Espelhos (clique)

Por: José Carlos Sebe Bom Meihy

CARA-METADE E ALMA GÊMEA




Mestre Sebe vai buscar na mitologia grega a origem de nosso complemento humano e afetivo que a sabedoria popular não abre mão quando se trata da incessante busca da alegria e da felicidade.

Sempre gostei de histórias de amor. Sempre. Como historiador, a história das histórias de amor me fascina e convida a mergulhos nas profundas águas de seus mistérios. Por vezes em minha vida fiquei atento às expressões que se referem à pessoa amada, e, nesta linha, duas delas merecem consideração: “cara-metade” e “alma gêmea”.
Fico perplexo por saber que as pessoas desconhecem a origem de termos presentes em praticamente todas as línguas do ocidente. E nos dois casos há uma mesma origem, nobre, relacionada à fundamentação mítica. Certamente, há de haver outras explicações para tais expressões, mas, dentre tantas, há uma lenda que chega a me comover pela beleza e sofisticação dos detalhes que, por meio da memória popular, atravessou os séculos e se eternizou em páginas atentas aos estudos de mitologias.
Tudo teria ocorrido na Grécia do poeta Aristófanes. Segundo o pressuposto lendário relatado, no começo do mundo, todos os seres eram unos e duplos em si. Homens e mulheres ao mesmo tempo, todos tinham duas cabeças, quatro braços e pernas, um sexo de cada lado.
Os estranhos seres então eram chamados “andróginos” e se bastavam porque eram completos em si. E felizes ao extremo por não precisarem de partes que os completassem. Era assim que Aristófanes explicava a origem do amor que seria um sentimento tão forte e pleno, capaz até de limitar o poder dos deuses do Olimpo.
Ameaçados mediante o esforço dos “andróginos” que, convictos de que com a intensidade do amor poderiam tudo, os deuses construíram uma torre para alcançar e vencer as grandes entidades que, por sua vez, sentindo-se agredidas, resolveram puni-los com uma maldição fatal.
De forma dramática, os “andróginos” foram separados, divididos em duas partes, tornando-se fracos e dependentes uns dos outros. Então, seres com apenas uma cabeça, dois braços e duas pernas, os andróginos perderam a capacidade de se bastar e sua solidão seria imensa até que, multiplicados na Terra, um só seria feliz se encontrasse a sua perfeita cara-metade. Ou homens ou mulheres, os seres teriam a maldição da procura de seu outro eu. E seria muito difícil uma parte achar a outra, pois todos estariam misturados e perdidos em multidões.
Mas os grandes deuses deixaram uma possibilidade, pois se os fragmentos estivessem atentos a se encontrar, não significariam grande ameaça aos poderes olímpicos. De outro jeito, os ex-andróginos só se completariam se fossem perfeitamente ajustados uns aos outros. Reunidas, cada fração poderia ser novamente forte. Caso contrário, de acordo com o mito, a maldição divina faria que homens e mulheres fossem sempre infelizes, frustrados e perambulariam pela vida em busca da sua alma gêmea.
Certamente, a lenda, por bonita que seja, não corresponde a mais elementar possibilidade científica. Mas, seu encanto é incomensurável. E também o é a lição que todos precisamos de nossa cara-metade ou alma gêmea. E assim vagamos pelo mundo na caçada incessante de seres que nos complementem e nos façam felizes.
Mais do que tudo, resta pensar na sabedoria popular que, mesmo tendo esquecido a origem mitológica das expressões, não deixa de lado o dever individual de buscar o outro, o par, o complemento.

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