primeira vez que visitei
Brasília e da sensação de espanto que tive.
Sem saber porque, repeti as críticas usuais a quem nada
entende: não há esquinas, onde estão os jornaleiros?
Tudo é tão plano e onde as pessoas se encontrariam?
Foi preciso conviver com moradores do local para saber o significado
das superquadras, do sentido comunitário pretendido em
uma cidade onde grande parte da população vinha
de fora e muitos viveriam ali por período determinado.
Uma das preocupações que me aturdiam ao ver Brasília
era a concepção de igreja. Como um ateu entenderia
o sentido religioso de uma igreja católica? Detive-me na
análise e todas as vezes que vou à nossa capital
federal insisto em ter alguns momentos livres para ir à
Catedral. É fantástica. As colunas que, em círculo
se levantam sugerindo um cilindro, representam mãos postas
rezando. A luz que vasa dos vidros magicamente aludem a naturalidade
do ar livre e o trânsito das orações ao céu.
E os anjos delicadamente pendurados ao teto que mais do que flutuar,
indicam a presença divina.
Devo dizer que minha obra favorita
de Niemeyer é a Universidade Mentouri Constantine, na Argélia,
mas há outras cativantes como os pavilhões do Parque
Ibirapuera, em São Paulo. Dentre tantas, porém,
algumas merecem menção pela singularidade de seus
significados. Recentemente visitei o Museu que leva seu nome em
Curitiba. Fiquei fascinado, mais por dentro do que por fora. É
incrível como consegue mexer com a percepção
da gente convocando sensações que confundem a arte
da construção com os objetos exibidos. Que dizer
dos demais museus de Niemeyer?! Basta afirmar que são imperdíveis?
O museu de Niterói vale pelo
prédio. A sutileza do acompanhamento das linhas externas
em coerência com o desenho do Pão de Açúcar
visto de longe é emocionante. Por certo, sou daqueles que
acham que o Rio de Janeiro é uma cidade abençoada
por Deus. Mas a benesse de ter um filho como Oscar Niemeyer melhora
a natureza pródiga. E até os derredores da Cidade
Maravilhosa se valem dessa dádiva. Atualmente, grande parte
da obra do magnífico arquiteto tem sido dedicada a essa
região.
E
tudo funciona como complemento: as linhas curvas que recentemente
adotou estão em coerência com a paisagem da cidade
do Rio de Janeiro.
Só lastimo que o nosso Vale
tenha desdenhado um dos projetos mais exemplares dele, o Clube
dos 500, onde os primeiros ensaios de colunas que depois apareceram
perfeitas em Brasília hoje parecem lixo. De toda forma,
os cem anos de Oscar Niemeyer o fazem superior até mesmo
aos maus tratos à sua obra.